Luxor, Egipto

De Luxor a Tebas: viagem ao Antigo-Egipto


Wall like an Egyptian

Gravuras com motivos religiosos egípcios numa das paredes arenosas do templo de Karnak. O deus Rá do sol, está à direita.

Aurora sobre Luxor

A amálgama arquitectónica do templo de Karnak, rosada pela alvorada.

A caminho do mausoléu

Visitantes do Vale dos Reis percorrem a alameda que conduz aos aposentos mortuários da faraó Hatshepsut, o edifício mais imponente do Vale dos Reis e das Raínhas.

Sombras do tempo

Trabalhador dos templos de Luxor percorre um átrio ladeado de colunas.

Avenida das Esfinges

Dezenas de esfinges de carneiro compõem a Avenida das Esfinges que liga o Templo de Karnak ao de Luxor. 

Nilo acima

Cruzeiro detem-se numa das várias comportas que regulam a altura das águas do rio Nilo.

Conversa egípcia em dia

Guardiães egípcio do Templo de Karnak conversam ao sol da alvorada.

Karnak x 2

Cisterna reflecte parte do vasto templo de Karnak.

Coluna vegetal

Uma palmeira destoa da ordem de colunas predominante no Templo de Karnak

Tebas foi erguida como a nova capital suprema do Império Egípcio, o assento de Amon, o Deus dos Deuses. A moderna Luxor herdou a sua sumptuosidade. Entre uma e a outra fluem o Nilo sagrado e milénios de história deslumbrante.

“No meu tempo, teríamos construído isto tudo no estúdio. E melhor!” atirou Bette Davis. A actriz dos olhos insinuantes filmava “Morte no Nilo”, a versão hollywoodesca do clássico policial de Agatha Christie.

Justiça lhe seja feita que, à época, Luxor não era como a Tebas majestosa que deslumbrou Alexandre o Grande e inquietou sucessivos imperadores e generais romanos. Também não se comparava à cidade actual. O templo homónimo, por exemplo, estava perdido entre bazares abarracados e o desenvolvimento desregrado do centro redundara num caos.

Confrontada com a importância da área, entretanto considerada o maior museu ao ar livre do mundo, a UNESCO validou a solução drástica que se seguiu sem cerimónias. De um momento para o outro, o governador local ordenou a demolição de centenas de casas e lojas para devolver ao lugar a sua pureza histórica.

O âmago do complexo passou a ser o Templo de Luxor, admirável de qualquer perspectiva, com extensão à Avenida das Esfinges. Os trabalhos sacrificaram as vidas dos moradores que pouco puderam fazer contra os valores ridículos que receberam de indemnização.

Horrorizaram ainda os arqueólogos que viram buldózers “tratar” da escavação das esfinges. E foram interrompidos, de forma precária, por altura da Revolução da Primavera egípcia. Agatha Christie já não pôde narrar nenhum destes crimes.

Mesmo tendo em conta todas as displicências, Luxor é Luxor. Quem quer que se autodenomine viajante e até o mais desinteressado turista sabe que, à face da Terra, não há igual.

Aterramos no aeroporto da cidade com entusiasmo a condizer. Instalamo-nos a bordo de um dos cruzeiros que navega Nilo acima e Nilo abaixo. No dia seguinte, ainda o sol repousava a leste, já estávamos a percorrer a alameda ladeada de esfinges de carneiros e, logo, em frente ao templo Karnak, prontos para o momento em que os seus guardiães intransigentes de turbante e jilaba nos permitissem a entrada.

Aos poucos, os raios solares filtrados pela névoa matinal incidem na embrulhada de colunas, pequenos sub-templos, pilões e outros elementos que formam aquele que é considerado o segundo maior antigo lugar religioso do mundo, ultrapassado apenas por Angkor Wat, no Camboja.

O complexo foi erguido entre o Médio Império Egípcio até ao período Ptolomeico. Surgiu no centro do antigo Ipet-Isut “O Mais Elevado dos Lugares”, local de culto da tríade de deuses constituída por Amon, a sua consorte Mut (a substituta da anterior cara metade de Amon, Amonet) e Khonsun, o filho de ambos.

Durante as dinastias XVIII, XIX e XX, cerca de trinta faraós deram seguimento à obra. Ao mesmo tempo, fizeram de Tebas uma capital vasta, diversa e suprema única no antigo Egipto, dispersa pelo deserto em ambas as margens do Nilo: a maior parte da cidade e os templos de Karnak e de Luxor, na leste. Uma enorme necrópole formada por cemitérios privados e reais na oeste.

A função do templo de Luxor era bem distinta da de Karnak. Não foi erguido em honra de um deus. Serviu o rejuvenescimento divinal da realeza e é muito provável que tenha acolhido a coroação de diversos faraós do Egipto, sempre validadas pela tríade divina.

Os egípcios consideravam-no ainda o “Harém do Sul”. Crê-se que, com as inundações do Nilo em pleno, entrava em cena o festival do Optet. Numa primeira fase, as efígies de Amon, de Mut e de Khonsu terão sido carregadas ao longo da Avenida das Esfinges desde o Templo de Karnak até ao de Luxor.

Pelo caminho, detinham-se em capelas erguidas para o evento e repletas de oferendas. No fim da cerimónia, regressavam de barco. Mais tarde, passaram a fazer também o percurso de ida pelo Nilo, numa espécie de celebração marital fluvial em que uma pequena frota de barcas escoltava a barcaça sagrada. Essa celebração terá admitido vários dias de devassidão popular à moda egípcia.

O imaginário milenar da cosmogonia egípcia sempre se provou inesgotável. Mudava e enriquecia-se de tal maneira que, pelo menos, por tempo igual ao da sua formação, os arqueólogos terão novas tumbas e segredos por desvendar.

Dois eixos opostos regulavam a vida do antigo Egipto: o fluir do Nilo, de sul a norte, através do Deserto do Saara. Acima, o céu em que se davam os movimentos cruciais da vida. O do Sol que ascendia de uma direcção no deserto e mergulhava na outra, para o lado das areias rivais, hoje, Líbias.

Durante o seu percurso, dava-se uma viagem nocturna pelo desconhecido e pela incerteza. A reaparição do sol representava a renovação da vida. Há muito imbuída na mente da população e sempre urgente, essa noção fazia de cada dia algo muito especial.

Os trajectos do Nilo e do sol eram regulares e omnipresentes. Por essa razão, todas as obras de arte e monumentos estão com eles de alguma forma relacionados. As cheias do Nilo alimentavam a nação. O seu longo caudal unia os habitantes do Alto e do Baixo Egipto, de outra forma, encerrados em si mesmo.

Em Tebas, o Nilo separava ainda a vida da pós-vida. Não tardamos a atravessá-lo para oeste e a encontrarmos o lugar que mais contrastava com o Templo de Luxor. Se este celebrava a renovação da vida terrena, o Vale dos Reis e das Rainhas foi escavado e selado de modo para garantir a preservação dos corpos dos faraós. Era suposto as suas almas reanimarem para o encontro com os Deuses na vida seguinte.

O Vale dos Reis foi inaugurado pelo faraó Thutmose I. Diz-se que estava bem consciente de que o facto de os seus antecedentes terem sido sepultados em grandes pirâmides fazia das respectivas tumbas e tesouros alvos fáceis dos profanadores.

Não nos pronunciamos quanto ao encontro com os deuses. Nós e dezenas de visitantes felizardos deparamo-nos com Tutankhamon e outros faraós emblemáticos do Egipto. Por uns meros dez minutos, há que dizê-lo, e sem direito a fotografias. Os pretendentes são tantos que as autoridades controlam o número de pessoas e o tempo no interior das tumbas.

Ainda estamos longe do Verão destas partes de África remotas. Mesmo assim, o calor que nos tosta ao subirmos os trilhos poeirentos do Vale dos Reis é de morte e a secura do ar digna do Saara. A aridez do deserto sempre privilegiou a conservação das esfinges.

Como pudemos comprovar, Tutankhamon, o rei-rapazote que terá governado dos nove aos dezanove anos até ter perecido por razões tão ou mais debatidas que o achado da sua tumba, ainda aqui tem a sua morada.

No que diz respeito à polémica, de um lado, estão os apologistas de que o descobridor da tumba com 3200 anos, o arqueólogo britânico Howard Carter, enganou as autoridades egípcias, desviou uma boa parte das riquezas e simulou as anteriores profanações da tumba, a primeira das quais alega ter acontecido pouco depois do funeral do faraó, seguida de uma segunda, quinze anos mais tarde.

Do outro lado, encontram-se os defensores de que, tal como alegado por Carter, a tumba já tinha sido roubada várias vezes antes do achado do arqueólogo, considerado o maior triunfo arqueológico de todos os tempos.

Em grande parte, o mentor da febre das tumbas e tesouros egípcios foi Napoleão Bonaparte.

Após a conquista de Itália, os governantes do Directório do império, começaram a pressionar para que a França invadisse a Inglaterra. Napoleão opôs-se. Com o apoio do ministro dos Negócios Estrangeiros Talleyrand, conseguiu impor uma campanha pelo Egipto com o propósito de afectar as prolíficas rotas de comércio inglesas com a sua Joia da Coroa, a Índia.

Por essa altura, o Egipto estava sob controle dos Mamelukos egípcios. Em 1798, as forças de Napoleão conseguiram evitar a armada do Almirante Nelson, desembarcar na costa mediterrânica do Egipto e vencer diversas batalhas decisivas, incluindo a Batalha das Pirâmides.

Mas, furioso que a armada francesa lhe tivesse escapado, Lord Nelson não descansou enquanto não corrigisse a falha. Detectou, por fim, os 400 barcos inimigos e destruiu-os na Batalha de Aboukir. Esta sua acção, deixou as forças de Napoleão “encalhadas” no Egipto.

O Imperador tentou tirar o melhor partido possível da sua inesperada situação. Corria o boato de que o exército turco se preparava para o atacar. Napoleão tentou impedi-lo atacando os otomanos na zona da actual Síria e Palestina. Só que se viu cercado na cidade controlada pelos britânicos de Acre.

Uns meses mais, tarde foi forçado a regressar ao Egipto com as suas forças enfraquecidas. No entretanto, a guerra tinha-se alastrado na Europa e a França via-se cada vez mais vulnerável. Napoleão decidiu regressar. Voltou a evitar a armada de Nelson e concentrou esforços em remover a administração que considerava “um bando de advogados”. Não tardou a substituí-la por um Consulado de três cônsules dos quais ele próprio passou a ser o líder.

As tropas napoleónicas renderam-se aos britânicos em Setembro de1801. Nos três anos que passou no Egipto, o Imperador francês tornou-se obcecado pela história e cultura milenar da nação.

Encorajou em redor de 150 cientistas, matemáticos, engenheiros e artistas a estudarem os antigos monumentos, o terreno, a flora e a fauna bem como a sociedade e vários outros aspectos da civilização egípcia. O resultado do seu trabalho foi um enorme compendio ilustrado denominado “Description de L’Égypte”.

Esta obra gerou uma egiptologia quase insana que perduraria, pelo menos, mais duzentos anos. Também simplificou os estudos e buscas dos exploradores que aderiram ao movimento. Howard Carter foi só um dos exploradores que a ele se entregou.

Em 1922 – o ano em que o Egipto declarou independência do Reino Unido e em que Carter encontrou a tumba de Tutankhamon – passou a vigorar uma lei com que o Egipto se procurou defender dessa nova febre. A lei ditou que qualquer achado arqueológico de um tesouro que estivesse intacto teria que ficar no Egipto enquanto que se o tesouro estivesse já violado, podia ser dividido entre o Egipto e quem o encontrasse.

De cada vez que aparece um objecto à face da Terra que os egiptólogos estão certos pertencer ao tesouro de Tutankhamon, a contenda reemerge. Quem abriu, afinal, a tumba pela primeira vez? Terá ou não Carter conseguido transportar os tesouros para fora do Egipto.

Fosse como fosse, no fim, as autoridades egípcias, ansiosas pela emancipação face aos colonos britânicos, recusaram-se a dividir o espólio.

Subsiste, à margem, o tema prolífico da maldição de Tutankhamon, abordado em incontáveis documentários, filmes, livros, jogos de computador e de tudo o resto um pouco e com uma lista crescente de vítimas de vários países e ramos de vida.

Distintos faraós notórios são vizinhos de Tutankhamon, incluindo nove Ramsés. Nos dias que correm, o membro falecido da realeza egípcia com os aposentos mortuários mais sumptuosos é, de longe, a faraó Hatshepsut, a segunda regente da história do Egipto e uma das “grandes mulheres da história de que estamos informados” assim a qualificou o egiptólogo James Henry Breasted.

Para a celebrarmos, juntamo-nos a dezenas de outros curiosos do Egipto e percorrermos a longa alameda que conduz aos penhascos quase verticais de Deir el Bahari. De plana, a alameda inclina-se para o céu azulão. Aponta ao cimo dos terraços colunados a que chegamos a quase trinta metros de altura.

O eixo do templo parece ter sido propositadamente alinhado com a posição do nascer do sol no solstício de Inverno (21 ou 22 de Dezembro) quando a luz solar incide sobre uma das estátuas de Osíris de ambos os lados da entrada da segunda câmara.

Estudiosos observaram ainda que uma caixa de luz colocada de forma a revelar como a luz se afasta do eixo central e ilumina a estátua do deus Amon-Ra (entretanto, os egípcios fundiram a divindade de Amon com a do deus do sol Ra), o faraó Thutmose III e, logo, o deus do Nilo Hapi.

Deixamos aquele templo mortuário hiperbólico com o sol ainda bem alto. Dali, regressámos para mais próximo das margens irrigadas do rio em busca do Colosso de Memnon. Erguidas em 1500 a.C. enquanto guardiãs da tumba do faraó Amenhoep III, as estátuas têm dezoito metros e exibem o rei egípcio sentado com as mãos sobre os joelhos.

Encontramo-las, assim, sem grande esforço apesar de terem sido deslocadas após inundações superlativas do Nilo terem destruído um dos complexos faraónicos maiores e mais opulentos do Egipto e os monarcas sucessores começado a usar os seus blocos de pedras noutras construções. Mesmo portentosas e intimidantes, as estátuas também não evitaram o equívoco colossal do seu baptismo.

Em 27 a.C., um tremor de terra destruiu o colosso a norte do antigo templo. Essa estátua começou a produzir um som estranho. Acontecia, por norma, de manhã cedo diz-se, agora, que devido ao aumento brusco da temperatura e à evaporação do orvalho nas fendas do monumento.

Ora, o som fenomenal tornou-se de tal forma famoso que atraiu turistas romanos (incluindo imperadores) e gregos da época que se davam ao trabalho de viajar dias a fio para chegar ao lugar e de inscrever na sua base se tinham ou não ouvido o som. Não faziam ideia de que se tratava de uma estátua de Amenhoep III. Os gregos, em particular, começaram a atribuir o som aos lamentos da mãe do rei Memnon.

Memnon era um rei da Etiópia que conduziu o seu exército África acima em direcção à Ásia Menor para ajudar a defender Troia do ataque dos Gregos. Apesar da sua bravura, foi morto por Aquiles. Não terá servido de grande compensação mas, falecido, conquistou estatuto de herói entre os helénicos.

Em 20 a.C., o historiador Strabo que viveu na Ásia Menor, chegou melhor informado que os seus compatriotas helénicos e descreveu o som como uma espécie de golpe. Ao viajante e geógrafo Pausanias, soou a uma corda de lira a partir-se. Outros ainda, narraram-no como uma pancada em cobre ou um assobio incomum.

Para sermos sinceros, nós, não ouvimos nada nem estávamos com tempo para esperar. Daí a umas horas, o cruzeiro em que embarcáramos daria início à navegação Nilo acima. Tínhamos muito mais do Nilo e do Antigo Egipto para desvendar pelo que deixámos Memnon e o colosso que nunca foi seu entregues à História.

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