Helsínquia, Finlândia

A Fortaleza em Tempos Sueca da Finlândia


Refúgio de penumbra
Sillhuetas vivas num tunel da ilha de Iso Mustasaari, aquela em que atraca o ferry vindo da frente de Helsínquia.
Helsínquia para trás
Vista da frente histórica de Helsínquia, vista do ferry que liga a cidade a Suomenlinna.
Convívio
Grupo de amigas aproximam-se da sepultura de Augustin Ehrenvärd.
Em moldura
O canal enregelado que separa Iso Mustasaari de Susisaari.
Suomenlinna pastel
Moradoras percorrem uma ladeira do âmago habitado de Iso Mustasaari.
Velha ameaça
Visitantes percorrem a beira sul de Susisaari, junto a uma das várias peças de artilharias dispersas pelas costas de Suomenlinna.
Descansos Invernais
Bancos de jardim quase soterrados na neve que o sol suave de Inverno não derrete.
Homenagem ao criador
A sepultura de Augustin Ehrenvärd, o jovem tenente sueco que conduziu a edificação perseverante e complexa de Suomenlinna.
Mãe e filho
Ninja (leia-se, Nina) e Severi Lampela, ambos de apelido Pasanen, visitantes finlandeses de Suomenlinna.
Camuflagem em A
Antigos paióis camuflados sob terra e vegetação e à beira do Golfo da Finlândia.
Transeunte passa ao longo do canal que separa a ilha Iso Mustasaari de Susisaari.
O derradeiro submarino
O submarino Vesikko, um vestígio excepcional da frota que a Finlândia possuia no final da 2ª Guerra Mundial e que o Tratado de Paris de 1947 obrigou a destruir.
Destacada num pequeno arquipélago à entrada de Helsínquia, Suomenlinna foi erguida por desígnios político-militares do reino sueco. Durante mais de um século, a Rússia deteve-a. Desde 1917, que o povo suómi a venera como o bastião histórico da sua espinhosa independência.

Viria a provar-se o último dos dias com meteorologia misericordiosa, ainda que algo ventosa. É sob um céu meio azul, meio azul-esbranquiçado que o ferry zarpa do mercado de Kauppatori para Suomenlinna, a grande fortaleza da Finlândia.

À medida que nos afastamos da frente de edifícios históricos, a distância revela as cúpulas da catedral de Helsínquia, cada vez mais destacadas sobre a linha de fachadas pastel que admiramos numa suave diagonal. A embarcação ruma à saída daquele recorte geométrico e apertado do estuário que banha a capital.

Frente histórica de Helsínquia, Finlândia

Vista da frente histórica de Helsínquia, vista do ferry que liga a cidade a Suomenlinna.

Na sua rota, rasa uma alpondra de ilhotas que, de Valkosaari a Pormestarinluodot atrapalha a navegação. Ao fim de algum tempo, com a doca que tínhamos partido já transformada num vislumbre, começam a definir-se os caprichos da ilha-destino e, não tarda, as paredes cor-de-salmão de uma sua ala apalacetada, hoje transformada na cervejaria local.

À Conquista da Resistente Suomenlinna

Desembarcamos num dos dois ancoradouros que a servem e atravessamos esse mesmo velho edifício pelo túnel abaixo do seu torreão-farol. Do lado de lá, uma luminosidade resplandecente revela-nos o domínio de Suomenlinna, ainda frígido e ressequido pelo Inverno árctico que resistia.

Como noutras partes da Finlândia, depressa nos chama a atenção a proliferação de nomenclaturas sinalizadas, a começar pela do próprio lugar.

A fortaleza começou a ser construída em 1748, numa altura em que o território finlandês integrava o Reino da Suécia. Deste mesmo contexto histórico, da posterior cisão, resultou que parte da população finlandesa actual – principalmente na costa oeste – tenha origem sueca e use, como primeira língua, o sueco, de uma origem completamente distinta do finlandês.

Suomenlinna, Sveaborg, Viapori. O Trio de Nomes de Guerra

Os suecos chamaram desde sempre ao forte que nos recebia Sveaborg (Castelo da Suécia). Já os finlandeses, até 1918, trataram-na por Viapori. A partir de então, em jeito rectificativo, adoptaram Suomenlinna (Castelo da Finlândia). Por respeito à comunidade sueca da Finlândia, os dois termos continuam a  coexistir.

Túnel da fortaleza de Suomenlinna, Helsínquia, Finlândia

Sillhuetas vivas num tunel da ilha de Iso Mustasaari, aquela em que atraca o ferry vindo da frente de Helsínquia.

Suomenlinna assenta em seis ilhas, também elas com nomes concorrentes de ambos os dialectos. Tínhamos desembarcado em Iso Mustasaari, a segunda maior e onde se concentravam os mais imponentes edifícios do arquipélago: uma igreja originalmente ortodoxa construída em 1854, a biblioteca, um Museu da Guerra e um Dos Brinquedos, entre outros, e até a prisão local. Suomenlinna acolheu uma colónia penal de mínima-segurança em que os condenados empregam esforços na manutenção e reconstrução de infraestruturas.

Mas as ilhas têm bem mais que apenas esses habitantes levemente condenados. Para lá da fortaleza-museu, vive a sua própria vida. Os moradores permanentes e livres são em redor de novecentos. Destes, trezentos e cinquenta trabalham o ano inteiro nas mais distintas funções.

Um Baluarte da Cultura Finlandesa

Suomenlinna tornou-se um polo cultural complementar de Helsínquia. Recebeu o Nordic Arts Centre. Converteu várias edificações em estúdios de arte que são alugados a baixo preço a artistas interessados. À sua moda pragmática e despachada, as autoridades finlandesas prestam-lhe tanta atenção que mantêm ligações regulares de ferries, abastecimento termal, hídrico e eléctrico. Em 2015, os correios finlandeses lá testaram inclusive a distribuição de correio com recurso a drones.

Sepultura de Augustin Ehrenvärd, mentor da fortaleza de Suomenlinna.

A sepultura de Augustin Ehrenvärd, o jovem tenente sueco que conduziu a edificação perseverante e complexa de Suomenlinna.

O que encontramos um pouco por todo o lado são, no entanto, relíquias umas mais vetustas que outras da sua longa história. Confrontamo-nos com a sepultura de Augustin Ehrenvärd, o jovem tenente sueco que conduziu a edificação perseverante e complexa da fortaleza. Coroa a sua lápide um elmo gótico com uma protecção facial que se estende em bico até abaixo do queixo, de tal forma mística que nos intimida. Entramos e saímos de mais pequenos túneis que os raios solares quase oblíquos invadem sem clemência.

Cruzamos o canal que separa Iso Mustasaari para Susisaari pela ponte que os une. Percorremos a marginal sombria desta última ilha e damos de cara com a linha de costa contrária banhada por um braço de mar quase congelado e por uma luz vespertina suave.

Atravessamos Susisaari para a frente do Golfo da Finlândia. Ali, as rajadas boreais, até então espaçadas, transformam-se numa ventania permanente. Encontramos velhos paióis disfarçados de casas rurais de outra era, com telhados em A de alto a baixo, cobertos de terra e de vegetação, envoltos de secções nevadas ainda longe de derreter. O vento furibundo castiga grandes canhões distribuídos e dissimulados no litoral cimeiro, todos eles apontados ao Golfo da Finlândia e às ameaças que sempre de lá resultaram.

Suomenlinna, na frente da História: a Finlandesa, a Sueca, a Russa.

Nesta zona de espaços vastos, grandes influências e ambições a condizer, os finlandeses habituaram-se a temer o Reino da Suécia de um lado, e o bem mais avantajado Império Russo do outro. A invasão teutónica da 2ª Guerra Mundial chegou como um extra.

Um extra inesperado que custou à Finlândia três secções importantes do país – parte da Carélia e da cidade de Kuusamo, Salla e Petsamo, o anterior “braço direito da nação” – apreendidas pela U.R.S.S. como trofeu por a Finlândia se ter alinhado com o Eixo entre 1941 e 1944.

Suomenlinna surgiu dois séculos antes enquanto Sveaborg (Castelo da Suécia). Por essa altura, a Suécia detinha o território dos vizinhos suómi e os anseios expansionistas russos preocupavam os seus governantes.

Peças de artilharia, fortaleza de Suomenlinna, Helsínquia, Finlândia

Visitantes percorrem a beira sul de Susisaari, junto a uma das várias peças de artilharias dispersas pelas costas de Suomenlinna.

A fortificação em forma de estrela adaptada aos trejeitos das seis ilhas e as baterias por que passávamos em modo investigativo foram instaladas também de acordo com a conveniência da Frota do Arquipélago, lá ancorada para proteger o limiar sudeste do Reino Sueco,  em óbvio contraponto à  base naval russa de Kronstadt, situada junto a São Petersburgo, nas profundezas orientais do Golfo da Finlândia.

Em termos estratégicos, Sveaborg servia para evitar que as forças armadas dos czares adquirissem uma posição-base nas praias de onde bombardeamentos de artilharia persistentes viabilizariam a tomada de Helsínquia.

Em 1755, mais de sete mil soldados suecos estacionados na Finlândia participavam na obra. Dois anos depois, o envolvimento sueco na intrincada Guerra dos Sete anos, contra a Grã-Bretanha, a Prússia e Portugal (para variar do lado dos Russos) suspendeu-a. A aliança depressa se confirmou tão cínica quanto curta.

Malgrado a derrota na Guerra dos Sete anos, volvido apenas um quartel de século, os Russos aproveitaram uma provocação autocrata e incauta do rei da Suécia para passarem ao ataque. Contra a vontade popular e da oposição, Gustavo III projectou a destruição da frota russa do Báltico e a tomada de São Petersburgo.

Recanto de Suomenlinna, Helsínquia, Finlândia

O canal enregelado que separa Iso Mustasaari de Susisaari.

Mas os planos do monarca naufragaram. Os russos evitaram o desembarque dos suecos e forçaram a sua retirada para Sveaborg onde se viram frustrados por as autoridades militares se terem esquecido de precaver o rearmamento e reparação de uma força náutica bem maior que a Frota do Arquipélago.

Avisado deste percalço, um tal de almirante Grieg apressou-se a recuperar a frota russa. Apenas dezanove dias depois, apontou a Sveaborg. Fez debandar um esquadrão sueco “espião” e estabeleceu um bloqueio naval que cortou a ligação do sul finlandês com a Suécia.

Não seria ainda dessa que os Russos tomariam a nação rival, mas, em 1808, o czar Alexander I aliou-se a Napoleão e a Rússia deu a machadada final. Na ressaca da Guerra da Finlândia, o terço oriental da Suécia foi transformado no Ducado da Finlândia, por fim, sob alçada do Império Russo.

De volta a Iso Mustasaari com passagem pelo submarino Veliko

Contra o vendaval furibundo, mas numa paz sagrada, continuávamos a progredir para os confins meridionais de Susisaari e de Suomenlinna. Na maior parte do tempo deambulávamos sós, entregues ao frio e aos cenários enigmáticos.

Assim continuamos até que numa ladeira de terra batida, nos cruzamos com duas almas só ligeiramente menos tresmalhadas que as nossas. Ninja (leia-se, Nina) e Severi Lampela, mãe e filho, ambos de apelido Pasanen, descem. Nós, subimos.

A visão de outros humanos naquela solitude fortificada, estimula-nos a comunicar. Saudamo-los. Metemos conversa. As duas almas depressa se provam finlandesas a rigor. Sem fundamento ou objectivo pragmático, a abordagem não lhes faz sentido e os seus olhares embaraçados deixam-no perceber.

Ainda forçamos umas fotos como era, apesar de tudo, a missão com que ali andávamos. Abreviamos a interacção e regressamos ao conforto emparelhado original.

Submarino Vesikko, Suomenlinna, Helsínquia, Finlândia

O submarino Vesikko, um vestígio excepcional da frota que a Finlândia possuia no final da 2ª Guerra Mundial e que o Tratado de Paris de 1947 obrigou a destruir.

Na volta para norte, esbarramos com o estaleiro e docas do complexo, atafulhadas de embarcações, umas funcionais, outras nem por isso. Regressamos ao canal e à margem escura e frígida de Susisaari. E lá nos alongamos até encontrarmos outra obra de arte náutico-militar digna de atenção, Vesikko, o derradeiro submarino finlandês.

Durante a 2ª Guerra Mundial (Guerra de Inverno e Guerra de Continuação), os finlandeses usaram-no em sucessivas patrulhas no Golfo da Finlândia a partir de Suomenlinna, mas, tal como o desfecho do conflito confiscou os três territórios já enunciados, o Tratado de Paris de 1947, proibiu que a Finlândia voltasse a deter submarinos.

O Vesikko foi o único a escapar à destruição forçada e generalizada da frota. Só pode ser visitado durante o Verão. A razão porque nos limitamos a apreciá-lo de fora, estranhamente encavalitado com a popa a roçar a margem enlameada. Com a proa suspensa acima do nível tanto do solo como do mar.

A curta tarde invernosa, ao invés, precipitava-se para trás do horizonte com o vento seco e gélido já a ferir-nos as faces. Apontamos de volta a Iso Mustasaari. Refugiamo-nos no Museu da Guerra. Lá nos inteiramos dos episódios que levaram à plena autodeterminação finlandesa que, a partir de 1917, aproveitando o caos político da Revolução Russa, o povo suómi conseguiu fazer valer aos ex-soberanos.

Em tempos sueca, inevitavelmente, mas de forma efémera, russa, a história amuralhada de Sveborg, Viapori e Suomenlinna convergiu para a nacionalidade que estava fadada à fortaleza.

O ferry volta a atracar à hora, não esperávamos sequer outra coisa. Reembarcamos com a noitinha a render-se ao breu. Vinte minutos contemplativos depois, estávamos de regresso à capital da pouco mais que secular Finlândia independente.

 

A TAP voa para Helsínquia 6 vezes por semana, com preços de ida-e-volta, com todas as taxas incluídas, desde 353€. A rota é operada com aviões da família A320.

Kemi, Finlândia

Não é Nenhum "Barco do Amor". Quebra Gelo desde 1961

Construído para manter vias navegáveis sob o Inverno árctico mais extremo, o quebra-gelo Sampo” cumpriu a sua missão entre a Finlândia e a Suécia durante 30 anos. Em 1988, reformou-se e dedicou-se a viagens mais curtas que permitem aos passageiros flutuar num canal recém-aberto do Golfo de Bótnia, dentro de fatos que, mais que especiais, parecem espaciais.

Galle, Sri Lanka

Nem Além, Nem Aquém da Lendária Taprobana

Camões eternizou o Ceilão como um marco indelével das Descobertas onde Galle foi das primeiras fortalezas que os portugueses controlaram e cederam. Passaram-se cinco séculos e o Ceilão deu lugar ao Sri Lanka. Galle resiste e continua a seduzir exploradores dos quatro cantos da Terra.

Lapónia Finlandesa

Em Busca da Raposa de Fogo

São exclusivas dos píncaros da Terra as auroras boreais ou austrais, fenómenos de luz gerados por explosões solares. Os nativos Sami da Lapónia acreditavam tratar-se de uma raposa ardente que espalhava brilhos no céu. Sejam o que forem, nem os quase 30º abaixo de zero que se faziam sentir no extremo norte da Finlândia nos demoveram de as admirar.

Ilha Hailuoto, Finlândia

À pesca do verdadeiro peixe fresco

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Sigiriya, Sri Lanka

A Capital de um Rei Parricida

Kashyapa I chegou ao poder após emparedar o monarca seu pai. Receoso de um provável ataque do irmão herdeiro do trono, mudou a principal cidade do reino para o cimo de um pico de granito. Hoje, o seu excêntrico refúgio está mais acessível que nunca e permitiu-nos explorar o enredo maquiavélico deste drama cingalês.

Elmina, Gana

O Primeiro Jackpot dos Descobrimentos Portugueses

No séc. XVI, Mina gerava à Coroa mais de 310 kg de ouro anuais. Este proveito suscitou a cobiça da Holanda e da Inglaterra que se sucederam no lugar dos portugueses e fomentaram o tráfico de escravos para as Américas. A povoação em redor ainda é conhecida por Elmina mas, hoje, o peixe é a sua mais evidente riqueza.

São João de Acre, Israel

A Fortaleza que Resistiu a Tudo

Foi alvo frequente das Cruzadas e tomada e retomada vezes sem conta. Hoje, israelita, Acre é partilhada por árabes e judeus. Vive tempos bem mais pacíficos e estáveis que aqueles por que passou.

Khiva, Usbequistão

A Fortaleza da Rota da Seda que os Soviéticos Aveludaram

Nos anos 80, dirigentes soviéticos renovaram Khiva numa versão amaciada que, em 1990, a UNESCO declarou património Mundial. A URSS desintegrou-se no ano seguinte. Khiva preservou o seu novo lustro.

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Helsínquia, Finlândia

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