Rússia

O Escritor que Não Resistiu ao Próprio Enredo


De visita

Casal deixa o antigo lar de campo e de exílio da família Pushkin e percorre a paisagem verdejante de Mikhaylovskoe.

Pushkin de bronze

Estátua de Pushkin erguida junto ao mosteiro de Svyatogororsky.

Beijo de fé

Padre ortodoxo beija uma imagem religiosa no interior do mosteiro de Svyatogororsky, onde Pushkin e a sua família estão sepultados.

Lar doce lar Pushkiniano

A fachada da casa de Pushkin com melhor vista, a virada para o lago Kuchane.

Arma(s) do Crime

Caixa com mosquetes usados por Pushkin, em exibição no museu em que foi transformada a casa do escritor de São Petersburgo.

Rússia outonal

Cenário outonal da propriedade da família de Alexander Pushkin, um refúgio campestre herdado da mãe.

O Duelo fatal

Pintura de época ilustra o duelo que vitimou Pushkin. Na imagem, Pushkin, já ferido no estômago, tenta atingir o adversário francês Georges-Charles d’Anthés que tinha antes desafiado.

Homenagens póstumas

Flores no pequeno mausoléu da família de Alexander Pushkin, junto ao mosteiro de Svyatogororsky e nas imediações de Mikhaylovskoe.

Rússia idílica

Franja do lago Kuchane com o casario de Trigorskoe - uma povoação vizinha de Mikhaylovskoe - em fundo.

Pushinskaya

Uma outra estátua de Alexander Pushkin, esta iluminada em dourado na estação de metro de São Petersburgo que o homenageia, Pushinskaya.

Campo Russo

Velho moinho perdido na grande charneca em redor de Mikhaylovskoe.

Alexander Pushkin é louvado por muitos como o maior poeta russo e o fundador da literatura russa moderna. Mas Pushkin também ditou um epílogo quase tragicómico da sua prolífica vida.

É de tal forma importante a figura de Pushkin na Rússia que nos deparamos com ela vezes sem conta. Tsarskoye Selo, antiga residência da família imperial russa e uma das espécies de Versailles de São Petersburgo, foi rebaptizada com o seu nome por ocasião dos cem anos da morte do escritor, que lá estudou.

Tanto as redes de metro de São Petersburgo como a de Moscovo contam com a sua estação Pushkinskaya e, mesmo se são abundantes os escritores e outros artistas de renome no país dos Czares, o culto da sua personagem multiplica-se em ambas as cidades e um pouco por toda a Rússia. A devoção tem uma óbvia razão de ser.

Faltava pouco menos de meio semestre para a entrada no século XIX quando Alexander Sergeyvich Pushkin veio ao mundo. Era filho do major Sergei Lvovich Pushkin e de Nadezhda Ossipovna Gannibal. A ascendência do lado da mãe revelava-se uma encruzilhada étnica. Combinava proveniência de um lado germânica e escandinava, do outro, uma improvável ascendência africana. O bisavô de Pushkin, Abram Petrovich Gannibal (1696-1781), foi um pajem capturado nos actuais Camarões, quando tinha sete anos e levado para a corte do sultão otomano Mustafa II. Depois de um ano em Constantinopla, resgatou-o um deputado do embaixador russo de então que o ofereceu a Pedro o Grande. O imperador simpatizou com o jovem. Forjaram uma forte cumplicidade. Levou-o consigo em várias campanhas militares. Com o tempo, Gannibal tornou-se um dos seus generais preferidos e um membro da família real.

O bisneto Pushkin, por sua vez, desenvolveu-se num homem elegante, como era natural, com características bem distintas dos protótipos masculinos russos. O seu cabelo revelou-se escuro e encaracolado e a sua compleição típica de um moreno, para não dizer… africano. Ao longo da vida, as suas raízes viriam a inspirar diversas calúnias por parte dos críticos. Pushkin respondeu com literatura. Sobre o tema, publicou “O Negro de Pedro o Grande” em que louvou a história de vida do bisavô. E ainda “A Minha Genealogia”.

Em 1811, Pushkin deu entrada no liceu imperial de Tsarskoe Selo. Foi ali que desenvolveu a sua aptidão para a escrita. Passados seis anos, já graduado, aceitou uma posição no Ministério dos Negócios Estrangeiros e integrou-se na vida social e intelectual da Veneza do Norte. Ao mesmo tempo, começou a usar a sua pena para satirizar várias figuras da corte. Esta postura irou Alexandre I. O imperador decretou-lhe um exílio sob a forma de serviço cívico, no sul da Rússia, de ínicio na actual Dniepropetrovsk, onde deveria reportar ao General Iván Inzov. Inzov acolheu-o de braços abertos e escusou-se a dar-lhe tarefas. De tanto banho nas águas frias do rio Dniepr, Pushkin adoeceu.

Nicolay Rayévski, um outro militar, passou pela cidade. Ia com a família a caminho do Cáucaso onde o seu filho mais velho se curava numas termas. Rayévski convenceu Pushkin a acompanhá-los e Inzov autorizou.

Na altura, o Cáucaso era a verdadeira fronteira com a Ásia. Pushkin deslumbrou-se e inspirou-se com a beleza das montanhas da região e com a rebeldia dos chechenos e de outros povos da zona. Vários dos seus poemas e até romances de então refletiam realidades destas paragens, exóticas para a quase totalidade dos habitantes de Moscovo ou São Petersburgo. Foi o caso do “Prisioneiro do Cáucaso” que aflorou a relação entre um captivo russo e uma rapariga circassiana.

Quatro anos de exílio depois, Pushkin sofreu nova admoestação tolerante do imperador por escritos problemáticos mais recentes. Desta feita, refugiou-se em Mikhaylovskoe, uma propriedade da família, algumas horas a sul de São Petersburgo.

Foi aí que tivemos o primeiro contacto com o retiro familiar do autor. Deixámos Pskov e percorremos cerca de 120 km por pequenas estradas campestres. Atravessámos aldeolas que agrupavam izbas sem fim, umas em estado imaculado, outras que o tempo havia degradado, aqui e ali, também exemplares a que o fogo causara danos irreparáveis.

Nas povoações mais vivas, verdadeiras redes de canalização elevada de cores garridas estendiam-se dobradas e bifurcadas vezes sem conta, ruela após ruela. Os lares dependiam do sopro do gaz natural vindo da Sibéria que por elas circulava.

Ultrapassámos inúmeras relíquias automóveis soviéticas: Volgas, UAZs e Kamaz, entre outros.  Alguns seguiam em estados lastimáveis como um Lada que vimos perder uma roda e enfiar-se contra uma sebe do lado oposto da estrada.

Corrido mais tempo do que contávamos, chegámos a uma zona erma de pinhais lúgubres e densos. Não detectámos vivalma nas redondezas. Duas placas indicativas apontaram-nos um trilho que conduziu a uma espécie de charneca coroada com uma mansão elegante encaixada num jardim cuidado. Era o coração habitacional de Mikhailovskoe, propriedade da família materna de Pushkin desde 1742. Pushkin habituou-se a lá se refugiar do rebuliço de São Petersburgo.

Já bem fora da época turística alta, quase só nós e Alexey Kravchenko, o anfitrião que nos conduzia desde São Petersburgo, a visitávamos. Não detectámos sinal do acolhimento especial e dos extras que culminam a 6 de Junho, o dia em que se celebra o nascimento do autor e em que milhares de admiradores vindos de toda a Rússia ali se encontram.

Espreitámos o interior amarelo da casa, com o seu mobiliário clássico, um piano de madeira e uma escrivaninha ainda repleta de manuscritos dourados pelo passar do tempo.

De volta ao exterior, avançámos até às traseiras e descobrimos o melhor atributo da residência. O seu limiar dava para uma longa encosta ervada. Lá em baixo, um rio – o Sorot – serpenteava e entregava-se a uma espécie de paul integrante do lago Kuchane que alimentava.

Descemos por um caminho que sulcava a erva até à margem mais próxima. Lá encontrámos, por fim, sinal de vida. Um pescador enfiado num camuflado militar repetia lançamentos de linha. Depressa percebemos que estava tão determinado em não ser incomodado como a encher o balde da pescaria. De acordo, avançámos pela margem do rio e inspeccionámos um velho moinho de madeira isolado na paisagem, na companhia de um jovem casal acabado de chegar.

Pushkin ia quase todos os dias bem mais longe. Alexei Wulf, um dos seus melhores amigos, vivia em Trigorskoe, uma das povoações mais próximas. Wulf chegou, aliás, a afirmar que ele próprio foi a inspiração para Vladimir Lenskiy, uma das principais personagens da famosa novela em verso de Pushkin “Eugene Onegin”.

Até 1861, a escravidão manteve-se legítima na Rússia. Os camponeses residentes eram servos da família, algo que Pushkin sempre encarou à sua própria maneira. Em vez de se assumir como um soberano prepotente, apreciava o contacto com as pessoas do campo. Inteirava-se das suas vidas e preocupava-se com o seu bem-estar. Revoltou-se quando descobriu que muitos dos camponeses que conhecia não tinham lenha suficiente para manter os fornos acesos durante o Inverno, nem podiam comprar vidros para as janelas. Interessava-se também pelo folclore dos campesinos. Recolhia fábulas, canções e sagas que, depois, usava como inspiração para as suas obras.

De Maio a Agosto, é costume os visitantes mais empenhados inteirarem-se do que ali terá sido a vida rural na época de Pushkin. Investigar as antigas casas da zona, celeiros, currais etc. Fazem inclusivamente de camponeses e debulham milho, ou tecem em teares seculares. Nenhuma destas ou outras hipóteses eram válidas quando por lá passámos.

No regresso ao carro, Alexei sugeriu que nos metêssemos por um atalho. Perdemo-nos por completo. Caminhámos por vários quilómetros sem conseguirmos voltar a encontrar o trilho da ida. Acabámos a andar em estradas desconhecidas e a pedir ajuda paga a moradores de izbas abarracadas erguidas à beira da floresta, para que nos levassem ao carro. Em vão.

Depois de nos certificarmos de que estávamos na direcção certa,  parámos para comprar um grande saco de maças a Zina, uma babuska que as vendia, bem vermelhas e ao balde, à porta da sua casa.

Matámos a sede e a fome. Quase duas horas e meia e mais de dez quilómetros depois, chegados de uma direcção oposta àquela de que tínhamos partido, voltámos a encontrar o nosso carro. Uma vez recuperados, ainda apontámos para o mosteiro de Svyatogororsky, onde demos entrada pouco antes de uma chuva inclemente.

Em tempos, Pushkin fez deste mosteiro uma escala habitual. Lá visitava os túmulos dos seus antepassados, apreciava as peregrinações religiosas e as feiras onde adorava conviver com personagens reais que vieram a inspirar as de “Boris Godunov”. Hoje, é lá que jaz, junto ao túmulo da sua mãe. Foi o próprio Pushkin a precipitar a sua mudança para aquela derradeira morada.

Em 1828, Pushkin conheceu Natalia Goncharova uma das mais apreciadas beldades de Moscovo, então com apenas 16 anos. Após farta ponderação, e depois de se certificar de que Pushkin não seria de novo perseguido pelo governo czarista, a jovem e a sua mãe aceitaram a proposta de casamento do escritor. Casaram em 1831. Seis anos mais tarde, Pushkin tinha acumulado grandes dívidas. Como se não bastasse, recebeu uma carta anónima que lhe atribuía o título de “Deputado Grande Director e Historiógrafo da Ordem dos Cornudos”.

Havia já algum tempo, Puskin e a jovem esposa tinham conhecido Georges-Charles d’Anthés, um militar francês que se alistou no exército russo para progredir na sua carreira. D’Anthés começou a cortejar a sedutora Natália em 1835. Quando percebeu que esta o rejeitava, D’Anthés e o pai adoptivo fizeram chegar a Pushkin e a alguns dos seus melhores amigos vários exemplares daquela sátira. Pushkin – que se envolvia frequentemente em paixonetas e assédios extra-maritais – não precisou de muito para apurar os autores. Mesmo sem ter investigado se a esposa – que se dizia que também provocava o czar Nicolas e por ele era assediada – lhe fora ou não infiel, desafiou D’Anthés para um duelo. Malgrado negociações levadas a cabo pelo pai adoptivo do francês, o duelo teve mesmo lugar numa tarde gélida de 27 de Janeiro de 1837. D’Anthés disparou primeiro. Feriu Pushkin com gravidade no estômago. Pushkin, que antes tinha originado e travado vários duelos, ainda conseguiu ripostar mas só feriu o rival ao de leve num braço. Morreu dois dias depois na casa de São Petersburgo.

Como era de esperar, o seu antigo lar também foi sacralizado. É hoje um dos museus e memoriais incontornáveis da cidade, visitado por grandes excursões de estudantes russos e por batalhões de turistas de todas as partes. Antes de deixarmos Peter, deslumbrados pela excentricidade da sua vida, obra e morte, ainda fizemos questão de o desvendar.

 

 

 

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