Espiritu Santo, Vanuatu

Os Blue Holes Misteriosos de Espiritu Santo


Sulcos do Ambrym
Lava solidificada do vulcão Ambrym, um de vários vulcões activos e inactivos do arquipélago melanésio de Vanuatu.
Atracção de Blue Hole
Passeio de caiaque no blue hole de Malo, ao largo da ilha homónima.
Sobrelotação
Barco carregado de nativos no caminho do blue hole de Malo
Coco aos molhos
Nativo num armazem de secagem de coco, a norte de Luganville, a capital de Espiritu Santo.
Braçadas em Matevulu
Sara Wong braceja nas águas azuladas do blue-hole de Matevulu.
Árvore-trampolim
Guia Rockys prepara-se para mergulhar nas águas profundas do Blue Hole de Malo.
Num pasto roubado à selva
Manada de vacas num pasto a norte de Luganville, a capital da ilha de Espiritu Santo.
Navegação com terra à vista
Barco sobrelotado sulca o mar entre Espiritu Santo e Malo.
Canal de Malo
Harry navega braço de mar
Nativo rema com um braço improvisado numa canoa tradicional melanésia equilibrada por braço.
Pacífico do Sul e Azul
Litoral coralífero de uma ilha de Vanuatu, visto do ar.
Nativo-em-braço-de-mar-de-Espiritu-Santo-Vanuatu
Harry numa canoa tradicional melanésia equilibrada por braço.
A humanidade rejubilou, há pouco tempo, com a primeira fotografia de um buraco negro. Em jeito de resposta, decidimos celebrar o que de melhor temos cá na Terra. Este artigo é dedicado aos blue holes de uma das ilhas abençoadas de Vanuatu.

Harry, o motorista e guia encarregue de nos revelar Espiritu Santo e alguns dos melhores blue holes de Vanuatu apanha-nos à entrada do Deco Stop Lodge da capital, Luganville.

Instalamo-nos na sua velha carrinha e preparamo-nos para uma jornada longa e aos solavancos para o norte. Uns momentos de tagarelice depois, percebemos que não era propriamente um nativo da ilha mas que, ao tempo que lá vivia, estava mais que apto para a missão. “Sou de Pentecostes”, informa-nos e deixa-nos de imediato em êxtase.

“Vamos para lá dentro de uns poucos dias, sabe? Já saltou no Naghol?” (cerimónia de iniciação em que os jovens se lançam de torres feitas de troncos) perguntamos-lhe ansiosos. “Saltei uma vez, aos meus 19 anos e chegou. Aquilo não é para todos nem para todos os meses. Se bem que agora parece que alguns rapazes saltam mais vezes, coitados.”

Esperavam-nos três horas de caminho entre coqueirais e floresta cerrada, numa via paralela ao litoral leste que, de estrada, só teria o título. Harry percorria-a vezes sem conta. Já quase não sentia a turbulência legada pela época das chuvas mas estava consciente o quanto os solavancos afectavam a coluna dos passageiros.

Vacas em Espiritu Santo, Vanuatu

Manada de vacas num pasto a norte de Luganville, a capital da ilha de Espiritu Santo.

Uma vez que a pressa era relativa, num confim do mundo melanésio excêntrico e exótico como aquele, tudo e mais alguma coisa nos deslumbrava. Ao mínimo pretexto, interrompemos a viagem para curtas escalas temáticas e fotográficas.

Pelo Litoral de Santo Acima

Tomamos a Canal Road. Passamos pelo aeroporto Santo-Peko em que tínhamos aterrado chegados de Port Villa. Avançamos ao longo da Baía de Palikulo até darmos com Surunda. Por altura de Saraotou, o canal há muito que ficou para trás e a estrada já não merece sequer um nome. Ou um código que seja.

A vegetação sortida cede lugar a grandes plantações de coqueiros plantados com geometria. Uns quilómetros depois, um cheiro a óleo de coco cozinhado empesta a atmosfera. A precisarmos de desentorpecer as pernas, apuramos com Harry o engenho que gerava o fumo e o odor.

Trabalhador mostra noz de coco, em Espiritu Santo, Vanuatu

Nativo num armazem de secagem de coco, a norte de Luganville, a capital de Espiritu Santo.

Harry lida o caminho até um armazém básico, semi-aberto, desprovido de iluminação artificial. Subimos uma escada mal-amanhada de madeira. No nível superior, vemos uma vastidão de noz de coco, já separada da casca e em secagem. Harry encontra o trabalhador da fabriqueta e este dá-nos as boas-vindas.

Explica-nos que lá processam tanto a copra – a fibra resistente produzida a partir das cascas – como polpa, neste caso, para os mais distintos fins alimentares.

A conversa flui mas Harry impede que se estenda em demasia. Satisfeito pela inesperada companhia, o trabalhador lava uns nacos de coco e oferece-os para a viagem. Àquela hora, entre o pequeno-almoço e um distante almoço, o presente tem óptima aceitação. Some-se em três tempos.

Despedimo-nos. Deixamo-lo entregue à sua labuta. Regressamos à via litorânea de Espiritu Santo. Aqui e ali, o oceano Pacífico forma braços de mar arenosos que enchem e vazam com as marés. Harry tinha em mente descontrairmos numa lagoa ainda melhor.

Guia Henry rema numa canoa, junto ao Blue Hole de Matevulu

Sara Wong braceja nas águas azuladas do blue-hole de Matevulu.

O Revivalismo Possível da Guerra do Pacífico

Antes disso, leva-nos a ver uma das muitas heranças deixadas pelos americanos quando a 2ª Guerra Mundial se travou contra os Japoneses por todo o Pacífico e também nestas paragens. “Reparem que apesar das décadas passadas e da invasão da vegetação, esta pista está em muito melhores condições que a estrada em que seguimos, quem nos dera que os americanos tivessem construído mais coisas” desabafa Harry.

A pista estava limitada a uma vastidão que, mesmo sendo de uma mistura de betão e asfalto, alguma vegetação tropical arbustiva já invadira. Tinha um interesse sobretudo histórico que Harry pouco ou nada nos conseguia explicar.

Na prática, Vanuatu e Espiritu Santo, em particular, provaram-se determinantes no sucesso dos Estados Unidos em barrar o avanço dos japoneses. Como parte do esforço logístico dos americanos, foram construídos na ilha quarenta cinemas, quatro hospitais militares, cinco aeródromos, uma base de torpedeiros, oficinas e aquartelamentos. Uma parte reduzida destas infra-estruturas continua a beneficiar a ilha.

O exército nipónico manteve-se inexorável até 1942, quando conquistou os territórios da Papua Nova Guiné e das ilhas Salomão. Foi finalmente travado nas Batalhas do Mar de Coral e de Midway e obrigado a recuar.

Por três anos, até Setembro de 1945, em certas ocasiões, cerca de cem navios e mais de meio milhão de militares esperaram, em Espiritu Santo, pela sua vez de participar.

Um deles foi James A. Michener, um escritor que aproveitou a inércia para escrever “Tales of the South Pacific”, uma sequência de histórias e peripécias parte delas vividas em Espiritu Santo. Esta obra que conquistou um Prémio Pulitzer inspirou o famoso musical “South Pacific”.

Terminado o conflito, vários navios naufragados incluindo o USS President Coolidge – um enorme paquete de luxo convertido que embateu numa mina “amiga” –  e as toneladas de material de guerra afundados no chamado Million Dollar Point, ainda contribuem para a crescente indústria do mergulho de Espiritu Santo.

Na Demanda dos Buracos Azuis

Na mesma estrada que conhecia de cor e salteado, Harry desvia e conduz-nos ao Blue Hole de Matevulu. Caminhamos por uma mancha de floresta tropical mais densa. Ao fim de algum tempo, uma abertura na profusão arbórea desvenda-nos uma lagoa com água cristalina, de um azul-turquesa escuro salpicado por folhas amareladas.

Além de árvores frondosas, envolve-a mais um dos paredões verde-claros de glória-da-manhã tão característicos de Vanuatu. Examinamos o buraco azul por algum tempo. Com a tarde no fim, o sol a pique, a torrar-nos a pele, não resistimos por muito tempo.

Despimos a pouca roupa que trazemos. Metemos o pé, só como descargo de consciência. Entramos cada um ao seu ritmo e descomprimimos os corpos e as mentes naquele enigmático SPA do Pacífico do Sul. Boiamos, nadamos. Voltamos a boiar. Inspeccionamos as margens pejadas de raízes e, em vão, o leito distante que não chegamos a avistar.

Banho refrescante no Blue-hole de Matevulu.

Sara Wong braceja nas águas azuladas do blue-hole de Matevulu.

A determinada altura, a Sara é picada num dedo por um insecto qualquer de aspecto vesposo. A dor não alastra muito mas intensifica-se. Torna-se suficiente para nos interromper o deleite. De qualquer maneira, aquele não seria o último Blue Hole de Espiritu Santo em que mergulharíamos.

Nascentes de Água Enigmáticas e Irresistíveis

Os Blue Holes de Santo formam-se quando lençóis de água subterrâneos originários das cordilheiras ocidentais da ilha emergem como nascentes poderosas.

Estas nascentes moldam o seu caminho para a superfície na rocha calcária suave. Por norma, talham as lagoas circulares ou quase circulares há muito abundantes. Em simultâneo, no seu percurso subterrâneo, a água é filtrada pelo calcário. Torna-se pura e cristalina. A profundidade e a incidência da luz, azula-a.

Quarenta quilómetros para norte de Matevulu, mas ainda na província de Sanma, existe ainda o Blue Hole de Nanda, preparado pelos donos tribais ni-vanuatu para acolher visitantes, com passadiços, um bar e cordas baloiço. O de Riri fica só uns poucos quilómetros para sul.

Desde que a maré esteja cheia, também é acessível de canoa tradicional, por um braço de mar inundado de mangues e em que pendem lianas humedecidas. Da beira-mar de Espiritu Santo em que começam tais aventuras, vislumbramos a silhueta de Ambae que inspirou a ilha fictícia e inalcançável de Bali Ha’i, também ela criação literária de James A. Michener.

Novo dia, Novos Cenários: Bokissa e Malo

Até ao fim dessa tarde, seguimos até à Champagne Beach e regressámos a Luganville. Na manhã seguinte, mudamo-nos para Bokissa, uma pequena ilha a sul de Espiritu Santo. Instalamo-nos num resort monopolista, gerido com mão-de-ferro por uma proprietária australiana austera.

O hotel em si pouco tem que nos interesse. Em vez de por lá nos arrastarmos, saímos bem cedo num percurso de caiaque, à descoberta dos canais e manguezais em volta.

Canal da ilha de Malo, Vanuatu

Canal de vegetação tropical e muito manguezal que conduz ao Blue Hole de Malo.

A leste, temos a ilha de Tutuba. A oeste, a de Aore. Rockys, o guia ni vanuatu desta empreitada, informa-nos com um grande sorriso alvo, quanto alvo podia ser, que íamos zarpar em direcção a sudoeste e que a distância era muita, pelo que começaríamos de barco.

Do Mar Aberto ao Mangue Cerrado

Dito e feito. Embarcamos numa lancha veloz, na companhia de Katie e Jamie, um casal aussie bem disposto, em lua de mel. Navegamos a grande velocidade sobre um mar ciano e liso que parece apertado pelo quase lilás do céu carregado de humidade.

Barco sobrelotado ao largo de Espiritu Santo, Vanuatu

Barco sobrelotado sulca o mar entre Espiritu Santo e Malo.

Durante um bom tempo, não vemos vivalma. Sem que o já esperássemos, passamos por uma embarcação amarela que mais nos parecia uma gaivota recreativa, daquelas a pedais.

O barco segue à pinha. Devagar e instável a condizer. Habituados a viagens naqueles preparos, os passageiros saúdam-nos com a alegria e boa-vontade que nenhum ni-vanuatu precisa de simular.

Do mar aberto, chegamos a um ponto em que Aore e Malo quase se tocam e formam um canal. Rockys aproxima-nos do litoral arenoso de Malo, de uma zona em que a ilha surge como que rasgada e tem ao largo uma pequena sub-ilha. A lancha fica ancorada por ali. Retiramos os caiaques.

Continuamos a jornada pelo rio Malo acima, desta feita, à pagaiada. Avançamos por um manguezal apertado envolto de selva densa, de tal forma intrincada que o matagal nos chega a barrar o progresso.

A espaços, o canal reabre. Numa destas secções desafogadas, a “gaivota amarela” que tínhamos cruzado, passa por nós e volta a saudar-nos como se fosse a primeira vez.

Barco sobrelotado entre Espiritu Santo e Malo, Vanuatu

Barco carregado de nativos no caminho do blue hole de Malo

O Blue Hole Furtivo de Malo

Rockys lidera a excursão com entusiasmo. Percebemos que é do seu agrado aquela evasão. Do céu aberto, regressamos a novo aperto vegetal claustrofóbico. “Preparem-se para o que aí vem!” avisa-nos o guia.”

Vencido um derradeiro conjunto, entramos numa  grande lagoa de águas similares às de Matevulu mas cercada de uma enorme muralha viçosa de glória-da-manhã. Damos uma volta lenta a repousarmos do esforço e reconhecermos o lugar.

Caiaquers no blue-hole de Malo, ao largo de Espiritu Santo.

Passeio de caiaque no blue hole de Malo, ao largo da ilha homónima.

Logo, Rockys convida-nos a segui-lo. Leva-nos até uma enorme árvore com troncos e ramos desdobrados na horizontal. O guia tira a t-shirt e exibe o seu portentoso físico melanésio.

Chega a um extremo estratégico de um tronco e mergulha para o azul da lagoa. Nós os quatro, nem sequer hesitamos. Rendemo-nos à gravidade e enfiamo-nos na água.

Nativo sobre uma árvore do Blue Hole de Malo.

Guia Rockys prepara-se para mergulhar nas águas profundas do Blue Hole de Malo.

Também o tempo jogava a nosso favor. Nadamos, chapinhamos, boiamos e conversamos naquele outro blue hole até as peles nos encarquilharem.

Malekula, Vanuatu

Canibalismo de Carne e Osso

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Espiritu Santo, Vanuatu

Divina Melanésia

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Pentecostes, Vanuatu

Naghol de Pentecostes: Bungee Jumping para Homens a Sério

Em 1995, o povo de Pentecostes ameaçou processar as empresas de desportos radicais por lhes terem roubado o ritual Naghol. Em termos de audácia, a imitação elástica fica muito aquém do original.
Tanna, Vanuatu

Daqui se Fez Vanuatu ao Ocidente

O programa de TV “Meet the Natives” levou representantes tribais de Tanna a conhecer a Grã-Bretanha e os E.U.A. De visita à sua ilha, percebemos porque nada os entusiasmou mais que o regresso a casa.
Pentecostes, Vanuatu

Naghol: O Bungee Jumping sem Modernices

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Efate, Vanuatu

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Wala, Vanuatu

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Delta do Okavango, Nem todos os rios Chegam ao Mar, Mokoros
Safari
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Vida Quotidiana
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O Pequeno-Grande Parque Nacional da Costa Rica

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Queenstown, a Rainha dos Desportos Radicais

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