Erriadh, Djerba, Tunísia

Uma Aldeia Feita Galeria de Arte Fugaz


Djerba – Île des Reves
Espelho Meu
Recanto ET
Apelo Mural
A Casa toda Pintada
Esquina dos Murais
A Peugeot de Nilko
Azul-Flamingo
De Passagem
Convívio Pintado
A Copa de Pakone
Tuaregue Deitado
O Farol de Wen2
Nargiles
Sr. Fatel dos Nargiles
Apelo ambiental
Tributo
A Esplanada da Placette
O Portão
O Mote de Sunra
Em 2014, uma povoação djerbiana milenar acolheu 250 pinturas murais realizadas por 150 artistas de 34 países. As paredes de cal, o sol intenso e os ventos carregados de areia do Saara erodem as obras de arte. A metamorfose de Erriadh em Djerbahood renova-se e continua a deslumbrar.

Chegada da híper-sofisticada Cidade das Luzes, a ideia colidiu com o tradicionalismo de Erriadh de maneira bem mais suave do que se poderia supor.

Há cerca de dois mil anos que a aldeia vivia a paz das suas ruelas e becos, de um branco sujo pelo tempo e pelo deserto, a espaços, quebrada pelas sucessivas tentativas de conquista de Djerba por povos mediterrânicos.

Finda a comoção da Primavera Árabe, inaugurada na Tunísia, no final de 2010, Erriadh padecia, todavia, de um certo caos administrativo de Djerba que culminava na falta de recolha de lixo.

Em 2014, a galeria Itinerrance de Paris confrontou os moradores e comerciantes da aldeia com o início da operação e com a urgência de um sim ou de um não, para cada uma das suas casas com pátio, houch, e outras propriedades contempladas.

Tal como contou o director da galeria e fundador do projecto, Mehdi Ben Cheik, tunisino de nascimento (em 1974), à data, com mais de uma década dedicada à defesa e divulgação da arte de rua, boa parte das gentes de Erriadh venceu uma esperada resistência inicial.

Concordou em acolher os artistas. Em disponibilizar-lhes as suas casas e estabelecimentos, e em apoiá-los na execução das pinturas. Acedeu, inclusive, em comprar os materiais necessários a um trabalho de diagnóstico, limpeza e restauração prévio à chegada dos artistas.

Uns poucos moradores recusaram. Até que constataram o óbvio embelezamento da povoação, se arrependeram e rogaram à organização que os artistas voltassem para lhes pintarem as paredes e muros.

As obras originais e outras adicionadas, em 2022, por cinquenta artistas, alguns de regresso ao projecto, formam a galeria a céu aberto de Erriadh.

Salpicam a grelha da povoação e o cerne de Djerba em que se situa.

É para lá que nos dirigimos do seu litoral norte, com passagem pela sinagoga local de El Gribha, por sua vez, o âmago sagrado da comunidade judaica da ilha.

A Itinerrance de Paris disponibilizou um mapa online que permite aos visitantes orientarem-se no labirinto internacional de murais.

Djerbahood: de Rua em Rua, de Mural em Mural

Pouco virados para a solução de o seguirmos, optamos por nos deixamos perder, por interagirmos tanto quanto possível com moradores e forasteiros.

Sem priorizarmos a busca sistematizada das obras. Mas com o compromisso de nos perdermos o tempo suficiente para percorrermos todas, ou quase todas, as ruelas da aldeia. Diminuta, devemos acrescentar.

O seu nome ancestral, Hara Sghira, qualificava um “pequeno bairro”.

O seguimento do beco por que entrarmos tarda em revelar-nos murais que nos impressionem. O encalço de distintos residentes em trajes tradicionais faz com que nos afastemos um do outro.

Até deixarmos de saber como nos reencontrarmos. Passado algum, tempo, com recurso aos telefones, convergimos.

Quando o fazemos, partilhamos descobertas de pinturas prodigiosas. Os círculos de pequenos seres silhueta do salmantino David de La Mano, abaixo de um pátio pejado de grandes potes, ao lado de uma buganvílea viçosa.

Arte de Rua Chegada de Portugal e dos Quatro Cantos do Mundo

Os painéis criativos de azulejos do português Add Fuel (Diogo Machado), a Pop Art psicadélica de It’s a Living, que remete para o epíteto francês de Djerba.

L’Île des Rêves, a alegrar uma arcada comercial de que desponta uma palmeira solitária. A uma mera quadra, vemos ainda vultos de sombra vivos – já não os de David de La Mano – caminharem sob o farol civilizacional de Wen2.

Procuramos pelo letreiro “The Hood” de Rodolphe Cintorino que inspirou a equipa de Itinerrance de Paris a baptizarem a galeria de Djerbahood.

Dois jovens residentes dizem-nos que já era muito antigo (de 2014) e que o Siroco e outros vendavais afins, gerados no deserto, o tinham mandado abaixo.

Nessa senda, damos de caras com outro dos murais que nos assombra, este, em formato panorâmico.

Em 2014, Bom. K pintou o que nos parece um tuaregue e uma série de ânforas arrastados pelas areias do tempo. A sua túnica cinzenta-azulada vela uma cabra.

Oito anos decorridos, o tempo e as areias já lhe descascaram trechos das vestes e o muro revela parte das pedras que o compõem.

Vemos nuvenzitas brancas aproximarem-se acima. Esperamos o hiato certo.

Com esse acrescento de céu, complementamos o mural com algo da sumptuosidade na sua génese.

As Gentes Coloridas de Erriadh e os Visitantes Intrigados

Enquanto deambulamos, esforçamo-nos por unir as expressões congeladas nas obras a momentos e pessoas de Erriadh.

As mulheres da aldeia, em particular, nos seus trajes islâmicos coloridos, geram imagens graciosas.

Só que são poucas as que não cobrem o rosto quando percebem que as enquadramos.

Uma ou outra das novas gerações, ou com as mãos entregues aos volantes de vespas e motoretas do género.

Aqui e ali, partilhamos a apreciação de murais com famílias visitantes, algumas, vindas da longínqua capital Tunes.

É o que acontece quando encontrarmos a obra de Nilko, de 2014, mas que, menos exposta, preserva toda a sua vivacidade.

Os Velhos e Sedutores Peugeots da Autoria de Nilko

O mural do francês evoca a alternativa tunisina motorizada ao dromedário, as velhas carripanas Peugeot, no caso, as de caixa aberta que o artista sobrecarrega de itens verosímeis.

Enfiado numa jilaba escura, o pai da tal família não resiste. Pede à esposa que o fotografe. Agarra no filho, também ele metido na sua jilabinha. Primeiro, deitam-se sob a furgoneta e fingem que a reparam.

Em seguida, ajustam-se ao fundo da caixa de madeira e simulam que a empurram. Nem a noção de que os fotografamos sem apelo os intimida, ou demove das risadas que partilham.

Certos murais porque passamos provam-se tão ou mais contestatários que artísticos.

Numa ruela, entre hotéis e galerias de artesanato, um autor que nem mais tarde encontramos catalogado, expõe um camelo que emula um cavalo de baloiço, uma vez mais sob palmeiras carregadas de tâmaras.

À esquerda do desenho, a mensagem escrita em inglês, é inequívoca no seu repto de protecção animal: “Camels are not for Fun”.

Em jeito de possível contraponto, ali por perto, um outro mural exibe um dromedário montado por guerreiro de lança em riste, atacado por um felino ameaçador.

Apercebemo-nos de que muito do dia-a-dia de Erriadh se desenrola atrás das fachadas das suas houchs e em idas e voltas, por norma céleres, a houchs de vizinhos e às mercearias da povoação.

Erriadh e o Cerne Social de La Placette

Um reduto cercado de árvores da povoação lidera o acolhimento dos forasteiros, em dois ou três bares-esplanada lá instalados.

Um deles, o café Fatel, espraia-se em banquinhos, mini-mesas e um sofá de chão, instalados sobre longos tapetes tradicionais.

Lá nos cruzamos com um proprietário que reaviva as brasas necessárias aos cachimbos de narguilé (vulgo shisha).

Com o sol a assentar para os lados da Argélia, mais visitantes se instalam na praça, a partilharem chá de menta, cornes-de-gazelle e outras iguarias.

Instigados pelo misticismo do crepúsculo, insistimos na deambulação, atentos a como distintos murais sobressaiam na luz ténue do ocaso e nas artificiais que lhe sucedem.

O pintor Pakone cobre o cimo de um talho com uma das suas árvores de troncos e ramos curvos, de copa rosa quase choque.

Joseph, um jovem tunisino, dá-nos as boas-noites com uma educação e suavidade que indiciam harmonia e respeito pelos mais velhos.

Desvia a vespa que mantém à porta. Entra em casa através da obra abstracta do tunisino Najah Zarbout que revestiu o seu exterior na íntegra.

Prosseguimos pela Rue de la Palestine. Um gato negro eriça-se acima do rectângulo que a identifica. À esquerda de quem contempla, sobressai um grande coração, mutilado por arame farpado.

Também esta é uma obra de 2014. Tal como a questão da Palestina e a Palestina em si, desgastada, a um ponto de quase sem retorno.

Aventuramo-nos por ruas secundárias, que dão para pastos e campos agrícolas de que despontam mais palmeiras. Sob uma delas, uma instalação em forma de grafiti clássico reclama, em francês: “Cortar todos os arranha-céus se eles são mais altos que palmeiras”.

Com os anos, a obra algo fantasmagórica do português Pantónio, que cobre toda uma extensa fachada alva de um dragão negro que dispersa sangue (ou tinta), perdeu igualmente algum do seu fulgor mas resiste a impressionar e até intimidar quem dela se acerca.

Foi dos derradeiros trabalhos que o súbito escurecer nos permitiu achar. Muitos mais ficaram por apreciar.

Neste mesmo ano de 2022, o projecto da galeria Itinerrance de Paris inaugurou a sua versão 2.0. Djerbahood chegou para ficar em Erriadh.

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