Birgu, Malta

À Conquista da Cidade Vittoriosa


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Igreja de São Lourenço
Perdidos na História
Encontro sob o Partit Laburista
Viajem de Dghjasa
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Triunfo Bronze
Forte San Angelo
MDCCXXII
Vittoriosa, ex-Birgu
A Marina de Birgu II
A Marina de Birgu
Malta Vittoriosa
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Vittoriosa é a mais antiga das Três Cidades de Malta, quartel-general dos Cavaleiros Hospitalários e, de 1530 a 1571, a sua capital. A resistência que ofereceu aos Otomanos no Grande Cerco de Malta manteve a ilha cristã. Mesmo se, mais tarde, Valletta lhe tomou o protagonismo administrativo e político, a velha Birgu resplandece de glória histórica.

Deambulávamos pelo passado amarelado de Malta. Uma inesperada incursão à praça Misrah ir Rbha, em Vittoriosa, revela-nos uma deliciosa fusão das dimensões temporais da ilha.

Três miúdos vestidos com equipamentos de clubes malteses de futebol aparecem de recantos distintos.

À hora que tinham combinada ou a que estavam habituados, cumprimentam-se, conversam um pouco.

Acabam por se sentar, aconchegados contra uma das portas cor-de-vinho de um dos edifícios seculares.

Acima deles, a imagem de uma jovem parece contemplar o porvir de Malta.

Surge destacada, num cartaz, sobre o letreiro da sede local do Partit Laburista e da tocha acesa que lhe serve de símbolo.

Mais para o meio da praça, uma estátua branca, diminuta, se comparada com o pedestal que a suporta, empunha uma cruz.

A figura homenageia São Lourenço, patrono de Birgu e também da ilha de Gozo.

Uma sequência de rampas e escadarias conduz-nos para mais perto da Birgu Waterfront, ainda antes, à igreja de São Lourenço, um dos principais templos católicos da península.

A par com a da Anunciação que se projecta do seu meio, sobranceira face ao todo do casario.

À medida que percorremos os becos e ruelas que as separam, testemunhamos a fusão do dia-a-dia da cidade com o intruso dos visitantes turistas.

Um casal de trajes claros e leves, ideais para o calor estival de Malta estuda, num qualquer livro ou guia, o contexto do cenário que os deslumbra.

Enquanto o fazem, um padre ainda enfiado na sua batina, passa de um recanto na penumbra para a via solarenga que leva à praça.

Pouco depois, um outro, de hábito escuro, surge do sol. Some-se na sombra crescente e nos meandros sinuosos da história, entre Birgu e Vittoriosa.

Os Cenários Amarelados e Sagrados dos Cavaleiros Hospitalários

Não fossem os turistas e a limpeza quase imaculada da cidade, este jogo de luz e de trevas quase se podia passar na Idade Medieval e nos séculos seguintes em que os Cavaleiros Hospitalários tomaram conta da ilha.

O Palácio do Inquisidor continua apenas duas ruas acima da igreja de São Lourenço, outras tanto abaixo da Armaria dos Cavaleiros de Malta. É um dos poucos palácios usados pela Inquisição ainda intactos tanto na Europa como na América do Sul.

Em Malta, foi habitado e usado durante cinco séculos. Desde que, em 1574, Monsignor Pietro Dusina, chegou de Itália, recém-nomeado o delegado apostólico e o primeiro inquisidor de Malta.

Até ao meio do século XVIII, os sucessivos moradores esforçaram-se por aprimorar e tornar o palácio, antes vago, numa residência digna e acolhedora.

Lá encontramos uma área de cozinha desafogada.

E, no primeiro andar, os aposentos e outras áreas privadas sofisticadas. Como era suposto, coexistiam com estes espaços pessoais e humanizados, o Santo Ofício, os calabouços e a sala de tortura.

Vasculhamo-los, curiosos como nunca quanto ao estranho conluio da vida e da morte ou, pelo menos, condenação à morte, bastante mais deslumbrados e entretidos que quando cirandamos pelo Museu Marítimo de Malta, também situado na Birgu Waterfront.

Ali, entusiasmam-nos, sobretudo, os modelos dos barcos de guerra usados pelos Cavaleiros de São João.

De Vittoriosa a Cospicua, e de Volta a Birgu

Se o museu exibe e explica o passado flutuante de Malta, desde as suas batalhas contra os piratas do norte de África, à 2ª Guerra Mundial, o sub-braço de mar em frente acolhe dezenas de vidas embarcadas dos nossos dias.

Malta conta com várias marinas, quatro delas em redor de Valeta e das suas cidades.

As maiores são a de Msida – a noroeste da península em que se desenvolveu a capital. E a de Birgu, situada entre Vittoriosa e a “irmã” Senglea, numa das várias reentrâncias perpendiculares ao Grand Harbour da ilha.

À medida que caminhamos pela marginal Xatt Il-Forn e Xatt ir-Rizq, passamos pelas embarcações ancoradas, desde enormes e multimilionários iates, a pequenas lanchas e veleiros, mais propícios a um Mediterrâneo tranquilo.

Quanto mais avançamos para o fundo do braço de mar secundário e da marina, mais diminui o calado dos barcos.

Por altura da Normal Bridge, o braço de mar volta a estreitar para o canal de Bormla.

Na sua extensão terrestre, uma estátua dourada da Madonna, (Nossa Senhora, não a Louise Ciccone de “Like a Virgin”), abençoa a outra das Três Cidades em que, sem sabermos como, tínhamos já entrado: Cospicua.

Invertemos o rumo, na direcção do extremo oposto da península e de Birgu, o encerrado pelo Forte de St. Angelo.

A Entrada em Malta da Ordem de São João dos Cavaleiros Hospitalários

A Ordem dos Cavaleiros do Hospital de São João de Jerusalém, como eram denominados na íntegra, instalou-se em Malta, em 1530, após o cada vez mais poderoso Império Otomano a ter expulso da ilha de Rodes.

Malta foi um dos territórios que o Imperador Espanhol Carlos V concedeu aos Hospitalários, a par da ilha de Gozo e da cidade, hoje Líbia, de Tripoli.

Ainda antes de assumirem o controle da ilha, em 1526, os Hospitalários enviaram uma delegação de oito cavaleiros representativos de cada uma das suas divisões administrativas, identificadas como Línguas.

Quando chegaram, apesar de a povoação local ser básica e difícil de defender, decidiram erguer, ali, a capital de Malta.

Mdina, a de então, tinha fortificações satisfatórias. No entanto, estava situada no interior da ilha, o que anulava o poderio naval que os Cavaleiros Hospitalários cada vez mais requeriam.

Por outro lado, os Hospitalários sabiam que os Otomanos não desistiriam de os aniquilar.

Fortificaram Birgu à altura dessa noção.

No lugar do antigo Castrum Maris, fizeram erguer o Castelo Saint Angelo. Separaram-no da povoação com um canal exíguo que só podia ser cruzado por uma ponte levadiça.

Uma vez terminado, deliberaram que o castelo seria o aposento fortificado do Grã-Mestre de Malta, o primeiro com domicílio na ilha, já na ordem do 40º, se contados desde a génese da Ordem.

O 49º Grã-Mestre a lá residir, Jean Parisot de Valette, teve pouco sossego. Obcecados por dominarem o Mediterrâneo, os Otomanos voltaram à carga. Em 1551, falharam a conquista de Malta.

O Grande Cerco de Malta e a Resistência de Birgu

Tomaram Tripoli.

Em 1565, numa segunda tentativa mais bem preparada, cercaram a ilha. O cerco durou quase quatro meses, de Maio a Setembro desse ano. A localização de Birgu no âmago do Grand Harbour fez com que os principais confrontos lá se tivessem dado.

A defesa de Birgu e de Malta estiveram periclitantes. Contudo, a destreza militar de Valette e reforços providenciais chegados da Sicília ditaram a retirada dos Otomanos.

Os Cavaleiros Hospitalários e os Malteses saíram triunfantes, mas por pouco.

Valette ansiava por uma inexpugnabilidade quase total para Malta. Fez aprovar que a capital fosse passada para o cimo do Monte Sceberras, sobre a península a norte de Birgu. Veio a chamar-se Valeta.

Hoje, assim se mantém.

Em 1571, os Cavaleiros Hospitalários transferiram-se em peso para Valeta. Até então, a igreja a que chamavam sua era a de São Lourenço. Quando, em 1577, a Co-Catedral de São João de Valeta ficou pronta, passaram a usá-la.

Devido ao papel determinante que desempenhou na resistência aos Otomanos, Birgu recebeu o título de Città Vittoriosa. Por outro lado, perdeu o protagonismo político que mantinha. Dedicou-se sobretudo ao comércio e a serviços náuticos.

A tranquilidade que viveu durante quase dois séculos foi quebrada, uma vez mais, pelas piores razões bélicas.

Da Expulsão de Napoleão à Reconstrução do Pós-Guerra

Chegamos a 1798. Napoleão colocou a invencibilidade de Valeta à prova. E ganhou. Só dois anos depois, com o auxílio precioso da Grã-Bretanha, de Nápoles e até de forças portuguesas, os franceses retiraram.

Malta tornou-se um protectorado Britânico. Birgu, acolheu a Frota Mediterrânica da Royal Navy, uma espécie de preâmbulo para a função de grande marina que continua a desempenhar, todos estes anos após os Britânicos terem deixado a ilha (1979).

Não seria o único preâmbulo ou prenúncio digno de registo. Em 1806, o grande paiol que lá era guardado explodiu e o acidente tirou a vida a mais duas centenas de pessoas.

Durante a 2ª Guerra Mundial, devido à proximidade face aos Estaleiros Navais, Vittoriosa foi bombardeada vezes sem conta. Vários dos seus edifícios históricos mais emblemáticos ficaram arrasados.

Foi o caso da Torre do Relógio, uma torre de vigia erguida ainda no período medieval, com vistas desobstruídas sobre o Grand Harbour em que se esperavam as embarcações e frotas inimigas.

Foi também arrasado o Albergue d’Allemagne, um dos edifícios em que os Cavaleiros Hospitalários se alojavam.

O Forte Saint Angelo recém-devolvido aos Hospitalários

Por fim, ficamos de frente para o Fort Saint Angelo. Tínhamos a intenção de o visitar. Mas vemo-nos barrados pelo destino que a história de Malta lhe reservou. Recentemente, o Governo de Malta chegou a um acordo com a Ordem dos Cavaleiros de São João, regressados à ilha.

Uma parte do forte foi cedida, por 99 anos, para uso exclusivo dos Hospitalários. Integra, assim, uma espécie de estado independente sobre o qual Malta não possui jurisdição.

Outras secções do forte pertencem à Heritage Malta, uma organização encarregada do património histórico da ilha. Estará prevista uma recuperação com fins turísticos.

Sem solução, nem vista, deixamos para uma próxima vez.

Acabamos por o admirar mais tarde, a partir do Miradouro dos Upper Barraka Gardens, de onde a sofrida mas triunfante Vittoriosa se volta a insinuar.

Senglea, Malta

A Cidade Maltesa com Mais Malta

No virar do século XX, Senglea acolhia 8.000 habitantes em 0.2 km2, um recorde europeu, hoje, tem “apenas” 3.000 cristãos bairristas. É a mais diminuta, sobrelotada e genuína das urbes maltesas.
Gozo, Malta

Dias Mediterrânicos de Puro Gozo

A ilha de Gozo tem um terço do tamanho de Malta mas apenas trinta dos trezentos mil habitantes da pequena nação. Em duo com o recreio balnear de Comino, abriga uma versão mais terra-a-terra e serena da sempre peculiar vida maltesa.
Valletta, Malta

As Capitais Não se Medem aos Palmos

Por altura da sua fundação, a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários apodou-a de "a mais humilde". Com o passar dos séculos, o título deixou de lhe servir. Em 2018, Valletta foi a Capital Europeia da Cultura mais exígua de sempre e uma das mais recheadas de história e deslumbrantes de que há memória.
Mdina, Malta

A Cidade Silenciosa e Notável de Malta

Mdina foi capital de Malta até 1530. Mesmo depois de os Cavaleiros Hospitalários a terem despromovido, foi atacada e fortificou-se a condizer. Hoje, é a costeira e sobranceira Valletta que conduz os destinos da ilha. A Mdina coube a tranquilidade da sua monumentalidade.
Rabat, Malta

Um ex-Subúrbio no Âmago de Malta

Se Mdina se fez a capital nobiliárquica da ilha, os Cavaleiros Hospitalários decidiram sacrificar a fortificação da actual Rabat. A cidade fora das muralhas expandiu-se. Subsiste como um contraponto popular e rural do agora museu-vivo de Mdina.
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Foi alvo frequente das Cruzadas e tomada e retomada vezes sem conta. Hoje, israelita, Acre é partilhada por árabes e judeus. Vive tempos bem mais pacíficos e estáveis que aqueles por que passou.
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