Red Centre, Austrália

No Coração Partido da Austrália


À sombra da falésia

Guia Chief sobre um pequeno promontório do King's Canyon.

Uluru-Ayers Rock

Sagrado para os aborígenes Anangu do Red Centre, o rochedo de arcose Uluru tem 873 metros de altura e uma circunferência de 9.4 km.

Caminhada sob ameaça

Grupo caminha num trilho de Kata Tjuta, protegido das moscas infernais por redes.

Avistamento

Dois visitantes perscrutam os rochedos avermelhados de Kata Djuta.

Aureola e Silhueta

A sombra monumental do rochedo Uluru/Ayers Rock.

Líder em caqui

Guia Chief conduz um grupo de visitantes do parque nacional Kata Tjuta.

Verdura e secura

Uma árvore morta sobressai do cenário inóspito de Kata Tjuta.

Melodia aborigene

Nativo toca didjeridu.

Chief em Erdlunda

Guia Chief sai de um bar de beira de estrada, em Erldunda.

Acidente aussie

Viajantes examinam o que terá sido o resultado de um acidente rodoviário fenomenal.

The Olgas

Os rochedos de Kata Tjuta iluminados ao pôr-do-sol.

O Red Centre abriga alguns dos monumentos naturais incontornáveis da Grande Ilha. Impressiona-nos pela grandiosidade dos cenários mas também a incompatibilidade renovada das suas duas civilizações.

Chief chega sobre a hora marcada e apressa-se a salvaguardar a integridade da sua imagem: “Disseram-me que vinham dois jornalistas. Que eu tinha que me apresentar e comportar em condições! Vamos lá ver o que se arranja”.

Apesar de originalmente kiwi, a sua figura não podia ser mais ozzie. Ri-se descomplexadamente do topo do seu metro e noventa e pouco. Veste uma camisa justa e uns mini-calções, ambos de caqui, gastos pelos quilómetros percorridos no deserto e sujos de nódoas que cabe ao tempo lavar. As botas de pele, amareladas, altas e poeirentas e um velho chapéu Akubra são os derradeiros apontamentos de um traje criado e retocado pelo Outback.

Se tivesse chegado na altura certa, Chief podia ter sido um dos pioneiros destemidos que desbravaram o interior da Austrália e ergueram a cidade de onde íamos partir à descoberta do Northern Territory.

Não foi por acaso que Alice Springs surgiu no centro geométrico da Austrália. Na segunda metade do século XIX, grande parte do sul estava colonizado mas o centro e parte do Norte eram ainda domínios incógnitos, ocupados exclusivamente pelos seus guardiões ancestrais aborígenes.

Em 1861-62, John McDouall Stuart liderou uma expedição ao coração do deserto. Acabaria por se tornar no primeiro europeu a atravessar a Austrália de sul a norte e estabeleceu a rota que abriria caminho à linha de telégrafo programada para ligar Adelaide a Darwin e Darwin à Grã-Bretanha. Mais tarde, a descoberta de ouro fluvial em grandes quantidades, a cerca de 100 km, deu origem a uma população fixa em redor de Stuart, como a colónia seria baptizada. O fim do ouro ditou que a povoação se deslocasse para perto da estação do teleférico, por sua vez, chamada de Alice Springs em honra da esposa do chefe dos correios e das nascentes que irrigavam o vasto oásis envolvente.

Eram tempos ásperos, dominados pela incerteza e em que a secura dominante da paisagem pedia soluções criativas. Foram trazidos do noroeste da antiga Índia britânica – hoje Paquistão – camelos que eram conduzidos, em longas caravanas, por imigrantes das tribos Pathan, incorrectamente apelidados de cameleiros afegãos. Estas caravanas resolveram momentaneamente o problema da falta de água. Com o passar dos anos, tornaram-se desnecessárias e os camelos abandonados ou perdidos multiplicaram-se e espalharam-se pelo deserto, ao ponto de existirem, hoje, em maior número, na Austrália, que em muitos países árabes.

Alice – como é carinhosamente tratada – espraia-se ao longo do leito quase sempre seco do rio Todd. É feita de edifícios baixos, armazéns e complexos comerciais térreos que pouco ou nada bloqueiam o céu azul. Outros negócios dominantes são os bares, as agencias de turismo e as galerias de arte. À primeira vista, tudo parece normal mas a presença aparentemente disfuncional da comunidade aborígene causa, neste entreposto turístico, ainda mais desconforto que noutras localidades do Northern Territory.

É difícil para os visitantes recém-chegados compreender porque passam o tempo sentados na relva dos jardins ou à frente de lojas e estações de serviço. Custam a aceitar os modos primitivos e a sua incapacidade em lidar com a marginalização a que se viram votados pela civilização ocidental que os desenraizou sem retorno.

Aqui, como por toda a Austrália, o governo australiano desculpou-se. Tenta redimir-se e paga pelos pecados cometidos em dólares australianos e devolvendo terras de que se apropriou indevidamente, durante o período em que manteve uma lei que equiparava os aborígenes à fauna e flora. Aqui, como por toda a Austrália, estas medidas estão longe de resolver o que quer que seja.  

Durante o trecho inicial da viagem, Chief confessa: “… não faço sempre isto. Trabalho com a comunidade prisional aborígene de Alice Springs. Sou dos poucos que os conhece e aceita”. Confessa ainda que, mesmo assim, tem dificuldade em responder às perguntas e observações preconceituosas dos turistas australianos e estrangeiros e tenta compensar apresentando-lhes a fascinante cultura mitológica dos indígenas nos lugares mais emblemáticos.

No Domínio Ventoso de Uluru 

“Não posso acreditar nisto!”, repete Kevin uma última vez, após rogar uma série de pragas. Assim que acorda e sai do seu swag (saco cama australiano), o pequeno coreano depara-se com a maior das frustrações. Depois de mais de um ano a trabalhar em Sydney como um autómato, há já algum tempo que sonhava com o ponto alto da viagem: contemplar o Red Centre do topo do Uluru, Mas o silvar estridente do bush australiano soava a más notícias.

Na tarde anterior, Chief, tinha sido bem claro. Em nome dos aborígenes Anangu, pedia a todos que não subissem mas esclarecia que só ia impedir quem o quisesse fazer caso as condições meteorológicas o determinassem. Contra as previsões, em vez de acalmar, o vento aumentou durante a noite e, ao nascer do sol, as autoridades do parque fecharam o acesso ao trilho facilitando-lhe a vida.

À primeira vista simples, o tema das ascensões ao Ayers Rock – como lhe chamaram os colonos de origem britânica em homenagem ao Chief Secretary da Austrália do Sul de 1873 – é, na realidade, bastante complexo e espelha a relação melindrosa que os seus descendentes australianos mantêm com os indígenas.

Em 1983, o primeiro-ministro Bob Hawke prometeu devolver aquela terra em particular aos seus donos tradicionais e concordou com plano com dez pontos que incluía a proibição de escalada do Uluru. À boa maneira política, a promessa depressa foi esquecida. Noventa e nove anos de concessão em vez dos cinquenta pré-acordados seriam estabelecidos antes da restituição oficial e o acesso ao topo do Uluru acabou por ser permitido para não contrariar a vontade dos milhares de visitantes mais jovens ou simplesmente em boa forma física.

Os aborígenes Anangu, que são os protectores ancestrais do rochedo e do espaço circundante, não o escalam. Evitam fazê-lo devido ao seu grande significado espiritual, por passar, no topo, um trilho do seu Dreamtime (o passado mitológico) e também por uma questão de responsabilidade pela segurança de quem acolhem na sua terra. Ao longo dos anos, e contra a sua vontade, as subidas fizeram já 35 vítimas. Em cada uma das fatalidades, os aborígenes manifestaram enorme tristeza mas os australianos “colonos” são um povo que se habituou a conviver com a aventura e o risco e, não está prevista qualquer proibição total.

Situado no canto sudoeste do vasto Northern Territory, em pleno coração do Outback, este estranho monte-ilha de arcose, tão emblemático como homogéneo e compacto, sobreviveu a milhões de anos de erosão que apagaram do mapa um maciço envolvente gigantesco que teria sido bem mais vulnerável ao desgaste. Mas, com 348m de altura máxima e 9.4km de circunferência, a formação é ainda mais intrigante por mudar de cor ao longo do dia e das estações do ano, à medida que diferentes tipos de luz nele incidem.

Alguns dos seus cerca de 400.000 visitantes anuais não resistem a tanto fascínio visual e mitológico. Mesmo alertados pelos guias sobre uma maldição que assombra a vida de quem retira pedras do Uluru, preferem arriscar e cometem o delito. Desenvolvendo um dos seus temas preferidos, Chief conta-nos com sarcasmo insuperável: “… mais engraçado ainda é que, por descargo de consciência ou mera precaução, são vários os que se arrependem e gastam mundos e fundos para as tentar devolver ao rochedo. Mandam-nas por correio para as agências com que viajaram e pedem-lhes que as reponham…”

Os obstáculos levantados pelas crenças tradicionais tjukurpa não se ficam, no entanto, por aí. Em redor do monte de rocha sucedem-se as nascentes, cavernas, pequenos depósitos naturais de água e pinturas rupestres. Mas apesar da abundância de motivos, a fotografia é restringida em diversas secções em que os Anangu realizam rituais relacionados com o género em que não são admitidas pessoas do sexo oposto. O objectivo é evitar que sejam quebrados tabus milenares por esses indígenas encontrarem imagens dos locais naquele a que chamam o mundo exterior. Mesmo contando que é conseguido, não faltam ao Northern Territory locais tão interessantes como fotogénicos.

A apenas 25km para oeste, acessível pela mesma Lasseter Highway que conduz ao Uluru/Ayers Rock e, depois, pela Luritja Road, impõe-se ao céu sempre azul do Red Centre um outro capricho da Terra Australis. Trata-se de Kata Tjuta (dialecto aborígene pittjantjajara para “muitas cabeças”), uma sequência de enormes trinta e seis rochas vermelhas que cobrem uma área de quase 27 km2 e têm como ponto mais alto os 1066 m sobre o nível do mar do Monte Olga. Esta elevação, em particular, deu origem a “The Olgas”, o nome ocidental dado ao cenário.

No pico do Verão australiano e a meio da tarde, também aqui o sol castiga sem piedade. E, contra toda o senso comum, revitaliza as infernais moscas do Outback que incomodam os visitantes durante a  caminhada por entre as rochas. A fama dos insectos é tal que muitos chegam munidos de redes com que cobrem a cabeça reforçando o exotismo marciano do lugar. 

A manhã seguinte é dedicada à exploração do Kings Canyon, um território escarpado e de visual Western situado na cordilheira George Gill, ainda a sudoeste de Alice Springs. A nova caminhada começa com a conquista da Heart Attack Hill, assim chamada devido à sua inclinação imprópria para cardíacos. Prosseguiu, por cinco quilómetros, ao longo dos desfiladeiros, das mesetas labirínticas da “cidade” e das encostas e escadarias escavadas na rocha do Anfiteatro. Foi interrompida, para descanso, à beira do Garden of Eden, um lago cercado de vegetação densa que quebra o domínio ocre da paisagem. Por fim, regressou ao ponto de partida.

Cumprido a extenuante caminhada regressámos a Alice Springs. Esperava-nos outra longa mas fascinante etapa rodoviária: a segunda metade da Stuart Highway.

Sydney, Austrália

De Desterro de Criminosos a Cidade Exemplar

A primeira das colónias australianas foi erguida por reclusos desterrados. Hoje, os aussies de Sydney gabam-se de antigos condenados da sua árvore genealógica e orgulham-se da prosperidade cosmopolita da megalópole que habitam. 

Melbourne, Austrália

Austrália "Asienada"

Capital cultural aussie, Melbourne também é frequentemente eleita a cidade com melhor qualidade de vida do Mundo. Quase um milhão de emigrantes orientais aproveitaram este acolhimento imaculado.

Hobart, Austrália

A Porta dos Fundos da Austrália

Hobart, a capital de estado mais a sul da grande ilha foi colonizada por milhares de degredados de Inglaterra. Sem surpresa, a sua população preserva uma forte admiração pelos modos de vida marginais.

Alice Springs a Darwin, Austrália

A Caminho do Top End

Do Red Centre ao Top End tropical, a Stuart Hwy percorre mais de 1.500km solitários através da Austrália. Nesse trajecto, a grande ilha muda radicalmente de visual mas mantém-se fiel à sua alma rude.

Perth, Austrália

Em Honra da Fundação, de Luto Pela Invasão

26/1 é uma data controversa na Austrália. Enquanto os colonos britânicos o celebram com churrascos e muita cerveja, os aborígenes celebram o facto de não terem sido completamente dizimados.

Wycliffe Wells, Austrália

Os Ficheiros Pouco Secretos de Wycliffe Wells

Há décadas que os moradores, peritos de ovnilogia e visitantes testemunham avistamentos em redor de Wycliff Wells. Aqui, Roswell nunca serviu de exemplo e cada novo fenómeno é comunicado ao mundo.

Praia soleada
Arquitectura & Design

Miami Beach, E.U.A.

A Praia de Todas as Vaidades

Poucos litorais concentram, ao mesmo tempo, tanto calor e exibições de fama, de riqueza e de glória. Situada no extremo sudeste dos E.U.A., Miami Beach tem acesso por seis pontes que a ligam ao resto da Flórida. É manifestamente parco para o número de almas que a desejam.

Alturas Tibetanas
Aventura

Mal de Altitude: não é mau. É péssimo!

Em viagem, acontece vermo-nos confrontados com a falta de tempo para explorar um lugar tão imperdível como elevado. Ditam a medicina e a experiência que não se deve arriscar subir à pressa.
Cocquete
Cerimónias e Festividades

Napier, Nova Zelândia

De Volta aos Anos 30

Devastada por um sismo, Napier foi reconstruida num Art Deco quase térreo e vive a fazer de conta que parou nos thirties. Os seus visitantes rendem-se à atmosfera Great Gatsby que a cidade encena.

Memória cruel
Cidades

Hiroxima, Japão

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Em 6-8-1945, Hiroxima sucumbiu à explosão da primeira bomba atómica usada em guerra. Volvidos 70 anos, a cidade luta pela memória da tragédia e para que as armas nucleares sejam erradicadas até 2020.

Comodidade até na Natureza
Comida

Tóquio, Japão

O Império das Máquinas de Bebidas

São mais de 5 milhões as caixas luminosas ultra-tecnológicas espalhadas pelo país e muitas mais latas e garrafas exuberantes de bebidas apelativas. Há muito que os japoneses deixaram de lhes resistir.

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Sudeste da Tunísia

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Por razões de segurança, o planeta Tatooine de "O Despertar da Força" foi filmado em Abu Dhabi. Recuamos no calendário cósmico e revisitamos alguns dos lugares tunisinos com mais impacto na saga.

 

Fogo-de-artifício branco
Desporto

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Anéis de Fogo
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Cansaço em tons de verde
Património Mundial Unesco

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Em Suzdal, é de Pequenino que se Celebra o Pepino

Com o Verão e o tempo quente, a cidade russa de Suzdal descontrai da sua ortodoxia religiosa milenar. A velha cidade também é famosa por ter os melhores pepinos da nação. Quando Julho chega, faz dos recém-colhidos um verdadeiro festival. 

Acima de tudo e de todos
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Harare, Zimbabwe

O Último Estertor do Surreal Mugabué

Em 2015, a primeira-dama do Zimbabué Grace Mugabe afirmou que o presidente, então com 91 anos, governaria até aos 100, numa cadeira-de-rodas especial. Pouco depois, começou a insinuar-se à sua sucessão. Mas, nos últimos dias, os generais precipitaram, por fim, a remoção de Robert Mugabe que substituiram pelo antigo vice-presidente Emmerson Mnangagwa.
Pesca no Paraíso
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Entre a Lealdade e a Liberdade

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Budismo XXL
Religião
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O Vale Místico da Profunda Discórdia

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A Toy Train story
Sobre carris
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Ainda Circula a Sério o Comboio Himalaia de Brincar

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O Texas até fica do outro lado do mundo mas não faltam vaqueiros no país dos coalas e dos cangurus. Rodeos do Outback recriam a versão original e 8 segundos não duram menos no Faroeste australiano.

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Huang Luo: a Aldeia Chinesa dos Cabelos mais Longos

Numa região multiétnica coberta de arrozais socalcados, as mulheres de Huang Luo renderam-se a uma mesma obsessão capilar. Deixam crescer os cabelos mais longos do mundo, anos a fio, até um comprimento médio de 170 a 200 cm. Por estranho que pareça, para os manterem belos e lustrosos, usam apenas água e arrôz.
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