English Harbour, Antigua

Docas de Nelson: a Antiga Base Naval e Morada do Almirante


Rampa para o Céu
Ao Vento das Antilhas
A Vista de Shirley Heights
Canal Adentro
Sala de Estar
As Docas de Nelson
Árvore do Viajante
Legado Telefónico Britânico
Canhãozito
Antiga Casa dos Oficiais
Mina, da Padaria
Admiral Inn
Os Pilares
Mini-Navegação
No Abrigo da Enseada
No século XVII, já os ingleses disputavam o controle das Caraíbas e do comércio do açúcar com os seus rivais coloniais, apoderaram-se da ilha de Antígua. Lá se depararam com uma enseada recortada a que chamaram English Harbour. Tornaram-na um porto estratégico que também abrigou o idolatrado oficial da marinha.

Uma derradeira ladeira conduz-nos ao limiar meridional da ilha de Antígua.

A sudoeste, encontra-se a malograda ilha de Montserrat que o vulcão Soufriére transformou no único território à face da terra com uma capital oficial arruinada e abandonada.

A sul, fica Guadalupe, ao contrário de Montserrat e de Antígua, durante a era colonial destas partes e hoje, francesa.

Guadalupe e a rivalidade francesa tiveram forte relevo na função do English Harbour e das Docas de Nelson que subíamos ansiosos por descobrir.

Ao conquistarmos o cimo panorâmico de Shirley Heights, virados para o norte, é sobretudo a orografia intrincada, o relevo dos fundos de Antígua e a intimidade que mantém com o oceano Atlântico tropical, que nos deslumbra a 360º.

A Vista Icónica do Alto das Shirley Heights

Exposta aos ventos Alísios, à humidade soprada de leste e à do Mar das Caraíbas oposto, Antígua passa o ano sem algo que se possa equiparar a uma época seca.

Dali, para baixo e por diante, também se estende o resultado vegetal da sua abundante pluviosidade.

Por sorte e pouco mais que isso, nesse início de manhã do meio de Novembro, passa sobre Antígua o que sobrava de uma depressão, de um mau tempo que havia irrigado outras paragens. Retalhos alvos e brilhantes de nuvens fluem sobre a paisagem. Impõem-lhe um sombreado rolante.

Daquele alto, contemplamos a enseada em forma de meia-lua, encerrada por um promontório menos elevado que o que tínhamos conquistado. Desse plano sobranceiro, percebíamos que atrás se escondia uma outra, apuramos, no mapa, que a de Falmouth Harbour.

Doze ou treze veleiros ancorados salpicavam o mar translúcido mais próximo, o de English Harbour.

Onde este estreitava para uma sua extensão oriental, em vez de apenas veleiros, víamos também grandes iates, maiores que a linha de edifícios seculares que justificavam a sua presença.

As alturas de Shirley Heights honram Sir Thomas Shirley, um dos governadores das Ilhas do Sotavento. Hoje, são conhecidas por revelarem a vista e o ocaso mais emblemáticos de Antígua.

O seu cenário tornou-se de tal maneira notório na esfera colonial britânica que, durante décadas, teve direito ao seu próprio selo nas colecções monárquicas de “fine mints”.

Num contexto contemporâneo substancialmente mais lúdico que o da filatelia, entre as 4 e as 10 pm de Domingo, as Shirley Heights acolhem uma das Come Parties memoráveis do Caribe.

Antígua e a Era Colonial, na Posse dos Britânicos

Em plena era colonial, claro está, a beleza do cenário e as festas pouco preocuparam os comandantes militares e governadores que por ali passaram.

No início do século XVII, os britânicos disputavam, palmo a palmo com os franceses e os Holandeses, cada Antilha e a supremacia no vasto domínio caribenho.

Em 1632, os britânicos apoderaram-se do arquipélago de Antígua e Barbuda. Antígua, em particular, revelou-se uma preciosidade estratégica.

O sul de Antígua por onde andávamos permitia-lhes acompanhar os movimentos dos gauleses a sul, a partir da ilha de Guadalupe. O que então estava em causa era bem mais que a mera posse das ilhas.

Por essa altura, os holandeses, os ingleses e os franceses procuravam expandir, nos seus territórios tropicais, o cultivo da cana-de-açúcar que, ainda no século XV, os portugueses desenvolveram na ilha da Madeira e nas de São Tomé e Príncipe.

De clima quente e húmido, as também denominadas Índias Ocidentais depressa se provaram perfeitas para a produção do apreciado, ainda raro e valioso açúcar.

Ora, conscientes da riqueza “açucarada” que cada ilha repleta de cana-de-açúcar poderia garantir às respectivas Coroas, cada potência fez tudo o que podia para se apoderar e preservar o maior número de ilhas. Por as dotar dos escravos que assegurariam a mão-de-obra e, no fim de contas, o lucro.

À partida, Antígua seria apenas mais uma ilha com esse potencial. A localização privilegiada no mapa das Índias Ocidentais e a sua crescente prosperidade decretou-a um alvo constante que os Britânicos tudo fizeram para defender.

Mas não só.

English Harbour e Antígua: uma Mesma Localização Estratégica nas Pequenas Antilhas

Tendo em conta que então, como agora, de Maio a Novembro, sucessivos furações e tempestades tropicais fustigavam as diversas ilhas, isolados do Atlântico e do Mar das Caraíbas, os dois “harbours” que admirávamos formavam abrigos inestimáveis.

Os anos passaram. Em 1671, deu-se a primeira entrada registada de um navio britânico no English Harbour, requisitado à Coroa para uso do governador das então apelidadas de Ilhas do Sotavento, já percorridas por piratas amiúde patrocinados pelas nações rivais e determinados a pilhar e/ou afundar os navios que alvejavam.

De acordo, as autoridades dotaram Antígua de dezenas de fortes. Em 1704, decidiram-se a erguer um à entrada de English Harbour. Baptizaram-no de Fort Berkeley. Tanto o forte como a enseada também protegida por Natureza, se mantiveram à altura das expectativas.

Decorreram duas décadas. Consciente da segurança que garantia aos navios, a Marinha Real Britânica passou a ancorar no English Harbour em contínuo. Em Setembro de 1723, o porto viu a sua reputação reforçada.

De Abrigo de Furações a Base Naval da Marinha Real Britânica

Um furacão poderoso projectou contra a costa e danificou mais de trinta navios ancorados noutros portos e pontos em redor da ilha. Ao invés, os dois únicos navios de Sua Majestade abrigados em English Harbour resistiram incólumes.

Daí em diante, sempre com recurso a trabalho escravo, a Marinha Real Britânica dedicou-se a a dele fazer uma base naval e estaleiro.

Aos poucos, a importância do porto ajustou-se à do açúcar.

Satisfeitos com a elevação visual das Shirley Heights, regressamos ao nível do mar. A entrada no complexo obriga-nos a contornar o recorte caprichoso no cimo da enseada.

Nelson Dockyards. As Docas que Acolheram o Almirante

Na base do promontório que a delimita, uma tal de Dockyard Drive cruza um istmo verdejante e conduz-nos de volta à beira de um braço de mar com água tão tranquila que faz de espelho.

Instantes depois de deixamos para trás o Eastern Caribbean Amalgamated Bank, damos com os primeiros edifícios do conjunto, erguidos em 1788, recentemente restaurados da ruína até uma imaculada elegância.

De tal maneira fidedigna que, em 2016, a UNESCO lhe concedeu o estatuto de Património da Humanidade.

Os antigos armazéns e loja do piche e alcatrão, bem como os da pólvora foram convertidos numa pousada faustosa de quatro estrelas, a Admiral’s Inn and Gunpowder Suites e o seu restaurante “Boom”.

Tem a concorrência de um outro baptizado de Copper & Lumber Store, de acordo com o lugar em que era guardado o cobre que revestia o fundo dos navios e a madeira, aproveitado pelos marinheiros para esticarem as suas redes de dormir.

Adornam-nos distintas palmeiras, várias das quais imperiais. Com os anos, as palmas cresceram acima de uma linha de pilares de pedra icónicos, originalmente dispostos para susterem a Casa dos Barcos e Sotão das Velas, a que um furacão de 1871 furtou o telhado.

Segue-se o Museu das Docas, instalado na casa victoriana arejada que albergou os oficiais da Marinha Real Britânica e que melhorou as condições em que eram alojados nos seus anteriores aposentos.

Entre 1784 e 1787, um deles foi o Almirante Horatio Nelson.

A Missão de Horatio Nelson na Ilha Desafiante de Antígua

Em redor dos seus 27 anos, Nelson viu-se nomeado capitão do “HMS Boreas”, enviado para Antígua com a missão de desenvolver as instalações locais e de impor o cumprimento das leis britânicas numa conjuntura em que uma anarquia comercial, aproveitada por piratas e corsários, parecia estabelecer-se.

Nelson chegou a ocupar o posto de Comandante Supremo das Ilhas do Sotavento. Nesse período, deparou-se com tal resistência à sua missão que desabafou que a ilha de Antigua pouco mais era que um lugar vil.

Contados dezoito outros anos de experiência naval, Nelson garantiria para os Britânicos um triunfo improvável sobre uma armada franco-espanhola maior na Batalha de Trafalgar.

Decisiva, essa vitória granjeou-lhe um prestígio indisputado. E inúmeras honrarias de que o posterior baptismo das Docas de Antígua com o seu nome pouco se destaca.

Cansados de identificarmos os edifícios e a suas funções, as antigas e as actuais, optamos por cirandar pelas instalações, a absorvemos a atmosfera que por ali se respira.

Marinheiros dos nossos tempos, endinheirados ou até milionários, lavam ou mandam lavar os conveses e outras partes vulneráveis ao sal dos seus veleiros e iates, alinhados em redor das docas.

Um ou outro, trocam peripécias das navegações recentes, de olhos curiosos nos barcos que dão entrada. Esta nova vida das Nelson Dockyards é recente.

O Declínio Colonial, o Abandono e a Merecida Recuperação

Em 1883, o acto de Abolição da Escravatura pôs cobro ao trabalho forçado dos africanos.

Precipitou o declínio do comércio do açúcar e fez os ingleses virarem a sua atenção para outras partes lucrativas do Mundo.

Seis anos volvidos, abandonaram a Base Naval e as docas aos elementos e aos recorrentes furacões.

A recuperação das Docas de Nelson só zarpou em 1950, financiada pela Society of Friends of English Harbour, durou uma década.

Em 1982, entre os seus requintados frequentadores contaram-se Simon Le Bom e restantes membros dos Duran Duran, todos amantes do mar e da vela.

A banda filmou em Shirley Heights e em English Harbour o vídeo do seu êxito “Rio”, em parte, a bordo de um veleiro fundeado em Antígua de nome “Eilean”.

Daí para cá, inúmeros outros momentos de fama de lá irradiaram.

English Harbour é, por exemplo, a sede de duas das competições de vela mais conceituadas do Mundo, a Antigua Sailing Week e Antigua Charter Yacht Meeting.

Plymouth, Montserrat

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