San Cristóbal de Las Casas, México

O Lar Doce Lar da Consciência Social Mexicana


No coração amarelo de San Cristóbal

Transeuntes de San Cristobal de Las Casas cruzam-se em frente à catedral secular da cidade.

Negócios indígenas

Vendedoras e compradoras maias no mercado municipal da cidade.

“Aqui manda el Pueblo”

Placa numa estrada de Chiapas anuncia a entrada num território zapatista e rebelde.

Emiliano Zapata

Letreiro de um dos estabelecimentos zapatistas de San Cristóbal homenageia Emiliano Zapata, um revolucionário histórico que se tornou ídolo mexicano.

Sob o peso do catolicismo

Nativos junto a uma das muitas igrejas do “pueblo mágico”.

Viva Zapata !

Letreiro de um dos estabelecimentos “zapatistas” de San Cristóbal. 

Vestes felpudas

Indígena com traje típico de San Juan Chamula, uma povoação vizinha conhecida pela fusão autonomista que criou de crenças indígenas e do catolicismo.

Graxa & Sombreros

Engraxadores fazem brilhar os sapatos e botas de habitantes de San Cristóbal de las Casas.

Gente cristobalense

Transeuntes percorrem uma rua nas traseiras da catedral de San Cristóbal de Las Casas.

Uma Fé móvel

Devoto carrega uma estátua da Virgen de Guadalupe, durante tempos de peregrinação em sua honra.

Uma montra ambulante

Vendedora maia carregada com a sua mercadoria colorida.

Maia, mestiça e hispânica, zapatista e turística, campestre e cosmopolita, San Cristobal não tem mãos a medir. Nela, visitantes mochileiros e activistas políticos mexicanos e expatriados partilham uma mesma demanda ideológica.

É de longe uma das principais imagens de marca da povoação e não havia como escapar-lhe. “Señores, no quieren acaso unas pulseritas?” Fossemos para onde fossemos, pequenos esquadrões de vendedoras maias seguiam-nos ou apareciam do nada determinadas em ganhar mais uns pesos. “Miren, tenemos de todos los colores!” e esticavam-nos os braços curtos, sobrecarregadas com redes de dormir, fitas, bolsas e tantas outras peças de artesanato com padrões garridos do mesmo estilo. Por vezes, ainda com crianças de colo.

Estas mulheres de baixa estatura, cabelos negros longos entrançados como os tecidos que produzem, peles douradas e olhos ligeiramente amendoados chegavam logo bem cedo, a pé ou nos autocarros velhos e folclóricos que serviam o trajecto entre as aldeias mais distantes e a cidade. Eram maias Tzotzil ou Tzeltal, as sub-etnias predominantes naquelas terras altas (acima dos 2000 metros de altitude) da província mexicana de Chiapas onde, em conjunto, contam com mais de oitocentos mil elementos.

Famílias inteiras de nativos dão mais vida ao mercado municipal onde, além do artesanato, vendem de tudo um pouco, tanto aos habitantes regateadores da região como aos forasteiros curiosos que sondam as bancas em busca das recordações. Em complemento, os lugares preferidos das vendedoras ambulantes maias são a frente sempre movimentada da catedral de San Cristobal e o Zócalo, no caso, um parque verdejante que percorrem de olho na polícia local que as proíbe de vender fora do mercado.

Passou meio milénio desde que os invasores espanhóis assentaram arraiais por estes lados, depois de o conquistador Diego de Mazariegos ter derrotado vários subgrupos maias e instalado um forte que lhe permitiu resistir aos contra-ataques. Mesmo se não tão desconsiderados como então, depressa constatamos que os indígenas não são propriamente amados por grande parte da população branca e até mestiça da cidade. Apesar de a maior parte falar castelhano como segunda língua, raras são as vezes que os vemos em diálogo com os seus moradores. Pelo contrário, chegamos a ouvir conversas destes em que os continuam a menosprezar como seres humanos.

À imagem do que se passou em tantas outras paragens das Américas, com a colonização, veio a pilhagem e a exploração. Na região de Chiapas, os cidadãos espanhóis acumularam fortunas, sobretudo com a produção de trigo. As terras cultivadas foram todas confiscadas aos nativos. Em troca, ser-lhes-iam impostos, trabalho forçado, tributos e doenças recém-trazidas do Velho Mundo.

Esta opressão prolongou-se pelos séculos fora, apesar da resistência que passou a encontrar. Os monges dominicanos chegaram à região em 1545 e fizeram de San Cristobal a sua base operacional. O nome da cidade foi estendido em honra de um deles, Bartolomé de Las Casas, entretanto apontado Bispo de Chiapas. De Las Casas tornou-se no mais notório defensor espanhol dos povos indígenas da era colonial. Em tempos recentes, um bispo de nome Samuel Ruiz, seguiu os passos de Las Casas e mereceu o repúdio e a hostilidade da elite governante e financeira de Chiapas. Ruiz acabou por se retirar são e salvo, em 1999, após muitos anos no cargo. Faleceu em 2011. Entre as suas intervenções de cariz político-social que lhe granjearam vários prémios de instituições internacionais pela paz, incluindo a UNESCO, contaram-se frequentes mediações do conflito entre o Governo Federal Mexicano e o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) que, volvidas duas décadas de ressentimento e activismo, começou a operar a partir da selva de Lacándon, nas terras baixas da província, em 1994, o dia em que o Tratado NAFTA (Tratado Norte-americano de Livre Comércio entrou em vigor.  Mesmo sem as intervenções militares de outrora, preserva a sua estrutura.

Uns dias antes, enquanto viajávamos montanha luxuriante acima pela estrada sinuosa que liga Tuxtla Gutiérrez – a capital actual de Chiapas – a San Cristóbal, sucediam-se as pequenas portagens impostas às viaturas com simples cordas esticadas por aldeãos, por vezes crianças, de ambos os lados da estrada. “Isto são os impostos locais!” explica-nos Edgardo Coello o condutor e guia que há muito mostrava aquelas paragens a forasteiros. O dinheiro do governo não chega até eles e eles, cobram as taxas que acham devidas a quem passa. Eu não me importo de deixar uns pesos de vez em quando mas, quando acho que são demasiado seguidas e oportunistas, aí, simplesmente não paro. Nunca me aconteceu levar ninguém atrás mas já me contaram histórias de um ou outro incidente rocambolesco com os portageiros, à conta de não reagirem a tempo!”

Uns quilómetros para diante e para cima, já de noite, mandam-nos parar as autoridades oficiais de metralhadoras a tiracolo. Investigam o jipe e os passageiros com critério. “E porque é que estão a passar já de noite?” quer saber um dos militares federais a quem intriga a hora tardia para os hábitos dos guias locais. Edgardo impinge-lhe uma qualquer explicação logística e consegue permissão para prosseguirmos. Pouco depois, atingimos a entrada de uma povoação mal iluminada. Com o reforço dos faróis do jipe, detectamos uma tabuleta de madeira rudimentar e envelhecida que publicita: “Está usted en território Zapatista en rebeldia. Aqui manda el Pueblo y el gobierno obedece.

Em poucos lugares do México esta proclamação fez tanto sentido como em Chiapas. No estado mais meridional do país, os zapatistas provaram-se na quase totalidade nativos. Não foi o caso do emblemático e holográfico Subcomandante Marcos que há pouco mais de um ano publicou uma carta em que confessava ser na realidade Subcomandante Insurgente Galeano. Inspirado na figura do herói nacional-revolucionário Emiliano Zapata, o Zapatismo sintetizou práticas maias tradicionais com elementos libertários do socialismo, anarquismo e Marxismo contra a selvajaria neo-liberal e pró-globalização. Armado da sua ideologia, de metralhadoras e da densidade da selva de Lácandon, o EZLN procurou devolver aos indígenas o controlo das suas terras e matérias-primas, com todas as forças e apesar das baixas probabilidades de sucesso.

O Subcomandante Marcos – Insurgente Galeano, aliás – foi abatido em Maio de 2014 numa emboscada levada a cabo por paramilitares. Com a sua morte, o EZLN passou a ter liderança indígena e reforçou a notoriedade mundial que já conquistara. Em San Cristóbal, em particular, relançou o fenómeno do Zapaturismo.

Neste pueblo mágico ­– assim lhe chamam os mexicanos – é a deslumbrante arquitectura colonial que começa por se destacar. Impressiona-nos a beleza da catedral da cidade, em particular da sua fachada barroca e oitocentista que o descer do sol no horizonte vai tornando mais amarela ao longo da tarde, quando dezenas moradores usam a cruz à sua frente como ponto de encontro. Outra igreja igualmente barroca e ainda mais elaborada que nos encanta é o Templo de São Domingo, todo ele decorado em filigrana de estuque. Subimos os incontáveis degraus que levam ao cimo dos cerros de San Cristóbal e de Guadalupe e admiramos o casario hispânico térreo colorido e repleto de pátios interiores que constitui a cidade. Ainda exploramos a casa-museu Na Bolom que estuda e apoia as culturas indígenas de Chiapas.  

Como nós, milhares de forasteiros deixam-se todos os anos fascinar por estas atracções mais óbvias.

Mas, passados os anos de conflito mais aceso (1994-1997) que prejudicaram sobremaneira a chegada de visitantes, hoje, a velha capital da província atrai um bom número de adeptos e activistas internacionais do Zapatismo. Instalam-se em pousadas baratas para debater e conspirar em bares, restaurantes e centros de artesanato ou combinações de todos, baptizados como “Revolución” e com outros nomes do género. Estes lugares assumem-se agora sem receios. Ernesto Ledesma, psicólogo e dono do restaurante Tierra Adentro – um dos mais emblemáticos – que trabalha com duas cooperativas zapatistas, a “Mujeres por Dignidad” e a “Fábrica de Calzado 1 de Enero” explica que os turistas zapatistas se dividem em duas categorias. “A uns interessa tirar umas fotos com zapatistas e seguir o seu itinerário pela atracções históricas e naturais de renome. Ou, vá lá que seja, pelo Zapatour, o percurso que, em 2001, levou os Zapatistas por doze estados mexicanos para colocarem a questão indígena no centro do debate político nacional.

Os outros, não devemos sequer chamá-los de turistas. Partilham um verdadeiro interesse social e político. Interessa-lhes aprender e colaborar com a causa. San Cristóbal de Las Casas beneficiou muito com a notoriedade conquistada pelo Zapatismo. Ainda mais com a proliferação destas duas classes de visitantes. Chiapas, sempre foi esquecida pelo governo. Sem saber muito bem como, o Subcomandante Marcos foi o melhor relações públicas que podíamos ter tido.”

 

ACOMPANHE-NOS NO "DESTINO IMPROVÁVEL", ÀS SEXTAS, NAS REVISTAS TABU E CAJU (ANGOLA) DO JORNAL SOL.

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