Dali, China

A China Surrealista de Dali


A ver a vida passar
Senhora bai contempla a vida na rua de dentro de uma casa com um portão tradicional exuberante.
Dali dos pequeninos
Visitantes divertem-se com um jogo gigante construído numa encosta da montanha Cangshan, acima de Dali.
Uma visão lacustre
Cenário excêntrico do grande lago Erhai.
Seca-brasas
Rapaz recorre a uma forma criativa de puxar as brasas.
Sino-catolicismo
Detalhe da igreja católica de Dali, erguida em 1927, gravemente danificada durante a Revolução Cultural e recuperada como Património Histórico em 1984.
Cristo versão Dali
Fachada atrás do altar da igreja católica de Dali.
Uma geração às costas
Mãe de etnia bai transporta bebé curioso pela atenção dos forasteiros.
Evasão escolar
Alunos de escola de Dali percorrem uma rua da cidade muralhada, à saída das aulas.
Telhados fora
Casario tradicional de Dali, entre as muralhas da cidade.
Torneio chinês
Animação em redor de uma mesa de mahjong numa rua da cidade velha de Dali.
Quase noite em Yunnan
Vista de uma rua do centro histórico de Dali, ao anoitecer.
Moda J.R. Ewing
Homem trajado com visual texano num mercado nos arredores da cidade.
Cores do passado
Torre de vigia e defesa assente num dos pórticos de entrada na cidade.
Poses nupciais
Sessão fotográfica casamenteira sobre um dos adarves das velhas muralhas de Dali.
Aperitivos naturais
Espetadinhas de insectos e larvas grelhados, à venda na rua.
Uns toques de China
Dotes futebolísticos numa praça de Dali.
Torre d’ouro
Um dos três pagodes do templo Chongsheng, nos arredores de Dali.
Trio com fome
Jovens amigas partilham franjas irreverentes e snacks de rua.
2ª feira outra vez
Casal começa o seu dia no seu restaurante pitoresco aberto para a rua.
Azáfama comercial
Cena de um dos vários mercados nos arredores da cidade muralhada de Dali
Encaixada num cenário lacustre mágico, a antiga capital do povo Bai manteve-se, até há algum tempo, um refúgio da comunidade mochileira de viajantes. As mudanças sociais e económicas da China fomentaram a invasão de chineses à descoberta do recanto sudoeste da nação.

Inesperadas Sino-Degustações

De um momento para o outro, as especialidades de Dali, Yunnan surgem-nos pela frente como um desafio civilizacional a que não nos podemos esquivar.

Temos grilos, gafanhotos e larvas, ligeiramente fritos, alinhados em espetadinhas de pau, expostos num equilíbrio precário na extremidade do grande wok em que, como os peixes de rio, os pequenos camarões e as restantes iguarias, a dona do negócio os cozinhava. Inauguramos a degustação pelos gafanhotos.

Mais que estaladiços, são crocantes. Revelam um surpreendente gosto de bolacha de água e sal, das mais salgadas.

Petiscos insectívoros, Dali, Yunnan, China

Espetadinhas de insectos e larvas grelhados, à venda na rua.

Passamos aos grilos. Já tínhamos provado Doritos piores pelo que os repetimos sem esforço. Suspeitávamos das larvas e com razão. Confirmaram-nos uma textura esponjosa repulsiva. O seu travo, de algo entre o musgo e o lodo, repugnou-nos a condizer.

Fazemos as caras feias que se esperavam, agradecemos à vendedora a atenção intrigada que nos prestara e regressamos ao périplo descomprometido pelas ruas geométricas da velha cidade muralhada.

Nos anos mais recentes, também Dali ganhara um sabor agridoce. Até meio da década de 80, manteve-se como uma das preciosidades históricas de Yunnan, uma das províncias mais afastadas das grandes metrópoles chinesas, a capital Pequim, Xangai, entretanto, Hong Kong e outras.

Por lá passava a rota mochileira que explorava o recanto sudoeste da China para logo subir rumo a Lijiang, a Shangri-La e a Lhasa, o coração trespassado do Tibete.

A Era Mochileira de Dali

Por essa altura, Dali, à imagem das restantes paragens, preservava-se tranquila e genuína. Os forasteiros remediados traziam consigo, aos bochechos, novidades e diferenças que surpreendiam os nativos. Estes, preocupavam-se apenas o necessário com o acolhimento dos visitantes.

Como as muralhas defenderam a velha Dali de ataques inimigos sem conta, o respeito cultural mútuo preservou a integridade da cidade. Assim foi durante algum tempo, até que, como se previa, a espectacularidade de Yunnan extravasou. Com a província destacada na imprensa internacional de viagens, os forasteiros aumentaram.

Os moradores deixaram de resistir ao proveito amochilado que batia cada vez mais às suas portas. Simples lares foram transformados em pousadas, lojinhas de artesanato e recordações e em bares e restaurantes que começaram a servir crepes, kebabs e falafel, não só os siapaos, jiaozis e as iguarias excêntricas, demasiadas vezes demasiado picantes da região.

Após a viragem para o século XXI, uma das consequências do desenvolvimento tecnológico e financeiro da China, foi o surgimento de uma classe média endinheirada e que reclamou o direito a viajar.

Lugares como Dali – e, ainda mais, Lijiang – depressa se viram invadidos por hordas de compatriotas, sobretudo de etnia han, exigentes e sobranceiros que agora percorrem as ruas e ruelas de olhos postos nas bandeirinhas tremelicantes dos guias. Por sorte, chegamos à região em época baixa, longe de qualquer um dos períodos de férias mais populares na China.

Mercado Shaping – sem Paciência para Estrangeiros

Apontamos ao mercado Shaping. Ainda era cedo e lá confluíam produtores das aldeias e lugarejos nas imediações de Dali, de em volta do grande lago Erhai e das montanhas que o contêm.

Subimos a avenida principal em que decorrem as transacções atentos às mercancias e aos modos rudes dos vendedores. Mulheres de chapéus de vime sentadas no chão tentam impingir vassouras, cestos e outros bens, dispostos numa longa montra improvisada.

Mercado em Dali, Yunnan, China

Cena de um dos vários mercados nos arredores da cidade muralhada de Dali

Logo ao lado, uma negociadora de matéria-prima para extensões comprava cabelo feminino. Com aparente sucesso, tais eram as pretendentes à espera para sacrificar os seus. Quando espreitamos o negócio, a senhora repara no da Sara. Sem cerimónias, apalpa-o e avalia-o.

De calculadora em riste, faz-lhe uma proposta, alta que bastasse para a tirar do sério e quase – mas um quase bastante remoto – para que considerasse a oferta. De acordo, prosseguimos com a reserva capilar intacta e o mesmo número de yuans com que tínhamos chegado.

Mais para cima na rua, cruzamo-nos com bancas de vegetais, de raízes terapêuticas e de vestuário, com verdadeiros buffets de manjares exóticos, alguns bem mais desafiantes que os insectos fritos que tínhamos já provado umas horas antes.

As mulheres que geriam as bancas de comida mantinham espalhadas tacinhas e alguidares com distintos molhos e ingredientes, massas, legumes, carnes.

Cozinhavam-nos com recurso a pequenos fogões ou woks e serviam uma comitiva esfomeada que gritava os pedidos, se instalava e devorava as refeições com sofreguidão, sem desperdiçar os momentos para respirar com demasiada conversa.

Os produtos à venda e os vendedores sucediam-se. E confirmava-se a aversão dos Bai às nossas abordagens fotográficas. Em poucos lugares à face da Terra sentimos uma resistência tão forte às câmaras e objectivas. Pedirmos permissão gerava recusas.

Uma Absoluta Aversão à Fotografia

Para mal dos nossos pecados, éramos rejeitados por uma série de personagens incríveis daquela China campestre e profunda, rica em modas e contrastes condizentes. Víamos os camponeses em trajes e boinas maoistas, senhoras bronzeadas sob longos lenços que se confundiam com hijabs.

Cruzávamo-nos com negociantes de fatinho e chapéu de aba, com avozinhas de vestes garridas 100% bai ou com o jovem excepcional que, enfiado num fato branco e chapéu de J.R. Ewing han das Ásias, se sentia mais rejubilante que qualquer outro compatriota.

Cliente de mercado de Dali, Yunnan, China

Homem trajado com visual texano num mercado nos arredores da cidade.

Malgrado a abundância de figuras e a variedade de estilos, fotografarmos sem pedirmos suscitava esquivas imediatas ou raspanetes em dialecto nativo que, até poderiam ser bem dispostos, algo que a forma brusca de comunicar dos chineses em geral e, em particular dos Bai, não nos permitia depreender.

Fazemos o que podemos. Quando regressamos ao interior das muralhas, desesperamos por uma distração que disfarçasse a inesperada frustração.

Dos seus pórticos para dentro, Dali vivia sob uma deslumbrante dupla personalidade. Víamo-la entregar-se aos mais distintos rituais de entretenimento com que prendava os forasteiros.

Estes, fotografavam-se em trajes históricos Bai, protagonizavam intrincadas produções casamenteiras sobre os adarves ou os bastiões da fortaleza ou acotovelavam-se na eminência das torres de vigia, a que ascendiam para fotografarem os panoramas em redor.

Mahjong em Dali, Yunnan, China

Animação em redor de uma mesa de mahjong numa rua da cidade velha de Dali

As Ruas Disputadas da Verdadeira Dali

Em simultâneo, noutras bolsas existenciais, o dia-a-dia local prosseguia à margem de toda aquela comoção turística. Os reformados entretêm-se em volta de mesas disputadas de mahjong.

Talhantes cortam as peças de carne recém-chegadas, o dono de um restaurante chinês retoca a montra exuberante composta de molhos e arranjos de  vegetais.

Brasas sopradas, Dali, Yunnan, China

Rapaz recorre a uma forma criativa de puxar as brasas.

Ao lado, um jovem provavelmente seu filho implora fogo a um carvão de tal forma resistente que o força a substituir os abanadores de verga por um secador de cabelo.

Prosseguimos. Confrontamo-nos com batalhões tagarelas de alunos que, livres das aulas e entretidos com sucessivas tropelias, desfilam os uniformes azuis-escuros da sua classe estudante.

Alunos em uniforme, Dali, Yunnan, China

Alunos de escola de Dali percorrem uma rua da cidade muralhada, à saída das aulas

Embrenhamo-nos numa tal de Renmin Road. Lá encontramos a escola de que provinham. Desviamos para a Xinmin Road e damos de caras com uma igreja.

Só por si, um templo cristão naquelas paragens limítrofes e crentes no politeísmo tradicional chinês ou, vá lá que seja, budistas ou muçulmanas da China já seria de admirar.

Igreja católica de Dali, Yunnan, China

Detalhe da igreja católica de Dali, erguida em 1927, gravemente danificada durante a Revolução Cultural e recuperada como Património Histórico em 1984.

Como se não bastasse, era uma das igrejas mais incomuns com que alguma vez nos tínhamos cruzado, com formas fiéis à arquitectura tradicional chinesa.

Uma Inesperada e Atribulada Igreja Cristã

A igreja foi erguida em 1927 por missionários franceses com o propósito de revitalizar o Catolicismo de Yunnan, introduzido na região no século XVII, numa altura em que os missionários e os cristãos recém-convertidos eram frequentemente martirizados.

Durante a Revolução Cultural Chinesa, sofreu uma destruição severa e foi fechada. Só seria renovada e reaberta pelas autoridades em 1984, quando recebeu um estatuto de Protecção Histórica que lhe permitiu perdurar sem mais atribulações. Preserva, assim, várias secções exuberantes de telhados retorcidos coroados por uma cruz dourada. Quando entramos, está vazia.

O interior revela-nos um espaço similar ao das mais modernas e sóbrias naves das igrejas protestantes ocidentais. Num quadro exposto sobre o altar, Cristo traja uma túnica vermelha, tem uma capa azul às costas e surge envolto de um brilho dourado, à laia de profeta super-herói.

Altar de igreja católica de Dali, Yunnan, China

Fachada atrás do altar da igreja católica de Dali

As duas pinturas rudimentares dos anjos que o ladeiam, os caracteres chineses amarelos por debaixo complementam um conjunto artístico religioso de tal forma inusitado que nos deixa a coçar as cabeças. Fosse como fosse, depressa se esgotou o tempo para o apreciarmos.

A guardiã do templo surge do nada e informa-nos que tem que o fechar, o mesmo que faziam milhares de seus concidadãos para quem já ia longo o dia à frente das lojas e negócios.

Forte de Dali, Yunnan, China

Torre de vigia e defesa assente num dos pórticos de entrada na cidade

Quando a Noite Anima Dali

A iluminação artificial da área entre muralhas antecipa-se à penumbra. Aquece e empresta novo esplendor às torres de vigia sobre os pórticos de entrada.

Os telhados em bico recebem dourados que contrastam com o azulão lusco-fusco do céu sempre limpo e com o verde reforçado dos muros abaixo, já de si forrados de vegetação trepadeira. Subimos a uma destas torres e duma janela no cimo fortificado, admiramos como a cidade se rendia à noite.

Dali, Yunnan, China

Vista de uma rua do centro histórico de Dali, ao anoitecer.

De regresso ao solo, a versão nocturna de Dali continua a surpreender-nos. O som de música chinesa popular desperta-nos os sentidos. Em perseguição da melodia, dobramos uma esquina apertada.

Sem que o esperássemos, confrontamo-nos com uma espécie de Flash Mob local. Dezenas de moradores tinham-se concentrado numa praça desafogada. Sem mais demoras, uma anfitriã idosa e um DJ inauguram a música e as hostilidades.

As participantes integram uma ampla coreografia e dançam com uma graciosidade e harmonia, só possíveis pela repetição diária do ritual. Após a primeira canção, dançam várias outras, cada qual digna de novos movimentos individuais, para gáudio de alguns jovens que, à margem, riem a bom rir e, dessa sua maneira, celebram a vitalidade das mães, das avós, das vizinhas.

Quarenta minutos depois, de forma tão espontânea como havia começado, o encontro chega a um fim. A anfitriã interrompe de forma seca a a canção que se arrastava. À boa maneira chinesa, as dançarinas limitam-se a deixar de dançar. Não se despedem.

Não se entregam a qualquer tipo de contacto ou lamechice afim. Em vez, viram as costas às senhoras que estão mais próximas e seguem o seu caminho. Há muito que Dali é como é. Os visitantes aos magotes ainda estão por a mudar.

Mais informação sobre Dali no site da Encyclopaedia Britannica

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