El Tatio, Chile

Uma Ida a Banhos Andina


Campo de géiseres

El Tátio é considerado um dos campos de géiseres maiores e mais elevado da América do Sul e do mundo. São mais de 80 géiseres a uma altitude de 4.200 metros.

A banhos

Viajantes recuperam energias na lagoa principal de El Tátio, a 4.200m de altitude.

Banho sulfuroso

Viajantes banham-se nas águas revigorantes das termas de El Tatio.

Géiser

Um dos muitos géiseres de El Tatio, agrupados a mais de 4.200 metros de altitude.

Vultos de vapor

Silhuetas bem desenhadas contra o vapor libertado pelos géiseres de El Tatio.

Capela ou capilla

Uma capela à beira da estrada a meio do caminho para El Tatio.

Cruz trajada

Uma cruz vestida de lã, coroa uma capela campesina num lugarejo perdido no nada a caminho de El Tatio.

Aconchego na montanha

Banhistas partilham a água quente de uma das lagoas de El Tatio, enquanto, em redor, a temperatura permanece negativa e há gelo no solo.

Lamas

Manadas de lamas, vicuñas e alpacas são avistadas com frequência nas terras altas em redor de El Tatio.

Pernilongas

Flamingos numa lagoa na proximidade de Gautin, a caminho dos géiseres de El Tátio.

Extremos

Gelo formado pelo congelamento da água em ebulição projectada pelos géiseres de El Tátio.

Envolto de vulcões supremos, o campo geotermal de El Tatio surge como uma miragem dantesca de enxofre e vapor a uns gélidos 4300 m de altitude. Os seus geiseres e fumarolas atraem hordas de viajantes. Ditou o tempo que uma das mais concorridas celebrações dos Andes e do Deserto do Atacama passasse por lá partilharem uma piscina aquecida a 30º pelas profundezas da Terra.

O Explora Atacama, um dos hotéis mais conceituados de San Pedro de Atacama, faz acompanhar os seus jantares caprichados e sofisticados, com alguns dos melhores vinhos chilenos. Os repastos, assim regados, deleitam e alegram os hóspedes sem reservas. Não vão bem com as horas madrugadoras a que saem as excursões em que se metem. A carrinha parte do pátio – antiga cavalariça de São Pedro de Atacama – no escuro das 5h30, mais de duas horas antes da aurora. Sai da cidade e, aos poucos, avança paralela à fronteira com a Bolívia e ao sector andino de montanhas e vulcões que a estabelece. Sem conseguir vislumbrar nada dos cenários em redor, boa parte dos oito passageiros da van deixam-se dormitar.

Uma alba ténue inaugura o dia. Nicholas, o guia, decide poupar-nos ao desperdício e acorda a comitiva. Por essa altura, contornamos uma lagoa rasa, habitada por flamingos, patos selvagens e outras aves menos vistosas. Nicholas aproveita o pretexto para nos despertar também a atenção. “Amigos, olhem bem para a passarada… pode parecer-vos que estou a inventar mas, nestas lagoas, nas noites frias, as aves dormem com as patas presas no gelo. Só se soltam de manhã ou seja daqui a pouco, quando o sol o voltar a derreter.” Não tínhamos nem como o comprovar, nem razão para duvidar. Fenómenos não faltavam à região, muito para lá da aridez recordista do deserto de Atacama.

Continuamos a subir por desfiladeiros pejados de cactos. Cruzamos aldeias atacamenhas com as suas casas e igrejinhas pitorescas de adobe e telhado de colme, abençoadas por cruzes que os nativos vestem de lã garrida. Atingimos a puna de Atacama, o planalto andino por norma assim considerado acima dos 4000 metros. Avistamos manadas de vicunhas e lamas alguns enfeitados por berloques de lã colorida dependurados das orelhas que lhes são colocados pelos indígenas, em cerimónias dedicadas, à laia de bênção, de identificação e de propriedade. Os camelídeos pastam entre coirones, também conhecidos por palha brava, os arbustos rasteiros resistentes à secura e ao frio que pintam de amarelo a vastidão.

Quase cem quilómetros e duas horas após São Pedro de Atacama, já o sol se exibia em pleno esplendor, detectamos colunas de fumo à distância e em contraluz. De início, confundem-se com o produto de pequenos fogos. À medida que nos aproximamos, desvendamos uma profusão dantesca de geiseres fervilhantes e fumarolas percorrida por vultos humanos que caminham entre as cortinas de vapor dançantes por elas libertadas. Os indígenas habituaram-se a tratar este cenário surreal por El Tatio “o velho que chora” ou “o avô que chora”, no dialecto kunza que usaram no altiplano dividido entre o Chile, a Bolívia e a Argentina. O kunza extinguiu-se algures durante o século XIX, abafado pela disseminação do castelhano imposta pelos colonos hispânicos. Ainda assim, o nome El Tatio passou de geração em geração. Divulgado às costas dos gringos mochileiros, eternizou-se á escala mundial.

Tínhamos chegado ao maior campo geotermal dos Andes e do Hemisfério Sul, com uma área de 10km2. O terceiro maior do mundo a seguir ao de Yellowstone (E.U.A.) e do de Dolina Geizerov, integrante da reserva nacional de biosfera Kronotsky, na península russa de Kamchatka. Aos seus 4300 metros de altitude, era também o alegado campo geotermal mais elevado à face da Terra, com a eventual disputa do boliviano Sol de Mañana, um campo entre os 4800 e os 5000 metros mas composto quase só de poços de lama que libertam vapor e enxofre.

A vizinha Bolívia insinua-se ali ao lado, a leste da fronteira estabelecida pelo complexo vulcânico Altiplano-Puna, um conglomerado de estratovulcões e velhas caldeiras que, em tempos pré-históricos, estiveram na base de gigantescas erupções.

Por comparação, o legado desta actividade vulcânica é diminuto. Os geiseres de El Tatio, projectam as suas erupções a uma altura média inferior a um metro e máxima de cinco metros, distâncias insignificantes se comparadas com o recorde mundial do geiser Steamboat de Yellowstone: 91 metros.

Fosse como fosse, El Tatio e, em particular, a sua piscina termal gerava sucessivas manifestações de alívio e regozijo em dezenas de viajantes que se haviam adiantado e se banhavam numa espécie de jacuzzi natural. Só àquela hora a temperatura exterior parecia querer subir para positiva, algo que comprovávamos pelo súbito derretimento do gelo em redor de muitos dos oitenta geiseres. Entre o vestido e o despido arrastava-se, assim, um lapso de sofrimento incontornável que os banhistas enfrentavam, uns com coragem, outros com pura inconsciência.

Os 30º a que brotava a água tudo faziam esquecer: o despertar madrugador, a viagem aos solavancos, a dor de cabeça que, pelo menos em alguns dos forasteiros, o mal da montanha e eventuais excessos alcoólicos da noite anterior, começavam a causar. Proporcionavam um aconchego ritualizado, libertador e gerador das mais cálidas cavaqueiras.

Certos banhistas estavam há mais tempo no Atacama. Eram repetentes nas incursões às terras elevadas na orla leste do deserto na fronteira com a Argentina e a Bolívia. Uns poucos, terão inclusive subido a vulcões exuberantes como o Cerro Toco, o activo Lascar, o Licancabur ou o vizinho Sairecabur, os três últimos a roçarem os 6.000 metros de altitude.

Para estes gringos, a recompensa da água quente duraria o que durasse, ou o que os guias deixassem prolongar. No caso dos estreantes, teria que terminar dentro em pouco. Os guias – pelo menos eles – sabiam quão traiçoeira se podia revelar a doença da altitude e o que faria os clientes sofrer.

Outros organismos, microscópicos, bem mais resistentes às condições adversas e que usufruíam daquelas águas sulfurosas levam-nos de volta ao caracter fenomenal do Deserto do Atacama e redondezas.

Em 2003, uma comitiva multinacional de cientistas da NASA e da Universidade norte-americana Carnegie Mellon instalou-se no Atacama com o propósito de implementar a Life in the Atacama, um programa de aperfeiçoamento de veículos robóticos rover que preparavam para utilizar na missão astrobiológica Spirit. Após aturada investigação, os cientistas concluíram que só no Atacama tinham encontrado espaços sem qualquer tipo de vida. Foi, assim, decretado o lugar à face da Terra mais similar a Marte. Em simultâneo, expressões orgânicas encontradas em redor provaram-se análogas das presentes nos primórdios da Terra, eventualmente, também na existência passada de Marte. Bem mais adaptados e confortáveis que os viajantes que repartiam a piscina, estes ditos organismos extremófilos proliferam há milhões de anos nas chaminés do campo geotermal. Não consta que o mal da montanha lhes cause qualquer incómodo.

No caso particular de El Tatio, os organismos resistentes às altas temperaturas da água sobrevivem em até 74ºC dos 86ºC registados em certos geiseres, a temperatura de ebulição à altitude local. Geram uma espécie de tapetes microbiais que se transformam num excêntrico sínter, um depósito silicioso ou calcário derivado da compactação de micropartículas a temperaturas inferiores às da fusão. Ora, esquivando-nos a mais meandros obscuros da Física e da Química, o fascínio advém de várias destas microestruturas presentes em El Tatio serem semelhantes às encontradas em HomePlate, uma meseta marciana com 90 metros documentada pela missão Spirit, de 2006 a 2010. Vasculhou-a o rover homónimo até que, em Março de 2010, se atascou num solo granulado da vertente nordeste da formação. Ficou, assim, por provar que os depósitos lá detectados eram, como os de El Tatio, biogenéticos.

Dita o padrão meteorológico da zona que, por volta das 8h30, ventos ascendentes fazem dispersar o vapor resplandecente pela superfície do planalto. A luminosidade fulgurante que se instala reduz drasticamente a visibilidade e torna os passeios entre os geiseres e chaminés mais arriscados que nunca. Nesse dia não foi diferente. Alguns banhistas persistentes ou que adiavam a nova submissão ao frio exterior, mantinham-se de molho. A maioria não tardou a debandar da piscina termal. Apontaram a aldeias típicas atacamenhas da região, a Caspana, a Toconce, Ayquina, Chiu Chiu ou outras.

Nós, aceitámos o repto de Nicholas. Inaugurámos o regresso ao pueblo de São Pedro com paragens estratégicas de que, tal como nos prometera o guia, não nos arrependemos.

El Tatio não era o único campo geotermal da região. Na eminência de Guatin e dos seus desfiladeiros ressequidos salpicados de cactos, detivemo-nos numas tais de termas de Puritama.

Estávamos quase mil metros abaixo de El Tatio. Com o sol já subido no horizonte, a temperatura ambiente tinha-se amornado. Puritama podia não partilhar da exuberância vaporosa do campo de geiseres. Contava, no entanto, com uma série de lagoas naturais que se sucediam de cima para baixo no leito de um riacho, envoltas de uma floresta excêntrica de colas de zorro (caudas de raposa), assim tratam os hispânicos os penacheiros, também conhecidos por limpa-garrafas por razões que ressaltam do seu visual.

A profusão das plantas formava sebes densas e circulares que envolviam cada uma das lagoas e lhes concediam uma atmosfera de retiro contrastante com a que tínhamos sentido em El Tatio. Em tempos, os indígenas atacamenhos recorriam às suas águas repletas de sulfato de sódio para recuperarem de fadiga, de artrites e reumatismos. Pouco ou nada dormidos nas noites anteriores, desgastados das sucessivas excursões e caminhadas, considerámos justificada a primeira das indicações. Voltámos a despir-nos. Enfiámo-nos numa lagoa sem vivalma. Recuperámos a alma e o corpo até à pele se encarquilhar e São Pedro nos reclamar.

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