Kolmanskop, Namíbia

Gerada pelos Diamantes do Namibe, Abandonada às suas Areias


T4 à moda do Namibe

Um dos lares mais coloridos de Kolmanskop, invadido pela areia do Namibe.

Acima da média

A vivenda do engenheiro de minas e gerente Leonard Kolle, destacada da pequena avenida que agrupou a maior parte das casas.

Num lento declínio

O domicílio do contabilista Wiese, visto da vivenda de Leonard Kolle.

Imersão de deserto

Pouco sobra de uma casa-de-banho de uma outra vivenda, com a banheira repleta de areia em vez de água.

Uma aventura no inóspito

Vista de Kolmanskop no ambiente nada acolhedor do deserto do Namibe.

Lares perdidos no tempo

Vivendas de Leonard Kolle e a do contabilista Wiese, perdidas na vastidão arenosa do deserto do Namibe.

Rua sem saída

Árvore reclama o seu lugar numa rua da antes prodigiosa Kolmanskop.

Kolmanskop versão colonial alemã

O antigo letreiro da povoação, escrito ainda em fonte e língua alemã.

Foi a descoberta de um campo diamantífero farto, em 1908, que originou a fundação e a opulência surreal de Kolmanskop. Menos de 50 anos depois, as pedras preciosas esgotaram-se. Os habitantes deixaram a povoação ao deserto.

Repetidos sinais de trânsito na derradeira recta sem fim rumo a Lüderitz, tinham-nos alertado: o vento de sudoeste pode soprar brutal por aqueles lados. O Inverno destas paragens ermas e inóspitas está, no entanto, por se instalar. As rajadas mantêm-se moderadas. Permitem-nos acelerar e chegar num ápice ao destino da manhã. Já a tínhamos vislumbrado ao longe mas é pouco depois de passarmos a cancela de acesso que constatamos com olhos de ver como o tempo e o vento herdaram Kolmanskop e a continuam a sepultar.

Estacionamos. Subimos ao andar cimeiro de um edifício que se destaca dos demais. Lá encontramos a recepção do complexo e o seu velho salão de baile e de espectáculos, de quando em quando adaptado a casino que coisa que nunca faltou aos moradores foi dinheiro para esbanjar.

Estamos em pleno Deserto do Namibe. Um deserto tão avassalador que se apoderou até da nomenclatura do país. Estamos na Namíbia. Na mais preciosa e interdita das suas regiões, a que ficou para a história e surge actualmente nos mapas como Sperrgebiet, o termo germânico para “zona proibida”.

Em 1908, a Namíbia era uma das poucas colónias alemãs em África, uma colónia à nascença, indesejada. Ao contrário da maior parte dos governantes do Velho Mundo, o chanceler Otto von Bismarck era avesso à expansão africana que considerava uma ilusão dispendiosa. “O meu mapa de África é aqui, na Europa.” terá dito em frente a um mapa. “Aqui, é a Rússia e, aqui, é a França e nós estamos aqui no meio.”

Foi o interesse e o investimento comercial de Adolf Lüderitz – um mercador de Bremen – na zona que acabou por forçar a sua integração no Império Alemão. E se Bismarck o teve que apoiar algo contrariado, a birra ainda faria menos sentido se protagonizada pelos governantes teutónicos seguintes.

A 14 de Abril de 1908, Zacharias Lewala, um operário negro que trabalhava na linha de caminho-de-ferro entre a povoação costeira de Lüderitz e a interior de Aus, encontrou uma pedra brilhante na areia. Zacharias mostrou-a ao seu supervisor, August Stauch. Este, reconheceu-a como um diamante e apressou-se a obter uma licença de prospeção. A confirmação do veredicto, despoletou a corrida aos diamantes da zona. Pouco depois, o governo alemão expulsou todos os mineiros e forçou a exclusividade da sua prospecção. Mesmo se a entidade monopolizadora é, hoje, outra, o Sperrgebiet pouco mudou. Detectamos a sua interdição oficial um pouco por todo o lado, à beira da estrada B4 e de várias das vias secundárias e de terra ou sal batido que dela ramificam. Também junto a num dos últimos armazéns de Kolmanskop e da placa que a identifica em fonte germânica.

Apesar da inacessibilidade da vastidão circundante, com o bilhete pago, podíamos explorar a maior parte de Kolmanskop. Começamos pela vivenda do gerente Leonard Kolle, destacada da correnteza de edifícios que conferem a organização linear da cidade e pela elegância da escadaria que conduz à sua entrada, da varanda e do frontão que coroa o segundo piso. A areia é pouca no interior deste lar abandonado. Já a casa do contabilista Wiese, mesmo erguida sobre estacas, surge semi-afundada numa das dunas residentes.

Enquanto lá morou, Wiese não teve mãos a medir. Apenas entre 1908 e o início da 1ª Guerra Mundial, foi extraída de Kolmanskop mais de uma tonelada de diamantes. Sem surpresa, a povoação evoluiu para uma pequena cidade caprichosa. Os residentes gostavam de lhe chamar a cidade mais rica da Terra. Mesmo passado mais de um século, o fausto caprichoso de que se revestiu é-nos bem visível.

Passado o hall de entrada do edifício principal, damos com o enorme e elegante salão erguido para acolher festas, espectáculos de teatro e até projecção de cinema. No piso inferior, encontramos o Clubhouse, em que os homens residentes se entretinham a jogar bowling numa pista evoluída para a época. A partir de 1911, a cidade recebeu electricidade e, não tardou, o único eléctrico de África. A electricidade era fornecida por uma estação geradora a carvão, construída nas imediações, em Lüderitz. A água era importada da Cidade do Cabo por barco. Custava 5 pfennig por litro, metade do custo do litro de cerveja. Kolmanskop viu-se ainda prendada com uma fábrica de gelo operada com base em amónia. Gerava, todos os dias e de forma gratuita, metade de uma barra de gelo para o frigorífico de cada lar. Era igualmente produzida água com gás. Da Alemanha, por barco, chegavam todos os luxos de que os moradores se conseguiam lembrar de champagne a bombons e caviar.

No fim dos anos 20, viviam na cidade cerca de 300 adultos e 44 crianças. Kolmanskop tinha a sua própria escola, uma padaria e um talho. Quando demasiado bebidos, acontecia os homens entretidos com o bowling entrarem no talho e roubarem salsichas para prolongarem a farra. Como seria de esperar, nenhuma conta ficou por pagar. O talhante estimava o prejuízo e a dívida era saldada sem qualquer problema.

Kolmanskop também tinha um hospital com o único equipamento de raio-x do Hemisfério Sul. O motivo, esse, não era tão filantropo como se poderia esperar. Cientes de que uma única pedra os poderia tornar milionários, os trabalhadores ao serviço da prospecção tentavam com frequência engoli-las. Além do raio-x, o hospital estava dotado das melhores técnicas médicas para fazer os trabalhadores devolverem as fortunas roubadas.

Ao contrário dos diamantes, o Deserto do Namibe continua a fazer parte da povoação. Investigamos os edifícios e encontramos vários deles repletos da sua areia, acumulada na base das paredes pintadas ou com papel de parede clássico e gasto. Ou, em certos outros casos, de tal forma acumulada que barra o acesso a diversas divisões. Contadores de electricidade e tomadas resistem, bem como banheiras de ferro em que nos enfiamos para compormos os melhores momentos auto-fotográficos da manhã. À imagem dos anteriores, o dia mantém-se radioso. Uma guia encarregue de um grupo de alemães fascinados elucida-nos a todos: “isto é só uma frágil bonança. A qualquer hora, o Inverno entra ao serviço e ventos de 100 a 150km varrem toneladas de nova areia para cima da cidade. Foi o que aconteceu quando Johny Coleman, um condutor de carroças, se viu apanhado por uma terrível tempestade e foi obrigado a abandonar uma delas, com os seus bois junto à povoação. O nome de Coleman foi germanizado, mais tarde, afrikaansnizado. Assim deu origem a Kolmanskuppe ou a Kolmanskop.

Chegada a 1ª Guerra Mundial, os ventos da história levaram os alemães para fora da Namíbia e, por arrasto, da posse de Kolmanskop. Como primeira consequência directa do conflito, os germânicos, isolados em África entre territórios de inimigos anglófonos, francófonos ou portugueses, viram-se impotentes para proteger as suas colónias. Em 1914, a Grã-Bretanha pressionou a África do Sul a invadir a Namíbia. No ano seguinte, a nova administração sul-africana de Windhoek encarregou-se de expulsar os colonos alemães das terras que antes tinham conquistado aos nativos daquelas partes.

Já Kolmanskop, passou para as mãos de Sir Ernest Oppenheimer, um industrial nascido na Alemanha mas que trabalhara desde os 17 anos em Londres, numa empresa de diamantes. Ernest Oppenheimer acabou por fundar, em 1919, a Consolidated Diamond Mines (CDM). Esta sua empresa tornou-se poderosa. De tal maneira que se apoderou da De Beers Consolidated Mines, de Cecil Rhodes, antes dominadora do mercado mundial de diamantes.

Não terá sido alheia ao facto de ter permitido que os anteriores gerentes e funcionários se mantivessem nos postos a origem de Oppenheimer. Essa inesperada decisão, permitiu a Kolmanskop preservar até aos dias de hoje o carácter germânico que encontramos igualmente na bem maior vizinha Lüderitz.

O fim do tempo dado aos visitantes para explorarem a cidade das areias aproxima-se do fim. Aproveitamos para espreitar o museu que preserva inúmeras fotografias, mapas e artefactos da época, muito de antes de Kolmanskop começar a ser chamada de cidade-fantasma e a constar em tops mundiais deste tipo de lugares.

O seu último suspiro ocorreu em 1936. Dez anos antes, geólogos tinham descoberto um novo campo de diamantes 250 km para sul, a norte da foz do rio Orange que marca, hoje, a fronteira entre a Namíbia e a África do Sul. Os diamantes ali descobertos eram bastante maiores. Por volta de 1936, findos os anos da Grande Depressão, a mina de Oranjemund inaugurou a sua operação e atraiu muitos dos habitantes de Kolmanskop que não tardou a encerrar a sua actividade. Os escritórios passaram para Oranjemund. Quando o hospital e a estrutura de transporte foram encerrados, os derradeiros habitantes de Kolmanskop abandonaram-na aos caprichos do Namibe.

 

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