Yangon, Myanmar

A Grande Capital Birmanesa (Delírios da Junta Militar à Parte)


Coração Budista do Myanmar

O grande pagode de Shwedagon resplandece reflectido na água do lago Kandawgyi.

A salvo

Jovem monge posa junto a uma pintura religiosa presente no pagode de Shwedagon.

Herança Colonial

Parcialmente isolada do mundo devido à rigidez do regime militar, Yangon é uma das cidades do Sudeste asiático com mais edifícios coloniais.

Corte budista

Monge do mosteiro Chauk Htat Gyi tem o seu cabelo rapado com uma lâmina por um um outro.

Buda descansado

Buda reclinado de Chauk Htat Gyi Pagoda, com 65 metros de comprimento e 16 metros de altura.

Um momento de fé

Crentes budistas rezam virados para o grande pagode de Shwedagon, o fulcro religioso de Yangon e do Myanmar.

A grande Shwedagon paya

Fiéis e visitantes em redor da base ampla do pagode Shwedagon.

Boa-disposição a bordo

Ajudante de um autocarro esboça um enorme sorriso perante a atenção que o seu veículo desperta nos fotógrafos forasteiros.

Vendedor do meio da rua

Pequeno comerciante expõe os seus vegetais num dos vários mercados ao ar livre de Yangon.

Mini-birmanês

Bebé aventura-se num dos vários pátios do pagode Shwedagon em que um monge lê um jornal.

Quiromante ambulante

Um quiromante lê a mão a uma cliente na baixa de Yangon.

Em 2005, o governo ditatorial do Myanmar inaugurou uma nova capital bizarra e quase deserta. A vida exótica e cosmopolita mantém-se intacta, em Yangon, a maior e mais fascinante cidade birmanesa.

Foi tão casual como recompensador. A primeira vez que entrámos no Myanmar coincidiu com o dia da libertação de  Aung San Suu Kyi, The Lady, como gostam de chamar os birmaneses à sua salvadora.

O povo deste país agrilhoado, já de si, gentil e caloroso, vivia então uma esperança renovada e concedia longos sorrisos que a urgência de vender os serviços de guias, o artesanato e os souvenirs não pareciam afectar.

Como a população do Myanmar, Suu Kyi fora mantida, na maior parte dos últimos vinte e um anos da sua vida, sob os espartilhos do regime militar. Nem a pressão internacional, nem o estatuto de Prémio Nobel entretanto adquirido abreviaram as penas a que havia sido condenada.

Ao fim da tarde de 13 de Novembro de 2010, passamos, de táxi, mesmo em frente à avenida que conduz à sua casa. A entrada estava bloqueada pelo exército mas depressa ficámos a saber como correra a libertação. O motorista do táxi não conseguia disfarçar a alegria e recorria a um inglês aceitável para a expressar: “a senhora parece mais nova que nunca. Não pode ter sido apenas impressão minha. Quando vi as imagens na TV, fiquei comovido com a beleza dela, com aquela dignidade sofredora a que sempre nos habituou…”

Oito anos antes, o governo militar tinha transtornado uma vez mais o povo que oprimia com outra das suas decisões tresloucadas. Cerca de 25 empresas de construção foram contratadas para erguer uma nova capital do zero. Entre os birmaneses, popularizou-se a crença de que, tal como acontecera com várias outras decisões dos ditadores militares, um astrólogo teria alertado Than Shwe – o antigo líder da Junta – de que estaria iminente um ataque estrangeiro. O aviso despoletou o processo de mudança para longe de Yangon e do mar.

Duas gigantescas caravanas militares asseguraram o transporte dos ministérios governamentais e batalhões do exército para a nova capital. A mudança precipitada provocou falta de escolas e várias outras infraestruturas essenciais. Por isto, enquanto os trabalhadores do governo já laboravam em Naypyidaw, as suas famílias permaneceram um tempo sem fim em Yangon.

A nova capital assumiu-se como a maior aberração urbanística do Sudeste asiático. Na exótica e decadente Yangon, daí para cá, pouco ou nada mudou.

Fugimos das garras de um terrível jet lag. Do cimo de um dos edifícios mais altos da cidade, admiramos o seu casario curioso em que predominam os prédios envelhecidos, acastanhados pelo tempo e pela ferrugem dos telhados de zinco, do estilo dos de Havana ou de Calcutá mas de que se destacam, aqui e ali, novos exemplares coloridos. 

Descemos ao nível térreo da rua Sule Paya. Em plena baixa, esforçamo-nos para trocar dólares ao melhor câmbio possível, nunca aquele que surge nas tabelas internacionais e oficiais. Em seguida, não resistimos à ansiedade e vamos de imediato até coração espiritual da cidade e um dos templos budistas mais impressionantes do Mundo.

O táxi deixa-nos numa das várias entradas do grande pagode Shwedagon. Estamos em terreno sagrado e, como todos os visitantes na quase totalidade crentes locais ou peregrinos birmaneses, temos que entrar descalços. No interior, o piso de mosaico branco irradia a luz forte própria da latitude tropical e o brilho dourado da enorme estupa em forma de sino ofusca qualquer outra visão. Não tardamos a adaptar-nos à nova luminosidade e a admirarmos a espiritualidade do lugar.

Em redor, dezenas de fiéis dirigem as suas preces ao símbolo majestoso, sós ou sincronizados em grandes grupos. Monges meditam ou convivem entre si e com crentes junto a mini-estupas ou conjuntos harmoniosos de estátuas  de buda. Mais para o fim do dia, fiéis femininas voluntariam-se como varredoras. Formam brigadas de limpeza populares, dão a volta à estupa alinhadas de vassouras de palha em riste e deixam o templo imaculado para os devotos do dia seguinte.

Deixamos o templo entregue à sua religiosidade e exploramos outras partes da cidade. Não tardamos a compreender que o que o torna ainda mais especial é a forma como se integra num cenário urbano denso e contrastante como o de Yangon. Quando o sol começa a pôr-se estamos a passear nas margens do lago Kandawgyi. Surpreende-nos, ali, a arquitectura birmanesa do restaurante flutuante Karaweik, inspirado e com a forma de uma ave mitológica com um nome similar e um pio melodioso.

O pagode de Shwedagon não tarda a recuperar toda a nossa atenção. A bola do sol aumenta de tamanho e precipita-se sobre o horizonte. Depois, desfaz-se num crepúsculo ainda mais exuberante. Aos poucos, o lusco-fusco concede ao lago um reflexo esplendoroso do templo supremo e do restaurante Karaweik, ambos dourados, ambos iluminados num fundo ligeiramente tropical sob um céu quente salpicado de pequenas nuvens magentas. E nem quando anoitece, a estupa descomunal deixa de resplandecer no quase-escuro de Yangon.

Na manhã seguinte, saímos de novo à descoberta da cidade que abençoa. Yangon surge numa região fértil do delta do rio homónimo, no centro do Myanmar. Quanto mais caminhamos pelas suas ruas húmidas, mais temos as  sensações de estar nas imediações da Índia – o que é verdade – e perante uma obra daquelas que ficou a meio. Edifícios decrépitos sucedem-se enquanto residências particulares ou sedes de ministérios. Por vezes, intercalam com torres de escritórios recentes e com templos hindus com gopurams (torres ornamentadas) mais excêntricos que tudo o resto nas imediações. Em conjunto com as dezenas de estupas douradas, formam uma fascinante desordem urbanística que abriga a vida intensa de mais de cinco milhões de pessoas, entre birmaneses, indianos, chineses e de outras nações do sul da Ásia.

Em redor do grande edifício do mercado coberto de Bogyoke Aung San onde tudo se vende e se compra ao abrigo do sol abrasivo, os negócios paralelos são tão ou mais espontâneos e abundantes que em Nova Deli ou Bombaim. Um jovem quiromante lê a mão de uma senhora, instalado na sua banca móvel, não mais que a caixa de uma carrinha sinalizada com grandes posters que explicam o significado de cada linha da palma. Nas imediações e um pouco por toda a parte, vendedores de noz de bétele mantêm o stock a par dos muitos consumidores que frequentam as suas bancas, paredes meias com outras de revistas, posters de modelos e estrelas de cinema birmanesas.

Outra de tantas ruas, esta com sombras perdidas entre mangueiras seculares e as portadas de janelas cada qual de sua cor, acolhe estendais recolhidos, uma floresta de cabos telefónicos e sobre o asfalto um deslumbrante mercado de rua. Expõem-se móveis e grilos fritos prontos a trincar, vegetais e frutas de todos os tipos e ovinhos estrelados numa grande forma repleta de orifícios para os receber.

Caminhamos neste mercado frenético por grande parte da baixa de Yangon, com passagem pelo pagode Botataung, pelos muitos mosteiros em redor, com tempo ainda para espreitarmos alguns edifícios governamentais coloniais majestosos.

Detemo-nos apenas no cais do rio Yangon lodoso em que uma parte da população apanha barcos para povoações na outra margem e outra descontrai a praticar desporto ou conviver junto ao cenário ribeirinho.

Novo dia em Rangoon – como preferiam chamar os colonos britânicos à cidade. Dedicamo-nos uma vez mais ao budismo, em paragens mais interiores da cidade. Passamos pelo terminal da velha estação de comboio. Nas imediações apanhamos um táxi que nos deixa à porta do Chauk Htat Gyi Pagoda. Mais que o interesse do pagode em si, habita aqui um Buda reclinado com 65 metros de comprimento e 16 metros de altura. “Eu vou convosco e mostro-vos tudo e levo-vos de volta ao centro. Tudo junto faço um preço irrecusável! A promoção do taxista Nyi Nyi Win deixa-nos desarmados pelo que aceitamos de bom grado. Acabamos por admirar o Buda superlativo. Por especial favor do recém-contratado guia, também visitamos o interior mosteiro adjacente em que ele próprio viveu quando era pequeno e confraternizamos com o líder espiritual da comunidade e com vários outros monges, incluindo um a quem é pacientemente rapado o cabelo no exterior com uma máquina de barbear das clássicas. Só Nyi Nyi fala inglês. “os monges deste mosteiro tiveram um papel muito importante numa das revoltas religiosas contra o regime” informa-nos com indisfarçável orgulho.

Em Abril de 2012, Aung Suu Kyi foi eleita para a câmara baixa do parlamento birmanês. Suu Kyi perfila-se como candidata às eleições presidenciais de Outubro/Novembro 2015 mas a sua candidatura requer mudanças constitucionais que têm que ser autorizadas pelo regime militar agora com sede na capital oficial mas surreal de Naypyidaw.

Lago Inlé, Myanmar

Uma Agradável Paragem Forçada

No segundo dos furos que temos durante um passeio em redor do lago Inlé, esperamos que nos tragam a bicicleta com o pneu remendado. Na loja de estrada que nos acolhe e ajuda, o dia-a-dia não pára.

Lago Taungthaman, Myanmar

O Crepúsculo da Ponte da Vida

Com 1.2 km, a ponte de madeira mais antiga e mais longa do mundo permite aos birmaneses de Amarapura viver o lago Taungthaman. Mas 160 anos após a sua construção, U Bein carece de cuidados especiais.

Bagan, Myanmar

A Planície das Compensações Celestiais

A religiosidade birmanesa sempre assentou num compromisso de redenção. Em Bagan, os crentes endinheirados e receosos continuam a erguer pagodes na esperança de conquistarem a benevolência dos deuses.

Uma Cidade Perdida e Achada
Arquitectura & Design

Machu Picchu, Peru

A Cidade Perdida em Mistério dos Incas

Ao deambularmos por Machu Picchu, encontramos sentido nas explicações mais aceites para a sua fundação e abandono. Mas, sempre que o complexo é encerrado, as ruínas ficam entregues aos seus enigmas.

Pleno Dog Mushing
Aventura

Glaciar de Godwin, Alasca

Dog mushing estival

Estão quase 30º e os glaciares degelam. No Alasca, os empresários têm pouco tempo para enriquecer. Até ao fim de Agosto, os cães e os trenós não podem parar.

Cerimónias e Festividades
Pentecostes, Vanuatu

Naghol: O Bungee Jumping sem Modernices

Em Pentecostes, no fim da adolescência, os jovens lançam-se de uma torre apenas com lianas atadas aos tornozelos. Cordas elásticas e arneses são pieguices impróprias de uma iniciação à idade adulta.
Telhados cinza
Cidades

Lijiang, China

Uma Cidade Cinzenta mas Pouco

Visto ao longe, o seu casario vasto é lúgubre mas as calçadas e canais seculares de Lijiang revelam-se mais folclóricos que nunca. Em tempos, esta cidade resplandeceu como a capital grandiosa do povo Naxi. Hoje, tomam-na de assalto enchentes de visitantes chineses que disputam o quase parque temático em que se tornou.

Comodidade até na Natureza
Comida

Tóquio, Japão

O Império das Máquinas de Bebidas

São mais de 5 milhões as caixas luminosas ultra-tecnológicas espalhadas pelo país e muitas mais latas e garrafas exuberantes de bebidas apelativas. Há muito que os japoneses deixaram de lhes resistir.

Casal Gótico
Cultura

Matarraña a Alcanar, Espanha

Uma Espanha Medieval

De viagem por terras de Aragão e Valência, damos com torres e ameias destacadas de casarios que preenchem as encostas. Km após km, estas visões vão-se provando tão anacrónicas como fascinantes.

Bola de volta
Desporto

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Recanto histórico
Em Viagem

Tasmânia, Austrália

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Deserto (Pouco) Branco
Étnico
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