Bingling Si, China

O Desfiladeiro dos Mil Budas


Amarelo a dobrar

Barco a motor navega num meandro montanhoso do rio Amarelo, prestes a chegar à doca de Bingling Si.

Budas para todos os gostos

Alguns dos muitos budas escavados no Desfiladeiro dos Mil Budas.

A caminho

Barqueiro chinês contempla o cenário ressequido em redor do rio Amarelo.

O peso da idade

O Buda Maitreya sentado. Com 27 metros de altura, 1200 anos de idade e a sofrer trabalhos de manutenção.

Fé nas alturas

Pequeno santuário budista dependurado da face rochosa do Desfiladeiro dos Mil Budas.

Fé engavetada

Esculturas de budas dotadas de portinholas que as protegem da erosão.

Vegetação excepção

Árvores emprestam ao cenário um verde providencial.

Caminho único

Passadiço conduz os visitantes ao longo do longo Desfiladeiro dos 1000 Budas, junto as suas muitas esculturas.

Durante mais de um milénio e, pelo menos sete dinastias, devotos chineses exaltaram a sua crença religiosa com o legado de esculturas num estreito remoto do rio Amarelo. Quem desembarca no Desfiladeiro dos Mil Budas, pode não achar todas as esculturas mas encontra um santuário budista deslumbrante.

É com certo alívio que deixamos a capital da província chinesa de Gansu. Mesmo se nos fascinavam os visuais e modos incaracterísticos daquela estranha urbe que o governo de Pequim moldou moderna e industrial e a delicada coexistência das etnias predominantes Han, Hui e Zhan (tibetana), começava a perturbar-nos a confusão nebulosa e poeirenta em que, sem saber muito bem como, nos tínhamos metido.

Lanzhou evoluiu para o grande centro petroquímico do noroeste chinês. E para uma das cidades mais poluídas à face da Terra. A fumarada e o ruído produzidos pelo primeiro autocarro em que nos metemos, os dos segundo e os da carrinha que completou o aturado percurso pareceram-nos, assim, coisa de somenos.

Ali, à partida, a visão do vasto Amarelo provou-se aquém do que esperávamos para o rio fulcral e civilizacional em questão, o terceiro mais longo da Ásia com quase 5500 km que atravessam nove províncias chinesas.

Mantínhamos na mente a imagem de patinadores no gelo a deslizarem, graciosos, sobre o seu caudal solidificado por meses de Inverno atroz. Por altura do embarque, o estio chegara havia muito à China. O quase sul de Gansu fervilhava. O próprio Amarelo fluía, a grande velocidade, pelo circuito excêntrico de meandros que o conduziam ao mar homónimo.

Indiferente à escala macro do seu local de trabalho, quando nos detecta a chegar, o dono da lancha só nos quer ver a bordo, a percorrer o trecho do rio, apesar do nome, esverdeado, que lhe garantia o sustento. Uma família chinesa aproxima-se e indaga-o. Percebemos que tinham os mesmos intentos que nós. Acabamos por dividir a embarcação e os 400 ienes que o dono tudo fizera para multiplicar.

O homem franzino, de face tostada pelo sol, instala-nos a todos, liga o motor e zarpa. Por algum tempo, navegamos ao largo de uma margem rasa, ressequida e que pouco ou nada nos despertou a atenção. Não tarda, entramos numa volta pronunciada do rio cercada por uma cordilheira de picos rochosos afiados.

O meandro fazia o Amarelo travar. Aquela sua quase piscina reflectia os penhascos na íntegra e dobrava-lhes a monumentalidade. A lancha em que seguíamos, como uma outra rival, atravessou a reprodução impressa na água a grande velocidade.

Desfeito o esse, deparámo-nos com uma grande escadaria que ligava o nível do caudal a um quase meio dos penhascos. Setenta quilómetros e quatro horas e meia após a partida madrugadora de Lanzhou. Atracamos, por fim, nos domínios misteriosos de Bingling Si.

Um pórtico moderno coroado por pequenos pagodes serve de bilheteira e de entrada para o santuário. Cumprido o pagamento, esgotadas as formalidades, avançamos para a boca do Desfiladeiro dos Mil Budas. Metemo-nos por passadiços, escadarias e plataformas de madeira instalados contra as suas paredes.

É nessas mesmas faces que encontramos as primeiras das muitas esculturas de Buda que tornaram o lugar especial. Algumas surgem enquadradas em nichos escavados na rocha. Centram-se em representações individuais, ou multiplicadas por dois ou por três Siddartha Gautama, iluminados por halos.

Outras – várias coloridas –  agrupam maior número de personagens em convívio e determinadas situações. Surgem numeradas e dotadas de janelas rendilhadas, escancaradas durante a hora de visita do público, encerradas logo após o entardecer para garantir a preservação das obras.

Em termos estilísticos e geográficos, o templo de Bingling Si surgiu na sequência das Grutas Budistas de Mogao que tínhamos explorado, em Dunhuang, no extremo noroeste de Gansu, apenas uns dias antes.

Surgiu como uma lógica sequência histórica e como um ponto intermédio entre os malogrados Budas “afegãos” de Bamiyan que os Taliban decretaram ídolos e, por ordem do seu Mullah Mohammed Omar, dinamitaram, em 2001, e as grutas budistas da China Central.

Por altura da dinastia Tang (618-907 d.C.), Dunhuang, tinha-se tornado um dos mais importantes entrepostos da Rota da Seda.

À conta dos monges budistas que lá se haviam instalado, sob patrocínio de clericais e mercadores, das famílias regentes da região, de militares seus súbditos e até dos imperadores da China, Mogao recebeu mais e mais pinturas que adornavam as maiores galerias.

Acolheu ainda as estátuas massivas de Buda que lá resistem, duas das muitas mais que a Imperatriz Tang Wu Zetian mandou erguer por todo o território. Dunhuang assumiu, assim, também, o papel de principal centro religioso e de peregrinação do Budismo.

A primeira das esculturas de Bingling si terá sido trabalhada em redor de 420 d.C. Na extensão do que se passara com Mogao, foram os monges e sacerdotes budistas chegados da Ásia Central pela Rota da Seda que inauguraram a decoração religiosa do Desfiladeiro dos Mil Budas.

Esculpiram figuras com corpos, faces, poses e trajes indianos. Lançado o precedente naquele novo cenário, sucessivas grutas foram aproveitadas ou abertas, cada qual dotada com as suas imagens de Buda. O estilo das novas obras evoluiu para reflectir a arte e a realidade característica das dinastias e épocas.

Ao longo dos duzentos metros e distinto níveis do canhão, apreciamos dezenas e dezenas de versões criativas e distintas do sábio asceta nascido em Lumbini, no actual Nepal, a umas poucas horas por estrada de onde escrevemos este texto.

Cada uma delas revela-se de tal forma única que teve direito às suas próprias personagens. Sakyamuni, Kwan-yin, Amitayus Buda, Maitreya Buda e vários outros Budas. Encaramos as suas posturas elegantes, os pormenores pitorescos do seu vestuário e até da bijuteria.

Admiramos os distintos ambientes retratados pelos frescos que os rodeiam, palmeiras. Não falta um Buda deitado. Nas imediações, a gruta 169 abriga o Buda Dali (poderoso), dono de uma face redonda e solene que parece tudo supervisionar do cimo das suas pernas cruzadas.

Ladeiam-no dois assistentes Bodhisattvas, reconhecíveis pelos seus cabelos entrelaçados e braços despidos que acenam. Tanto o Buda Dali como os Bodhisattvas preservam cores bem intensas que reforçam a vividez das suas personagens.

Em tempos, a fotografia foi permitida em Bingling Si. Mas, como aconteceu nas grutas de Mogao, as autoridades chinesas proibiram-na com o principal propósito de evitar a proliferação internacional de obras comerciais que se comprometeram a monopolizar.

Esta castração irrita-nos a nós e à maioria dos visitantes, que chegam, como seria de esperar, munidos de máquinas fotográficas e smartphones de última geração. O Desfiladeiro dos Mil Budas é, no entanto, extenso e os guardas sucumbem ao aborrecimento dos turnos.

Quase todos os visitantes aproveitam a sua displicência e fazem os registos que era suposto o preço do bilhete contemplar. Fiéis à componente fotográfica da nossa exploração, para o bem supremo do leitor e do viajante que nos acompanha, seguimos-lhes o exemplos, sem consequências. Os Budas nunca se opõem. Dá-nos ideia que os vigilantes optam por ignorar.

Por altura do termo da Dinastia Tang, o Budismo, os seus templos, mosteiros e outros locais de culto eram de tal forma influentes que ofuscavam o Taoismo e o Confucionismo há muito predominantes na China. Em 845 d.C., O imperador e seu séquito decidem combater a ameaça ao seu poder que a nova religião representava.

Mandaram destruir milhares de templos e mosteiros budistas. Mesmo assim, nas eras dinásticas seguintes, a obra prosseguiu em Bingling Si. Muitas mais grutas e santuários foram erguidos, com destaque para a dinastia Mongol Yuan (1271-1368) em que os budistas tibetanos dotaram a secção mais baixa do Desfiladeiro dos Mil Budas de dezenas de novas grutas.

Crê-se que o próprio nome Bingling é uma transliteração do nome tibetano do lugar: “mil Budas”. Com o passar dos séculos, sismos, a simples erosão e  pilhagens danificaram ou fizeram desaparecer muitas das grutas ou, pelo menos, o seu conteúdo. A destruição, voluntária mas provavelmente necessárias, verificou-se até mesmo nos nossos tempos.

A China e o seu rio Amarelo sempre viveram uma relação agridoce. Por um lado, o rio esteve na base do sucesso civilizacional da nação e continua a irrigar as vidas e o sucesso de centenas de milhões de chineses.

Por outro lado, as inundações provocadas pelo aumento súbito do seu caudal hiperbólico causaram demasiadas catástrofes e perdas de vidas. Consciente deste revés,  ávido por aumentar a produção chinesa de electricidade, Pequim impôs a construção de diversas barragens ao longo do caudal.

Em 1969, foi inaugurada a de Liujiaxia que deu origem ao maior corpo de água da província de Gansu, o reservatório de Liujiaxia e à maior estação hidroeléctrica chinesa. Inúmeras famílias viram-se forçadas a mudar-se para outras paragens.

E em redor de duzentas das grutas ou monumentos budistas ficaram debaixo da água. Os Budas não são, assim, mil, como enuncia o nome Tibetano. Segundo uma das últimas contagens, perduram, agora, 183 nichos, 694 esculturas de pedra, 82 esculturas de argila e cerca de 900 m2 de murais bem conservados. A sua preservação deixa-nos, aliás, frustrados.

Na sequência da exploração da rede de passadiços e escadarias, depressa percebemos que a estrela budista de Bingling Si, um Buda Maitreya sentado com 27 metros de altura e 1200 anos de idade sofria uma intervenção e estava envolto de andaimes.

Segundo investigamos, foi por pouco que escapou à submersão e, ao longo dos tempos, aos agentes naturais e aos fanatismos religiosos surreais que ditaram o colapso das estátuas “irmãs” de Bamiyan. Conformamo-nos com aquele mal menor e completamos a nossa missão fotográfica o melhor possível.

A tarde de Verão estava para durar mas o complexo fecharia dentro em pouco. Não havia onde pernoitar nas imediações pelo que nos faltava completar todo o caminho de volta. Só regressámos a Lanzhou às dez da noite. Recompensava-nos a memória, por certo, duradoura de Bingling Si. Mil Budas, provavelmente menos, tinham abençoado aquela esforçada peregrinação.

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