Batad, Filipinas

Os Socalcos que Sustentam as Filipinas


Vale de socalcos
O vale profundo de Batad, coberto de socalcos plantados com arroz.
Gerações
Jovem moi milho sob o olhar do avô e de um galo oportunista.
Nativo e palmeira de betele
Nativo atravessa as plantações de Batad.
Longe de Tudo e de Todos
Vista das montanhas que envolvem Batad com a aldeia escondida no vale abaixo.
Repouso Filipino
Camponês acocorado sobre o rebordo elevado de um socalco.
Mulheres
Mulheres fazem uma pausa no trabalho de limpar um terreno para plantarem batata doce.
Abrigo de Folhas Secas
Palhota típica da região de Batad, com a cobertura íngreme para fazer escoar a chuva abundante na região.
Muro
Nativo caminha sobre um muro alto.
Contemplação
Nativo de Batad contempla a vista a partir da sua casa a meio da encosta.
No Meio do Arrôz
Vista do núcleo central de Batad, no sopé de um longo arrozal em socalcos.
Camponesa
Camponesa corta erva daninha.
Pé a Pé
Raparigas plantam um socalco alagado.
Aldeia
Pormenor da aldeia de Batad no centro dos socalcos de arroz.
Destino: Batad
Visitantes ocidentais descem o trilho íngreme para Batad.
Vício Escarlate
Camponesa masca noz de bétele, um hábito secular desta região isolada de Luzon.
Fidelidade Canina
Cães acompanham a dona enquanto trabalha num dos muitos socalcos de Batad.
Plantação
Crianças plantam arroz num socalco triangular.
Há mais de 2000 anos, inspirado pelo seu deus do arroz, o povo Ifugao esquartejou as encostas de Luzon. O cereal que os indígenas ali cultivam ainda nutre parte significativa do país.

Tínhamos partido de Banaue pouco depois da alvorada, a bordo de um jeepney tão velho quanto exuberante.

Doze quilómetros de estrada de montanha depois, a relíquia automóvel deixa-nos e a um grupo de jovens missionários da Noruega, na base do trilho para Batad.

Vencemos 3 km de subida inclemente até atingirmos uma espécie de sela intermédia formada pelo relevo, já acima da aldeia. Seguem-se 45 minutos de descida íngreme. A combinação destes esforços contrastantes que massacrou-nos as pernas bem mais do que estávamos à espera.

Germaine vê-nos chegar do cimo do vale profundo de Batad. Tenta aliviar-nos o cansaço com boa disposição: “São terríveis esses degraus, não são? Altos que se farta.

Fomos nós que os escavámos mas parecem mais ter sido feitos para os ossos grandes e brancos lá do norte da Europa. Nós cá da aldeia temos perna curta. Ainda nos cansamos mais que vocês, acreditem.”

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Visitantes ocidentais descem o trilho íngreme para Batad.

Instalamo-nos no Rita’s Lodge, uma pousada humilde que a família baptizou em nome da sua mãe, erguida apenas com tábuas mas com vista majestosa sobre a vertente oposta da povoação e da encosta que a tornou famosa.

Nesse dia, já só temos pouco mais que uma hora para a apreciarmos em pleno esplendor. A tarde avança.

O sol incide apenas no topo da montanha. Deixa a povoação primeiro à sombra, logo, numa penumbra silenciosa quebrada pelo brilho longínquo das estrelas, de um outro candeeiro a petróleo e pelo ladrar dos cães.

Romeo, pai de Germaine, junta-se aos hóspedes na varanda do seu estabelecimento. Conversa puxa conversa, inaugura uma longa palestra sobre a valia dos seus antepassados Ifugao. É assim que ouvimos falar pela primeira vez da hipótese histórica que os liga a uma etnia chinesa em fuga.

Defende essa teoria que, entre 2205 e 2106 a.C., o imperador Yu o Grande da Dinastia Shan, ordenou a perseguição de uma minoria rebelde, os Miao. Sem forma de lhes resistir, os Miao teriam cruzado o Mar da China do Sul. Refugiaram-se em Luzon, a maior ilha das Filipinas.

Os Miao já eram conhecidos na China pela sua mestria no cultivo de arroz sobre socalcos.

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O vale profundo de Batad, coberto de socalcos plantados com arroz.

Na Cordillera de Luzon, encontraram uma terra semelhante aquela de que escaparam. Pouco tempo depois de se instalarem, já tinham disseminado os seus terraços por um vasto território.

Os Miao não tardaram a misturar-se com os nativos Ifugao (povo das montanhas) do norte de Luzon. Nessa fusão, passaram-lhes parte da sua cultura, incluindo as técnicas de cultivo.

Romeo ajeita o cabelo grisalho recém-libertado do rabo-de-cavalo. Franze as muitas rugas, provas dermatológicas de uma longa experiência de vida, da sabedoria acumulada sobre a região e os seus costumes.

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Camponês acocorado sobre o rebordo elevado de um socalco.

“Tenho uma enorme colecção de peças dos nossos antepassados no meu museu. Mas não são só estatuetas e jóias. Também para lá guardei fotografias. As minhas preferidas são as das mulheres, durante o hudhud. Têm que as ver!”

Segundo percebemos, não é agora tão frequente mas, durante séculos, as mulheres Ifugao – uma etnia matrilinear – acompanharam as sementeiras e colheitas do arroz, bem como os velórios e funerais com cânticos guturais narrativos épicos, descritivos da história do seu povo.

A UNESCO registou as paisagens dos Terraços de Arroz na lista de Patrimónios Mundiais. Recentemente, o hudhud complementou o rol de tesouros das Filipinas, enquanto herança intangível. Quando foi levada a cabo a sua quantificação, apuraram-se mais de 200 cantos, cada um deles dividido em 40 episódios.

Rita, a esposa de Romeo afiança, com orgulho, que já participou em muitas dessas cantorias comunais.

Aproveitamos uma pausa no diálogo e retiramo-nos para um descanso merecido sob um retalho de firmamento emoldurado.

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Palhota típica da região de Batad, com a cobertura íngreme para fazer escoar a chuva abundante na região.

Despertamos bem depois do planeado. Aliviamos a consciência fotográfica com a noção de que, tal como o Sol abandonava Batad antes de tempo, também demoraria a voltar a incidir na aldeia.

Percorremo-la sem qualquer plano. Passamos por famílias e gentes que nos pareciam perdidas do Mundo. Algumas perdidas até de si próprias, entregues a uma estranha letargia matinal ou a espectáculos de country da Cordillera, um testemunho musical da presença norte-americana durante a 2ª Guerra Mundial a que os fãs assistem em pequenas TVs alimentadas por geradores.

Um miúdo mói farinha com um grande pilão, sob a supervisão do avô sentado e a atenção de um galo oportunista. A pouca distância, à entrada de uma cabana típica, um outro homem mantém um olhar disperso nas montanhas que fecham o horizonte.

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Jovem moi milho sob o olhar do avô e de um galo oportunista.

Ao contrário do que acontece em partes distintas das Filipinas, praticamente não se fala inglês por estes lados. O tagalog (língua nacional) é usado apenas como último recurso.

De cada vez que pedimos para fotografar alguém ouvimos um “amu hom” (Não! Parem! no dialecto Ifugao) rotundo e explícito, seguido de um pedido de doação.

E os nativos pedem-nos mesmo conscientes de que os visitantes pagam uma taxa à aldeia, ainda antes de nela entrarem.

Banaue e Batad podem ter conquistado fama mundial. Os seus cenários risícolas Ifugao surgem inclusive nas costas das notas de 1000 pesos filipinos.

Ainda assim, os cerca de 1000 habitantes rurais da aldeia de Batad nunca se conseguiram preparar para rentabilizar as visitas dos mochileiros.

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Camponesa corta erva daninha.

Não beneficiavam com a notoriedade da sua aldeia. Não conseguiam sequer sair da pobreza a que a gradual desvalorização do arroz e que o afastamento da vida cada vez mais moderna de outras partes das Filipinas os havia condenado.

Vários habitantes procuraram a solução na longínqua e sobrelotada Manila. Os filipinos são um povo emigrante. A nação tem quase tantas pessoas na diáspora como no seu vasto território insular.

Quando a capital não os pôde ajudar, os camponeses de Ifugao imitaram as experiências de tantos outros compatriotas que mudaram de países e de vidas. Deixaram para trás a sua terra e toda uma civilização milenar, crenças e rituais que uns poucos resistentes continuam a praticar.

Mais acima, enquanto caminhamos pelo meio dos campos, deparamo-nos com um grupo de jovens mulheres. Alinhadas sobre a terra, espetam plantas de arroz no solo de lama de um retalho alagado de acordo com os métodos tradicionais a que falta apenas o tão admirado hudhud.

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Crianças plantam arroz num socalco triangular.

Em 2009, os Terraços de Arroz Ifugao foram declarados livres de Organismos Geneticamente Modificados numa cerimónia promovida pelos dirigentes políticos da região, pelo responsável da Greenpeace do Sudeste Asiático Daniel Ocampo e por Cathy Untalan, a directora executiva da fundação Miss Earth.

Antes do anúncio ao público, 3 mumbakis (feiticeiros Ifugao) levaram a cabo um ritual akim de bênção em que oferendaram um animal aos deuses. Não tardamos a deparar-nos com um desses cerimoniais, ainda que em formato privado.

Num terraço mais abaixo, uma mulher sacrifica uma galinha. Tem a companhia da filha que espalha sangue da ave sobre a terra. Por estes lados, as crenças religiosas pouco ou nada têm que ver com as das restantes Filipinas que, a partir do meio do século XVI, os colonos hispânicos fizeram cristãs.

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Nativo atravessa as plantações de Batad.

A fé Ifugao centra-se ainda em Bulol, um deus mudo do arroz, o guardião dos mortos dos povos da Cordillera.

Em honra desta divindade, os nativos talham figuras aos pares, a partir de narra, uma madeira especial que acreditam proporcionar a riqueza, a felicidade e o bem-estar.

Cada passo desta arte – desde a escolha da árvore ao banho em sangue de porco que consagra as pequenas estátuas e as atribui a um lar  – requer uma cerimónia rica em mitologia.  É a mesma mitologia que os Ifugao registam há séculos através da sua escultura e que passam de geração em geração nas letras e sons do HudHud.

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Pormenor da aldeia de Batad no centro dos socalcos de arroz.

Mais próximo da aba da montanha, um outro grupo de camponesas queima e lavra um solo de que as ervas daninhas se tinham apropriado.

Ao verem-nos chegar, limitam-se a estudar-nos com os olhos e a mastigar. O fenómeno não era novo nas Filipinas, nem na Ásia em geral. Todas elas – com excepção de uma criança – mascavam nozes de bétele enquanto trabalhavam.

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Mulheres fazem uma pausa no trabalho de limpar um terreno para plantarem batata doce.

Esboçamos um qualquer palavreado de abordagem, em inglês. Entre risadas nervosas e sujas do suco vermelho daquela noz, as mulheres mostram-nos que, para fugir à norma, plantam batatas doces – kamotis como lhes chamam no seu dialecto.

Trocamos observações e perguntas disfuncionais. Até que uma delas repõe a ordem laboral e leva a comitiva de volta às tarefas.

Deixamo-las a atear fogo a uma porção de terra e seguimos socalcos abaixo ainda em busca da quintessência destes remotos domínios Ifugao.

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