Valletta, Malta

As Capitais Não se Medem aos Palmos


Arranha-céus maltês

Um dos vários prédios monumentais e pitorescos de Valletta.

Salto no conhecido

Duas amigas num momento balnear à entrada do Grand Harbour de Valletta.

A pequena grande Valletta

Valletta e a sua fachada de arenito virada ao Grand Harbour.

Dgħajsa em espera

Remador aguarda por passageiros num dos taxis aquáticos tradicionais do Grand Harbour.

Uma cidade bela e amarela

Casario de Valletta visto do terraço dos Upper Barrak gardens.

Pequeno negócio

Dono de uma frutaria orgulhoso pela atenção dedicada à sua diminuta frutaria.

Letreiro de um velho negócio em tempos operacional junto ao Vitoria Gate.

Rua tradicional de Valletta repleta das marquises de madeira típicas da cidade.

Outra perspectiva de casario de Valletta, este virado para o estuário de Marsamxett.

sobre o lusco-fusco, um veleiro ondula no estuário de Marsamxett com a Catedral de São Paulo destacada da "outra" orla de casario de Valleta.

Por altura da sua fundação, a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários apodou-a de "a mais humilde". Com o passar dos séculos, o título deixou de lhe servir. Em 2018, Valletta será a Capital Europeia da Cultura mais exígua de sempre e uma das mais recheadas de história e deslumbrantes de que haverá memória.

É tudo menos fácil, para quem acaba de chegar, intuir a configuração excêntrica de Valletta. Situada no extremo da península de Sceberras, no âmago de um vasto esteiro recortado, a capital maltesa ostenta duas longas marginais, qual delas a mais elegante e imponente. Estávamos instalados em Il Gzira, no litoral do estuário de Marsamxett que encerra a Ilha Manoel, mesmo de frente para a catedral Anglicana de São Paulo. Do lado de lá do braço de mar, a sua gigantesca abóboda e o campanário da mesma altura impunham-se acima da linha amarelo-torrada do casario de arenito. Tínhamos já visto imagens daquela outra frente da cidade na Internet, em livros e em postais. Mas, manhã após manhã, entrávamos no carro e seguíamos no sentido contrário. Passávamos a ilha Manoel e contornávamos a marina de iates de Msida. Percorridos três ou quatro meandros sem nunca os percebermos com maior profundidade que a mera orientação emprestada pelo Google Maps, íamos dar ao outro lado da cidade, o elevado, dos Upper Barrack Gardens, ou, em alternativa, a ruas de Cospicua, uma das três cidades vizinhas de Valletta. Do trio, Cospicua é a mais recolhida. Senglea e Birgu (Città Vittoriosa), cada qual numa península rival, rasgam o Grande Estuário e projectam as suas ruelas e marinas atafulhadas na direcção da capital.

Valletta tem 800 por 1000 metros, bem menos que os 7.09 km2 de São Marino e os 17.5km2 de Vaduz. Caso a eclesial Cidade do Vaticano seja – como deve ser – considerada um caso à parte, Valletta confirma-se, sem apelo, a mais ínfima das capitais europeias.

Quando nos embasbacamos com a beleza do panorama revelado pelos terraços dos Barrak Gardens, percebemos como a, ainda assim, grande cidade maltesa contempla, entre a benevolência e a indiferença, as suas irmãs mais “baixas”. Ao invés, sempre que a admiramos da extremidade pontiaguda de Senglea, a partir do posto de vigia La Guardiola, ou das ameias do Forti Sant’ Anglu de Birgu, nós, como os moradores daqueles que são alguns dos bairros mais pitorescos à face da Terra, olhamos para cima e prestamos-lhe uma merecida vassalagem.

Os terraços do Bastião de São Pedro e São João ficam à pinha de visitantes na expectativa do meio-dia e dos disparos da Salutting Battery que, embora pareçam alvejar os ferries e cargueiros no Grand Harbour abaixo, se limitam a reconstituir o seu antigo uso cerimonial.

Por altura da qualificação de Valletta como Património Mundial, uma das muitas razões invocadas pela UNESCO foi o facto de “ser uma das áreas com maior concentração histórica do mundo”. Para gáudio dos forasteiros interessados no seu passado épico, tal constatação repete-se sem tréguas.

Valletta surgiu às mãos dos Cavaleiros de São João, os Hospitalários, numa altura em que Malta integrava o vasto Império Espanhol.

Fundada, em Jerusalém, em 1070, para garantir auxílio dos peregrinos e cruzados doentes ou feridos nas batalhas, a Ordem de São João viu-se obrigada a retirar quando as forças muçulmanas tomaram a Terra Santa e a maior parte do Mediterrâneo Oriental. Sedeou-se em Chipre. Mudou-se para Rodes. Em 1530, saturado dos danos provocados pela marinha otomana no Mediterrâneo, Carlos V tê-la-á incitado a instalar-se em Malta.

À chegada, os Cavaleiros Hospitalários desiludiram-se com a inospitalidade da ilha em que as estruturas de defesa eram inexistentes e os próprios habitantes os rejeitavam. Estavam, no entanto, habituados a desafios. Liderados pelo gaulês Jean Parisot de Valette, dedicaram-se a fortificar as entradas para o Grand Harbour e para o actual estuário de Marsamxett. Em boa hora. Apenas trinta e cinco anos depois, já apoiados pelos habitantes malteses, resistiram durante quatro meses ao Grande Cerco imposto pelos Otomanos e proclamaram a sua primeira vitória. De recém-chegados algo ressentidos, os Hospitalários passaram a ser vistos como salvadores da Europa. Estimulados, embrenharam-se na construção da primeira cidade planeada na íntegra do Velho Mundo, entretanto baptizada em honra do Grão-Mestre Valette, o herói do fracassado cerco.

Valette pediu auxílio a reis e príncipes da Europa. O Papa Pio V enviou-lhe Francesco Laparelli, o seu arquitecto militar. Filipe II de Espanha contribuiu com um significativo apoio financeiro.

Cerca de 8000 escravos e artesãos trabalharam a península de Sceberras. Apararam-lhe as encostas e alisaram o cimo. Delinearam uma grelha geométrica que viria a acolher prédios altos que bastasse para fazerem sombra às ruas, construídas rectas e amplas para permitirem que as brizas marinhas refrescassem o longo Verão mediterrânico.

Tal como os admiramos até à exaustão, até os prédios mais modernos nos parecem seculares. Alguns têm quatro, cinco e até seis andares assentes em bases que fazem de ruelas elevadas. Ao nível do verdadeiro solo, alojam garagens ou arrecadações individualizadas com portões coloridos. Um pouco por toda a Valletta mas não só, em cada andar dos prédios mais genuínos coexistem mini-marquises tão ou mais peculiares. Em certas ruas, formam um delicioso sortido de varandins de madeira encaixotados.

Exploramos a zona interior da península, a começar em Floriana, outra pequena urbe às portas da capital. Triq (rua) após triq, confrontamo-nos com a Fonte Tritão e atravessamos o Portal da Cidade. Como consequência de sucessivas tentativas de conquista e de ataques, aquela era já a quinta entrada ali erguida. Dela se encarregou, em 2011, o arquitecto italiano Renzo Piano que desenhou ainda o edifício do Parlamento Nacional e a conversão das ruínas da Ópera Real num teatro ao ar livre. Dali até ao limite nordeste estabelecido pelo Forte St Elmo e pelos Bastiões de Abrecrombie, Ball e São Gregório, a rede urbana de Valletta desenrola-se em volta das suas maiores triqs e misrahs (praças) que acolhem os jardins e os cafés e esplanadas mais caros da nação. Este desafogo não chega a todo o lado. Nas suas vertentes e orlas, Valletta e, ainda mais, as cidades vizinhas apertam-se de tal maneira que os condóminos criam esquemas engenhosos de turnos e segundas e terceiras filas para assim estacionarem os seus pequenos carros. Eternizam, desta forma, uma das maiores densidades populacionais do Planeta. Mesmo conscientes desse e de tantos outros prodígios, os modestos malteses chamam a Valletta “Il-Belt”, “A Cidade”. A própria nomenclatura conflituosa da capital prova-se sintomática da sua magnificência histórica.

Na génese, os Cavaleiros Hospitalários intitularam-na “Humilissima Civita Valletta”. Os anos fluíram. Malta, Valletta em particular, fizeram parte da república francesa de 1798 a 1800, após – mesmo conhecendo a neutralidade da ilha – Napoleão ter ordenado a sua invasão. Pouco depois, os malteses, os Britânicos – apoiados por tropas portuguesas e, mais tarde sicilianas e napolitanas – sujeitaram os invasores a uma fome desesperada e à rendição. Daí, até 1813, Malta tornou-se um Protectorado Britânico e, logo, uma das muitas colónias de Sua Majestade. Essa era anglófona continua estampada no arquipélago: o inglês é a segunda língua, a condução faz-se pela esquerda, as cabines telefónicas e caixas de correio são vermelhas e, a mais solene de todas, o Victoria Gate de Valletta, erguido em honra da rainha Victoria e que serve de principal entrada na cidade a quem ascende da margem do Grand Harbour.

Nos mais de quatrocentos anos que decorreram desde a fundação até 1964, quando Malta proclamou a sua independência, a reputação de Valletta reforçou-se. A cidade foi dotada de mais e mais fortificações, catedrais e igrejas, palácios barrocos, jardins e lares senhoriais distintos. A menos de metade desses quatro séculos, o apodo de humildade atribuído pelos Hospitalários já não lhe servia. As Casas Reais da Europa tinham-se rendido à sua pompa e esplendor. Tratavam-na por Superbissima (A Mais Orgulhosa).

Do pioneiro francês Jean Parisot Valette até aos dias de hoje, quarenta e seis Grão-Mestres de distintas nacionalidades, dos Cavaleiros Hospitalários e da Ordem Soberana Militar de Malta contribuíram para esta evolução. Três deles foram portugueses. O primeiro, Luís Mendes de Vasconcellos, exerceu apenas seis meses. António Manoel de Vilhena e Manuel Pinto da Fonseca tiveram no cargo bastante tempo. Deixaram em Valletta as suas marcas.

O ilhéu e o forte porque passávamos todas as manhãs vindos de Il Gzira tinham o nome do segundo. Foi Manoel de Vilhena quem financiou a construção do forte na ilha, na sua altura apenas chamada de Isolotto. O forte ficou completo em 1733. Seria usado até ao século XX, como um dos muitos acrescentos vitais às defesas de Malta e de Gozo assegurados pelo Grão-Mestre português. Mas um seu outro legado, dá ainda mais vida a Valletta.

Descemos a Triq it-Teatru l-Antik e espreitamos o aconchegante (apenas 623 lugares sentados) Teatro Manoel, inaugurado, em 1732, enquanto Teatro Pubblico. Encanta-nos constatar como resistiu aos séculos – e aos bombardeamentos da 2ª Guerra Mundial – e é considerado o terceiro teatro em funcionamento mais antigo da Europa e o ancião da Commonwealth.

Depois de muito calcorrear a Valletta alisada do cimo da península de Sceberras, descemos à Waterfront, uma zona de lazer repleta de esplanadas sobre o Grand Harbour em que atracam enormes cruzeiros.

Esta secção da Marina de Valleta foi desenvolvida a partir de 1752, pelo Grão-Mestre português que se seguiu. Nascido em Lamego, Manuel Pinto de Fonseca lá mandou erguer uma igreja e dezanove armazéns e lojas agora ocupados por bares, restaurantes e outlets, mais conhecidos por Pinto Stores. Em sincronia com o que se passava no Império Português, no Espanhol e em França, Pinto da Fonseca expulsou os Jesuítas de Malta. Confiscou as suas propriedades e converteu-as numa Pubblica Università di Studi Generali, hoje, a Universidade de Malta.

Várias destas suas medidas radicais e a vida que levava na ilha – tão faustosa que gerava inveja nas mais nobres famílias – granjearam-lhe um bom número de inimigos. O facto de ter conduzido a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários à bancarrota só aumentou a lista. Pinto faleceu em 1773 com a idade avançada de 91 anos. Tem repouso eterno onde jazem os mais relevantes Grão-Mestres Hospitalários e de Malta, a Co-Catedral de São João. Quem, como nós, se rendeu à pequena mas soberba Valletta sabe que é tanta a sua virtude que lhe assenta bem alguma mácula.

 

A Semana de Abertura de Valletta Capital Europeia da Cultura 2018 terá lugar de 14 a 21 de Janeiro. O programa está disponível em http://valletta2018.org

Amesterdão, Holanda

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Perth, Austrália

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