Lombok, Indonésia

Na Sombra de Bali


Sementeira lacustre

Camponesas plantam arroz nos arredores da capital Mataram.

O Protector sagrado

O vulcão Gunung Rinjani, segundo mais elevado da Indonésia, envolto em nuvens.

Crespusculo Romântico

Namorados partilham um pôr-do-sol alaranjado a sul de Senggigi.

O último salto

Queda d'água encharca a selva no sopé do monte Rinjani.

Capricho dos Deuses

Chapéu de sol arrumado contra um dos santuários do templo hinduista Batu Bolong.

Parelha & Arado

Agricultor lavra um terreno alguns kms para o interior de Bangsal, na costa norte de Lombok.

Índico Turquesa

Praia com areia vulcânica a norte de Senggigi.

Macaca Fascicularis

Femea de macaco caranguejeiro numa floresta tropical.

Perahu

Pescador navega um pequeno barco tradicional.

Formas tropicais

Base de árvore curvilínea numa floresta junto a Senaru.

Hinduismo balinês

Silhueta do templo Batu Bolong contra a do vulcão Gunung Agung, já parte de Bali.

Há muito encobertos pela fama da ilha vizinha, os cenários exóticos de Lombok continuam por revelar, sob a protecção sagrada do guardião Gunung Rinjani, o segundo maior vulcão da Indonésia.

A estrada que segue para norte de Senggigi sobe e desce, curva e volta a curvar infinitamente desvendando, a cada um dos seus caprichos, cenários tropicais inesperados.

Fazemos o percurso a meia-encosta. Sucedem-se, lá em baixo, enseadas de areia cinzenta, pintada pelo col

orido das embarcações de pesca tradicionais ou extra-escurecidas pela sombra da floresta de coqueiros que preenche o vale, até quase tocar o azulão do Mar de Bali.

Mais alguns “ésses”, uma longa rampa e, da ilha homónima, insinua-se, no

horizonte, o triângulo quase perfeito do Gunung Agung, um vulcão de 3142 metros de altitude que já foi devastador e pode voltar a entrar em actividade a qualquer momento, apesar da imagem angelical impingida pela sua auréola de nuvens permanente.

O ambiente &eac

ute; rústico e rural mas roça o topo da escala do exotismo. Nos campos verdejantes à beira do asfalto, caminham camponeses de chapéus cónicos que conduzem cabras e vacas aos pastos. Ao nível do mar, remam pescadores a b

ordo de pequenos perahus (barcos artesanais) prestes a desembarcar nas suas aldeias plantadas no areal.

Praias maravilhosas não faltam em Lombok. Na costa noroeste, de Senggigi até chegar a Pemenang destacam-se a Malimbu e a Mangsit. Mais para norte, fica a de Sira e, ao lado, a Medana. Quem as contempla, desertas e selvagens, fica de pé atrás. Que há de errado com estas baías irresistíveis? Nos dias que correm, nada de nada. O que se passa é que Lombok esteve décadas à sombra da vizinha glamorosa e o seu promissor desenvolvimento turístico foi prejudicado por confrontos religiosos ocorridos em 2000 e pelos atentados de Kuta, Bali, em 2002. Por estes motivos e mais alguns, como o facto de ter uma população maioritariamente muçulmana tradicionalista que inibe alguns comportamentos ocidentais “pagãos”, em termos turísticos, Lombok é, hoje, a Bali de há vinte anos atrás. Agora que a tranquilidade parece ter regressado de vez, não se deve manter assim por muito tempo. Os seus visuais exóticos justificam-no mas são apenas a razão mais óbvia.

A Linha de Wallace, uma divisória biogeográfica entre a flora e a fauna da zona ecológica indomalaia e a da Australásia, passa exactamente sobre o Estreito de Lombok. Apesar dos escassos 75 km de leste a oeste, quase os mesmos de norte a sul, Lombok contribui decisivamente para a ruptura da paisagem, a Wallacea. É uma das Pequenas Ilhas da Sonda com maiores contrastes.

Devido à morfologia acidentada que culmina nos 3726 metros do vulcão Gunung Rinjani – o segundo mais alto da Indonésia, atrás apenas do Puncak Jaya (5050 m), da Papua Ocidental – certas áreas do seu território são tão húmidas e luxuriantes como Bali. Outras, principalmente a sul e a leste, mantêm-se secas como o interior da Austrália, anos a fio, independentemente do fluir das monções do sudeste asiático que se antecipam ou atrasam mas acabam sempre por chegar.

Anunciam-se por volta de Outubro, mês em que o acumular de nuvens se intensifica. Costumam resistir até Maio quando a mudança de padrão climático vira os ventos para norte e a chuva passa para as latitudes superiores do sul da China, Filipinas, da Península Malaia, Myanmar, Tailândia e vizinhos da antiga Indochina. A partir de Maio, apesar de predominarem os dias solarengos, abordam Lombok nuvens determinadas, tantas vezes escuras como breu, que descarregam num ápice e somem noutro.

Foi num cenário meteorológico deste tipo que chegámos, vindos de Denpasar – Bali, sobrevoando um trecho curto mas majestoso do Anel de Fogo do Pacífico: o céu carregado até mais não e o sol a espreitar com receio, reflectindo-se no mar. Por algumas horas, reinou uma atmosfera densa, arroxeada, de luz mágica e cheiro forte a terra asiática encharcada. Na manhã seguinte instalaram-se as altas pressões e tudo voltou a normalidade.

Os 2.4 milhões de habitantes de Lombok adaptaram-se à morfologia e ao clima da ilha. Moram e têm os seus arrozais a norte do Rinjani, nas planícies férteis do centro, irrigadas pela água que flui da vertente sul do vulcão e nas zonas costeiras viradas a oeste, também elas propícias à vida.

São maioritariamente sasaks, uma etnia muçulmana que retém antigas crenças animistas. Em termos fisiológicos, assemelham-se aos javaneses e aos balineses mas foram, durante largo tempo, um povo de montanha, algo que moldou a sua cultura e lei tradicionais Adat, o princípio porque continuam a reger o nascimento, a circuncisão, os noivados, os casamentos e, em tantas situações, o dia-a-dia.

Oprimidos pelos balineses que ocupavam toda a ilha desde 1750, em 1891, os sasaks convidaram os holandeses que ocupavam Bali a tomar conta de Lombok.  A resposta demorou mas chegou em força: três anos depois, o governador das Índias Orientais Holandesas, Van der Wijck, assinou um tratado com os rebeldes e acabou por derrotar os balineses, conseguindo manipular as aristocracias de ambos os povos em conflito de forma a conservar a paz e o poder. Foi um equilíbrio improvável que se manteve longos anos, mesmo após da concessão da independência dos holandeses à Indonésia, em 1958, e a integração de Lombok na província insular de Nusa Tenggara Barat. 

Actualmente, os balineses são à volta de 10% e os Sasaks quase 90% mas, devido ao requinte colorido da sua religião, os primeiros destacam-se da multidão. Como as restantes cidades e povoações menores da ilha, Senggigi – a mais turística – desperta ao chamamento do “Allah hu Akbar” madrugador cantado pelos muezins e rege-se pelos quatro seguintes. Isso não impede que, ao mesmo tempo, no Pura (templo) Batu Bolong, a família Mindra, trajada a preceito de sash (lenço) e sarong coloridos leve a cabo os rituais elegantes do hinduísmo balinês. 

O hinduísmo balinês está tão ou mais distante do indiano que Lombok da Índia. Como os hindus do sub-continente, os balineses crêem na trindade Brahma, Shiva e Vishnu, mas acreditam também num deus supremo, Sanghyang Widi que não é frequentemente venerado, com excepção para a fundação de uma nova aldeia.

Ao contrário do que acontece na Índia, em que proliferam imagens quase livres e invariavelmente garridas destes deuses, em Lombok, como em Bali, a trindade nunca é vista. A génese da cultura e religião balinesas está na era Majapahit, um reino de influência indiana que, de 1293 a 1500, dominou várias ilhas indonésias e a península malaia e acabou por se refugiar, em Bali, da invasão dos Sultanatos de Malaca e Demak.

Uma das crenças pré-Majapahit que os balineses preservaram foi o kaja, kelod ou kangin, a orientação dos templos de frente para montanhas, o mar ou o nascer do sol, em deferência aos seus espíritos animistas. É por respeito a esta crença que o ritual da família Mindra se faz sob a supervisão longínqua e sagrada do Gunung Agung, o maior vulcão de Bali.

A ilha não é propriamente grande mas vamos tratando da descoberta de Lombok, aos poucos, contando com a cooperação da mota alugada que continua sem dar problemas.

A costa oeste já ficou para trás e, com ela, uma série de aldeolas sasaks encaixadas entre o mar e a montanha, quase sempre à beira da estrada que, aqui e ali, desaparece debaixo da areia arrastada pelas torrentes de água caídas da encosta.

Cruzar estas povoações exige cuidados de condução redobrados. Atravessam-se à nossa frente cães, vacas e galinhas e, como o trânsito é reduzido, a estrada faz ainda de campo de futebol, de pátio para todas as brincadeiras de criança e convívio dos adultos. Já no norte, os espaços aumentam. Surgem arrozais vastos e campos com outras culturas salpicados de espantalhos toscos e camponeses atarefados.

Passamos, sem parar, por Bangsal e seu pequeno porto.  É famosa entre a comunidade mundial de “mochileiros” a máfia local de pretensos guias, agentes e vendedores aldrabões que tudo inventam para conseguir umas rupias extra durante o translado para as Gili Islands – cuja tradução trapalhona do bahasa e do inglês é Ilhas Ilhas – que acabámos também por visitar.

Ficámos apenas duas noites nas Gili. Venceu a vontade de regressar a Lombok que nos tinha surpreendido e continuava a fascinar. Como tal, voltámo-nos a instalar em Senggigi e prosseguimos a exploração, ainda à moda motoqueira. 

Decidimos deixar a costa e tomar um caminho que iria começar em Mataram, a capital, e seguir para norte, atravessando a extremidade leste do Parque Nacional Gunung Rinjani, uma área elevada de floresta densa.

A caótica Mataram tem cerca de 320.000 mil habitantes. Apesar de ser considerada uma cidade, é, na realidade, um conglomerado de quatro cidades independentes: Ampenam (o porto); Mataram (o centro administrativo); Cakranegara (o centro de negócios) e Bertais, a zona marginal que recebeu o novo terminal de autocarros. Depois de verificarmos um ou outro pura e o Mayura Water Palace, supostamente na lista das suas atracções imperdíveis, concluímos que o tempo é melhor gasto sobre a “nossa” poderosa Honda Supra, à descoberta dos cenários naturais e rurais da ilha. 

A estrada interior entre Mataram e Pemenang tem um desenho no mapa praticamente igual à que liga as duas povoações pela costa. As vistas, essas, são distintas. Começamos por atravessar uma zona de arrozais minifundiários e arrumados em socalcos sobrepostos até à orla do bambu que anuncia o início da selva. À frente e acima no percurso, a estrada embrenha-se totalmente na vegetação e torna-se sombria. Atinge o seu ponto mais alto, já em plena Monkey Forest, onde reinam centenas de exemplares endiabrados e ladrões, de uma subespécie barbuda, os macacos-caranguejeiros (macaca fascicularis).

Ali, a selva abre e dá origem a um miradouro espontâneo que revela uma das perspectivas mais impressionantes de Lombok: a floresta tropical densa e coberta de névoa a estender-se suavemente encosta abaixo até encontrar o mar, vários quilómetros para diante.

As vertentes íngremes do Rinjani abrigam inúmeros cenários semelhantes ao deste itinerário, todos eles com os seus encantos particulares. Proliferam quedas d’ água impressionantes com acessos que partem de aldeolas semeadas em campos rurais idílicos e continuam para trilhos de selva dignos de um Indiana Jones ou da colega Lara Croft.

São os casos de Tetebatu e Lendang Nangka, na vertente sul, mas principalmente de Senaru, na norte, com acesso às suas quedas d´água Sindang Gila e Tiu Kelep, ambas, pela dimensão e beleza, dignas da caminhada de quarenta minutos e travessias de rio a que obrigam.

Apesar de existirem outras hipóteses, com o passar dos anos, Senaru transformou-se na base eleita para as ascensões à Danau Segara Anak (Filha do Mar) – a enorme cratera-lago azul-turquesa do vulcão Gunung Rinjani – e acolheu o Rinjani Trek Centre, em que podem ser contratados guias e carregadores e tratar-se da restante logística.

O circuito integral – como o mais curto de ida e volta à cratera – é desaconselhado durante a época da chuva quando os trilhos estão enlameados e escorregadios. Algo penoso para quem não está em boa forma, faz-se em quatro dias: são cinco ou seis horas de trekking, no primeiro, para atingir o Pos III (o terceiro abrigo a partir de Senaru); mais três a quatro para ir dali às termas, no segundo dia; o mesmo tempo para Pelawangan II (um abrigo situado já sobre a cratera), no terceiro e, no quarto dia, cinco a seis horas para atingir o cume do vulcão. Esta derradeira etapa tem início por volta das três horas da madrugada. O horário, cruel, tem uma boa justificação: permite chegar ao topo a tempo do nascer do sol, com sorte, antes de as nuvens se instalarem.

Depois da conquista do cume e da merecida  contemplação do lago-cratera e da paisagem de Lombok, segue-se o percurso descendente até Sembalun Lawang que, comparado com os anteriores, se faz com uma perna às costas.

O Gunung Rinjani mantém-se inactivo desde 1901, ao contrário do Baru, comparativamente, uma miniatura de vulcão alojada na sua cratera. A última erupção do Baru ocorreu em 1994. Mudou a forma do cume do Rinjani e espalhou cinza sobre grande parte de Lombok. Nada de verdadeiramente dramático.

Tanto os sasaks como os balineses consideram o Rinjani sagrado. Alguns sasaks fazem várias peregrinações por ano, por norma, durante a lua cheia quando lhe prestam homenagem e aproveitam para curar problemas de saúde banhando-se nas águas quentes que dele brotam. Já para os balineses, tem a mesma importância religiosa que o Gunung Agung. Vêem-no como um trono dos deuses e, por essa razão, organizam uma peregrinação anual em que é realizada a Pekelan, a cerimónia em que atiram jóias ao lago e fazem outras oferendas ao espírito da montanha.

Tanta reverência parece garantir a clemência e protecção do vulcão. Os anos passam e o Gunung Rinjani continua a poupar e a proteger Lombok, um segredo bem guardado de Nusa Tenggara.

 

 

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