Monte Roraima, Venezuela

Uma Ilha no Tempo


Recompensa Kukenam

Participantes de uma expedição recuperam do cansaço no rio Kukenam.

No Caminho Certo

Sombra de caminhantes no trilho que conduz à base do Monte Roraima.

Gran Sabana

Vastidão primitiva da Gran Sabana, cenário de filmes como "Jurassic Park".

Trilho árduo

Marco Alexis sobe uma ladeira no caminho para o Monte Roraima.

El Fosso

Homem examina e fotografa El Fosso, uma cratera criada pela erosão na superfície do Monte Roraima.

Cascata El Pozo

Riacho gerado pelas chuvas frequentes flui para o interior da cratera El Pozo.

Sobre a Tripla Fronteira

Guia guianês Marco examina a vastidão rochosa do Monte Roraima do cimo do marco que assinala a tripla fronteira da Venezuela, Brasil e Guiana.

Pântano ervado

Uma das raras superfícies cobertas de vegetação do Monte Roraima.

Apreensão Meteorológica

Guia Marco examina o manto de nuvens a instalar-se entre os tepuys Roraima e Kukenam.

Vista abrupta

Carregadores olham para o penhasco vertical que os separa do cimo do Monte Roraima.

Apreensão Meteorológica II

Guia Marco examina o manto de nuvens a instalar-se entre os tepuys Roraima e Kukenam.

Perduram no cimo do Mte. Roraima cenários extraterrestres que resistiram a milhões de anos de erosão. Conan Doyle criou, em "O Mundo Perdido", uma ficção inspirada no lugar mas nunca o chegou a pisar.

A caminhada ainda não tinha começado quando surgiram as primeiras queixas.

Deixámos Santa Elena de Uairén – a cidade mais próxima da fronteira entre a Venezuela e o Brasil – num 4×4 que o condutor fez questão de levar aos limites e, se na estrada asfaltada e larga saíamos das curvas praticamente a derrapar, depois do

desvio para o trilho de terra que levava a Paraitepui, o desafio passou a ser proteger o corpo dos saltos que o jipe dava sobre os buracos e desníveis. 

Günther, o alemão do grupo, já tinha acordado algo indisposto, graças – segundo suspeitava – a alguma empanada demasiado frita do dia anterior e simplesmente não aguentou. Algo contrariado, o condutor lá parou e pudemos todos recuperar daquele cataclismo motorizado. Dez minutos depois, estava de novo em condições de prosseguir e já só faltavam 15 quilómetros para chegarmos ao ponto de partida do itinerário.

A pequena escola de Paraitepui surgiu inesperadamente numa encosta. Daí para a frente, sucederam-se dezenas de cabanas típicas da região. Os habitantes não mostraram qualquer reacção à invasão do grupo de forasteiros. Apesar dos dólares, euros e bolívares aqui deixados pelos visitantes, a aldeia faz o possível para proteger o que resta da sua identidade cultural. Fotografar os seus membros, interior de habitações ou outros domínios privados é algo que só uma compensação financeira à altura da desfeita pode conseguir.

Assim sendo, seguimos directamente até uma espécie de quartel-general improvisado para acolher os grupos e tratar dos últimos preparativos. Faltava quantificar o que havia para transportar e decidir quantos carregadores seriam necessários, algo de que se encarregou, Marco Alexis, o guia nativo.

Marco estava habituado a acumular funções e a encarregar-se dos mantimentos e utensílios essenciais. Assim sendo, decidimos em conjunto contar apenas com um homem adicional. Ouvimos algumas suas derradeiras indicações e colocámos finalmente as mochilas às costas. Desde a chegada a Paraitepui que víamos, à distância, o objectivo da expedição. Chegara a hora de o perseguir.

Não fossem os jéjenes que infestam esta zona do norte da Venezuela, demoníacos mosquitos imunes aos repelentes convencionais e os quilómetros iniciais do percurso, sempre a descer, teriam sido um passeio. Mas, depois de atravessarmos um primeiro curso de água, aos mosquitos juntaram-se duas ou três subidas que exigiram esforço máximo. Até ao cume, nenhuma etapa nos pareceu tão desgastante como a primeira. 

Sentiamos um cansaço a que Marco Alexis e o tio Manuel, habituados a repetir a jornada de ida e volta, já eram imunes mas que o primeiro sabia ser extremo para a maior parte dos viajantes que se metem nestas aventuras. De acordo, o guia  determinou a primeira paragem para descanso e, depois de servir guloseimas achocolatadas que reporiam, de imediato, as energias, passou a transmitir algumas informações suplementares. 

Os tepuis e os indígenas que nunca foram Pemón

Tudo isto se passava no estado venezuelano de Bolívar, mais precisamente numa região remota que entra pelos territórios brasileiro e guianês, denominada Gran Sabana. Das centenas de tepuis (mesetas rochosas) existentes na Gran Sabana, o mais elevado (2723m) era exactamente aquele que buscávamos, o Monte Roraima. Um “irmão”, de nome Kukenan, afirma-se, logo ao lado, apenas 123 metros mais baixo. 

Entre eles, há uma espécie de desfiladeiro orientado de norte para sul. Dele espreitam – e, de tempos a tempos, invadem a paisagem – as nuvens oriundas do Atlântico. Os penhascos verticais que separam os seus topos do solo ultrapassam frequentemente os 500 metros de altura e estabelecem uma fronteira que foi, durante muitos milénios, inexpugnável.

Em termos de extensão, nem o Roraima nem o Kukenan se podem comparar aos maiores tepuis (a palavra é indígena) existentes à face da Terra. Um destes, o Auyantepui (conhecido por ser do seu topo que mergulha a queda de água mais alta do Mundo, o Salto Angel, com 989 metros) abrange uma área de 700 km 2, quase vinte vezes os 34 ocupados pelo Monte Roraima.

Cerca de doze quilómetros depois de Paraitepui, chegamos ao primeiro acampamento intermédio, junto ao rio Tok. Após preparar um jantar que foi devorado em pouco tempo, Marco Alexis e um outro tio, também ele de apelido Alexis – uma espécie de guru do Monte Roraima – juntaram-se ao grupo, reforçaram a boa disposição geral e ofereceram uns goles de rum que nos ajudaram a anestesiar o cansaço acumulado.

Alexis descartou alguma timidez inicial, fez impor a sua sabedoria e desbobinou uma série de contos e informações fascinantes. Destas, chamou-nos a atenção o descontentamento dos indígenas perante o termo “Pemón”, universalmente aceite pelos estrangeiros para os denominar. 

Segundo as suas palavras, “Pemón” significa, num dialecto local, simplesmente “os humanos” e foi a expressão utilizada pelos índios ao primeiro encontro com europeus, para responder a uma pergunta do género “Quem são vocês?”. 

Alexis insistiu em realçar que não existe nem nunca existiu um grupo de índios Pemón, mas, mesmo contra a sua vontade, basta uma breve pesquisa na Internet para confirmar como a palavra passou a ser usada de forma viral em qualquer texto sobre esta região.

A Caminho da Segunda Base

Apesar de alguma chuva e da trovoada ribombante, nessa primeira noite, conseguimos dormir e recuperar do desgaste muscular. Às seis e pouco da manhã estávamos prontos para percorrer mais dez quilómetros até à segunda base, situada no sopé do tepui.

Ainda era cedo quando chegámos à margem do rio Kukenan mas, naquela latitude quase equatorial, o sol já nos queimava a pele sem cerimónia. Consciente da dificuldade crescente da caminhada, Marco deu-nos autorização para um mergulho. “Mesmo com tanta fotografia, são um grupo rápido!”, elogiou-nos. “Merecem a recompensa!"

Em pleno rio Kukenam, constatámos que a vista longínqua dos “manos” tepuis se tinha transformado numa imagem bem dotada de formas e cores. Daí para a diante, o caminho passou a ser feito sempre a subir e debaixo de um sol cada vez mais cruel. Por essa altura, já ninguém se lamentava e conversa puxa conversa, atingímos o acampamento base. 

As tardes e noites ali passadas tiveram como tema incontornável de debate a localização da rampa para o topo. Apesar da proximidade relativa continuava a ser dificil de acreditar que, no dia seguinte, chegaríamos ao cimo dos penhascos.

Tudo o que sobressaia da rocha vertical era uma estreita saliência coberta de arbustos em que o equilíbrio parecia impossível. Os mais ansiosos começaram então a imaginar momentos de pura vertigem, de suspensão entre a parede e o abismo e a centenas de metros de altura. Com a melhor das oportunidades, os guias não tardaram a presentear o grupo com novo jantar altamente calórico e mais alguns tragos do bom rum caribenho.

O último assalto fez-se por entre a vegetação selvagem que cobria a encosta, mesmo até ao paredão de rocha, por um trilho em que se alternavam troços quase verticais que exigiam locomoção “quadrúpede” com outros, mais suaves, que se venciam com facilidade de pé. De quando em quando, surgiam mais pequenos riachos e quedas d’água que sugeriam descanso e reabastecimento. Em duas ou três ocasiões, também passamos por zonas livres de mato que nos permitiram contemplar a vastidão da Gran Sabana. Após um trecho final traiçoeiro que nos obrigou a caminhar apoiados no penhasco e com cuidado redobrado para evitar o resvalamento de pedras, conquistámos finalmente o topo. Tiradas as fotos da praxe, impôs-se que achássemos o lugar em que iríamos passar a noite. Foi com esse objectivo em mente,  que Marco inaugurou a sua bem mais exigente liderança na superfície da meseta.  

Mesmo previamente avisados, foi com alguma surpresa que nos deparámos com a crueza do “Hotel”, uma simples reentrância numa falésia com espaço suficiente para as tendas e que assegurava alguma protecção contra a chuva e o vento. Ali nos instalámos sem grandes caprichos e dormimos.

Marco desperta-nos ao nascer do sol. Já tinha preparado um novo pequeno-almoço bem venezuelano de arepas, ovos revueltos e café. A refeição durou pouco. A vontade de explorar sobrepunha-se a tudo. Como tal, quinze minutos depois, entregámo-nos ao cenário surreal.

O percurso revelou-se, uma vez mais, complexo. As fracturas na rocha sucediam-se, profundas, e alternavam com grandes cristas intransponíveis, longas superfícies com padrões de fragmentação, cursos de água, vales alagados e outras formações problemáticas.

Paramos pela primeira vez no El Foso, um enorme buraco circular para onde corre um riacho que se transforma em lagoa antes de juntar a lençóis subterrâneos.

Em seguida, alcançámos o Vale dos Cristais, como o nome indica, uma área coberta de cristal bruto em que se destacam algumas esculturas naturais impressionantes. Continuámos para norte. Contornámos, então, os vastos "Labirintos", onde a negrura impressionante do Roraima se torna mais densa e parece não ter fim, um efeito gerado pela sucessão de milhares de blocos irregulares de rocha, intercalados com fendas suficientemente amplas para permitir a passagem. 

Como Marco nos confessou, aquele era um reduto misterioso e algo perigoso em que nem os próprios guias se sentiam à vontade. A explicação, substanciada pelos exemplos das várias pessoas desaparecidas para sempre nos topos do Roraima e do tepui “irmão” Kukenam, frustrou qualquer exigência ou iniciativa rebelde e conduziu-nos em direcção ao principal objectivo da expedição.

A Disputada Tripla Fronteira 

O lugar em que o Monte Roraima atinge a sua altitude máxima (2.800 m) assinala também a convergência das linhas que separam os territórios da Venezuela, Brasil e Guiana. Esta fronteira é denominada pelos venezuelanos de BV 0 (Brazil-Venezuela: zero). Está identificada, no terreno, por um marco geodésico que deveria ter assinalados, em cada uma das suas faces, o país correspondente. Mas a Venezuela reclama, há muito, uma parte significativa do território da Guiana. Por esse motivo, a placa que sinaliza o lado guianense é arrancada vezes sem conta pelos visitantes e guias venezuelanos do Monte Roraima.

A Tripla Fronteira coincidia com o ponto mais setentrional do tepui a que estava previsto chegarmos e Marco não cedeu à pretensão que partilhávamos de continuar em direcção à Proa de onde poderíamos observar a vastidão da savana brasileira e da selva guianense. O guia aproveitou, inclusive, para dramatizar a sua resposta negativa: “amigos, prefiro dispensar o vosso pânico quando nos virmos perdidos, às escuras, enregelados, sem tendas nem sacos-cama, nesta vastidão agreste”. Ele, melhor que ninguém, conhecia a realidade. Ao nosso ritmo fotográfico displicente, já seria difícil voltar ao “Hotel” antes do anoitecer, quanto mais metermo-nos em novos desafios.

Muito devido ao desaparecimento de nativos e descobridores forasteiros, o Roraima cedo se envolveu num profundo misticismo, alimentado e divulgado pelas tribos da região cujos relatos enigmáticos viriam a despertar a curiosidade de mais exploradores.

Mesmo confirmada a sua inexistência, os dinossauros e outras criaturas pré-históricas, assim como personagens míticas são, aliás, um tema recorrente das velhas lendas e estórias improvisadas pelos nativos de etnia Arekuna, Taurepan e Camaracoto. Desde o meio do século XVIII que essas narrativas fascinavam aventureiros do velho mundo.

É mais que provável que a ascensão pioneira ao topo do Monte Roraima tenha sido feita pelos indígenas, antes da chegada das expedições europeias. Os primeiros registos escritos das tentativas de conquista do topo datam do início do século XIX e comprovam diversas desistências.

Foi apenas em 1838 que o cientista inglês Sir Robert Schomburgk achou forma de subir. Desde então, a lista de visitantes nunca mais cessou de aumentar mas, por ironia, apesar de ter escrito e publicado um livro sobre o Monte Roraima: “O Mundo Perdido”, Sir Arthur Conan Doyle nunca foi um deles.

Limitou-se a assimilar os relatos dos indígenas e dos primeiros exploradores para elaborar uma ficção romantizada protagonizada por um cientista aventureiro e meio louco, o Professor Challenger, que chega a confrontar-se com dinossauros.

O tema d’ “O Mundo Perdido” foi várias vezes adaptado ao cinema e televisão mas a mais famosa das versões cinematográficas é a saga Parque Jurássico, filmada, em parte, nas planícies repletas de palmeiras da Gran Sabana.

A Origem Geológica

Como todos os tepuis da região, o Monte Roraima fazia parte da formação Roraima, um gigantesco maciço rochoso com mais de 3.6 biliões de anos gerado pela compressão de várias camadas de areia e sílica provocada por grandes oscilações térmicas. Esta formação começou a fragmentar-se no fim do Período Jurássico (há cerca de 150 milhões de anos) quando a América do Sul se separou do continente africano. Então, forças provindas do interior da Terra, causaram fortes movimentações tectónicas que criaram as primeiras fissuras e fracturas na sua superfície. Ao longo de milhões de anos, novas derivações das placas e uma forte erosão,  fizeram com que a maior parte da rocha original fosse arrastada para o mar. Hoje, do gigantesco bloco inicial, resistem apenas algumas pequenas “ilhas”, os actuais tepuis da Venezuela, Guiana e Brasil.

 

 

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