Islândia

O Aconchego Geotérmico da Ilha do Gelo


Praia Islandesa

Banhistas relaxam na água quente da lagoa azul de Grindavik, uma de muitas lagoas geotermais da Islândia

Uma agricultura resplandecente

Estufa geotermal num cenário nevado entre Husavik e Myvatn.

Água pelos ares

Géiser Strokkur, no vale geotermal de Haukaladur com erupções regulares em menos de 10 minutos.

Eva e Guthrun

Duas vendedoras de substâncias naturais para a pele em plena acção na Lagoa Azul de Grindavik.

Das profundezas

Água escaldante das entranhas da Terra, prestes a jorrar a 15, 20 metros ou mais de altura.

Alta Voltagem

Cabos eléctricos numa planície da costa sul da Islândia. Parte significativa da energia do país (incluindo a eléctrica) tem origem geotérmica.

Praia Islandesa II

Vista panorâmica da lagoa Azul de Grindavik com a central geotérmica de Svartsengi (a 4ªa maior da Islândia) em fundo.

Planalto de Hellisheidi

Infra-estruturas complementares da central geotérmica de Hellisheidi - a maior do Mundo - camufladas no cenário malhado do planalto homónimo.

Vulcanismo & Geotermia

Neve derretida sobre um prado seco pelo frio invernal nas imediações da cratera do vulção Hverjall, no Parque Nacional Myvatn.

Banhistas geotermais

Visitantes da Lagoa Azul de Grindavik partilham a água vulcânica e sulfurosa libertada por fontes geotermais.

A Maior das Maiores

A central geotérmica de Hellisheidi, a mais poderosa do Mundo, com uma capacidade de produção de 303 MW de electricidade e 400 MW de água quente.

A maior parte dos visitantes valoriza os cenários vulcânicos da Islândia pela sua beleza. Os islandeses também deles retiram calor e energia cruciais para a vida que levam às portas do Árctico.

Aproximamo-nos da meia-noite. Ao subirmos em direcção às terras altas do lago Myvatn, passamos os olhos pelo retrovisor e percebemos que as nuvens abrem e desvendam um céu de vários tons fogosos que se alastram ao oceano Árctico e à superfície frígida do litoral norte da Islândia. A excentricidade boreal daquele ocaso convida-nos a encostar o carro à berma gelada. Apreciamos o seu lento desenrolar por alguns minutos, até que o vento enregelante nos leva a ilusão de conforto térmico impingida pelo desfazer do grande astro. Aguentamos o que aguentamos e voltamos ao refúgio amornado do carro. Por pouco tempo. Alguns quilómetros para diante, espanta-nos nova visão incandescente, desta feita paralelepipédica e ainda mais resplandecente na quase noite que se havia instalado.

Investigamos aquele O.V.N.I. pousado com o cuidado que nos merecia até porque uma ladeira escorregadia e um descampado pejado de buracos tapados pela neve o separava da berma da estrada. A poucos metros do invólucro de vidro embaciado, percebemos um conteúdo 100% vegetal e confirmamos o que já nos ocorrera: tratava-se de uma estufa islandesa.

O Sol que naquela Primavera invernosa ainda resistia quase dezoito horas acima do horizonte, chegava com raios tão insípidos que pouco nos estimulavam a pele e os sentidos. Estávamos prestes a entrar nos meses afáveis da Islândia, pelo que calculávamos que o clima dos seus meses antípodas fosse bem mais rude. E, no entanto, com excepção para a ínfima duração da luz do dia, em grande parte do ano, a quase árctica Islândia até é favorecida.

Duas correntes marítimas, a Norte Atlântica e a Irminger envolvem-na, mantêm o oceano em redor livre de gelo e suavizam as temperaturas invernais que, de outra forma, seriam bem mais extremas que os normais 0ºC de média nas terras baixas da costa sul e -10ºC nas terras altas do interior. Numa dimensão localizada, a intensa actividade vulcânica contribui para aquecer e preservar menos congeladas vastas áreas da ilha como os  vulcões, fumarolas e géiseres em redor do lago Myvatn, que não tardaríamos a explorar.

Ao longo do tempo, os islandeses aprenderam como nenhum outro povo a viver com a sua delicada geologia. E a manipularem a grande concentração de vulcões em favor da geração de energia geotérmica, aquecimento e alguma produção de electricidade.

São cinco as grandes centrais geotérmicas que produzem um quarto da energia da Islândia. Quase 90% dos edifícios do país têm aquecimento e água quente geotérmicos. Tendo em conta que 75% da electricidade do país tem origem hídrica percebe-se que os islandeses façam fé em que a sua nação deixe em breve de depender de combustíveis fósseis e o menos possível de todo o tipo de importações.

Mais tarde, viríamos a perceber que a estufa excêntrica que tínhamos estado a examinar era apenas uma de muitas, mantidas com calor vindo das profundezas da ilha. Fazia parte do tal plano ambicioso de sustentabilidade.

Devido ao curto período da Primavera-Verão, só os tubérculos e vegetais mais resistentes ao frio como as batatas, os nabos, as cenouras, e as couves podem ser cultivados ao ar livre. Estufas como aquelas aumentavam de número a olhos vistos em lugares estratégicos do país e permitiam gerar, em quantidades cada vez menos limitadas, tomates, pepinos, pimentos, flores, plantas e até bananas, uvas e uma outra iguaria tropical.

Como pudemos sofrer na pele, a sua produção ainda pouco alterava o preço do isolamento insular e setentrional da Islândia: “São 3500, ou 3700 ou 4000 coroas (24, 25 ou 27€)” informavam-nos educadamente os caixas dos supermercados em que nos abastecemos enquanto demos a volta à ilha. “Pagam em dinheiro ou em cartão?” De cada vez que ouvíamos o total, essa era a questão que menos nos preocupava. Invariavelmente, olhávamos para o cesto e tentávamos perceber se lá tínhamos colocado algo por engano ou cometido algum exagero. Mas não. Confirmava-se apenas o pouco que desejávamos. Enchíamos o saco, virávamos as costas e prosseguíamos viagem conformados e sempre entusiasmados pela imponência geológica quente e fria daquelas paragens.

Depois de termos dado a volta à ilha, instalámo-nos em Reiquejavique de onde passámos a partir para incursões estratégicas aos domínios imperdíveis em redor. Numa delas, parámos no vale de Haukaladur. Existem três outros vales com o mesmo nome na Islândia mas só este acolhe uma vasta área geotermal que os colonos viquingues relataram, em 1294, que ser terá formado pouco tempo antes por acção sísmica. Aliás, os tremores de terra continuam a activar e desactivar estas fontes, como aconteceu alternadamente em Julho de 2000.

Lemos antecipadamente que eram dois os géiseres mais famosos no vale, o Strokkur e outro, o Geysir (termo derivado do verbo geysa do antigo norueguês para jorrar). O Geysir provou-se o primeiro géiser a ser conhecido pelos europeus modernos, descrito em obra impressa e que acabou por ser adaptado como a nomenclatura mundial do fenómeno.

Ora, cedo percebemos que era tão famoso quanto caprichoso. Por norma, só irrompia em quatro ou cinco ocasiões solenes diárias. Não hesitámos, assim, em nos dedicarmos ao mais sociável Strokkur. Vimo-lo brotar cinco ou seis vezes em menos de uma hora, a mais de 20 metros de altura e ainda fomos baptizados por borrifos da sua água escaldante e sulfurosa.

No fim dessa tarde, regressávamos à capital quando fomos surpreendidos pelo cenário malhado do planalto de Hellisheidi nevado mas não muito, colorido por retalhos de solo vulcânico castanho que o novo ocaso tardio transformava lentamente em ocre.

Conduzimos a um dos pontos mais altos desta chapada. Dali, apreciámos como o lusco-fusco se apoderou lentamente da central geotérmica homónima – a maior do Mundo –, situada junto ao vulcão de Hengill e deu origem a novo panorama extraterrestre. Nem a geotermia nem a quase ficção científica islandesa se ficariam por aí.

“Se não gostam do tempo na Islândia, esperem só um minuto”, professa um dos ditados mais populares da nação. Mas, já tinham decorrido bastantes mais horas do que estávamos dispostos a conceder e uma das atracções da ilha que melhor poderia compensar a má meteorologia continuava à nossa disposição. Dedicámos-lhe toda a manhã seguinte.

Passamos pelo portal sofisticado da sua recepção e subimos ao terraço panorâmico. Daquele cimo, espantamo-nos com a visão surreal de centenas de banhistas em puro deleite, subsumidos na água da Bláa Lonid, a lagoa azul de Grindavik. Ao longe, já no extremo oposto da lagoa, isolada por lajes abrasivas de lava, vislumbramos a quarta maior estação geotérmica da Islândia, a de Svartsengi. Em plena operação, as chaminés desta central lançavam nuvens de vapor que se juntavam às celestes.

Descemos para os balneários e juntamo-nos a uma multidão internacional e anfíbia. A temperatura da água oscila consoante a distância das fontes que a libertam. Por norma, está perfeita mas, de quando em quando, algumas caldeiras sobreaquecem certas secções. Ainda rimos a bom rir com a debandada de um núcleo de senhoras, aflitas com uma cozedura imaginária. Apesar de água mal passar da cintura, dois nadadores salvadores limitam-se a divertir-se com a situação, recorrente e pouco preocupante.

Eva e Guthrun, representantes da lagoa também elas com máscaras faciais de argila ou afins e munidas de tabuleiros com taças abordam os banhistas e convencem-nos a testar substâncias que afiançam embelezar qualquer pele. “Experimentem esta!” desinquietam-nos. É uma espécie de botox natural islandês!”

Entretanto, uma saraivada fulminante expulsa-nos a nós, às jovens vendedoras e aos restantes clientes balneares do caldo vulcânico. A tormenta prova-se de pouca dura. Ainda caía um granizo diminuto quando os primeiros islandeses começaram a regressar àquele seu famoso afago geotermal. 

PN Thingvelir, Islândia

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Islândia

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Neve sem Fim na Ilha do Fogo

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Aterragem sobre o gelo
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Bom conselho Budista
Cerimónias e Festividades

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