Bay of Islands, Nova Zelândia

O Âmago Civilizacional da Nova Zelândia


Waitangi é o lugar chave da Independência e da já longa coexistência dos nativos maori com os colonos britânicos. Na Bay of Islands em redor, celebra-se a beleza idílico-marinha dos antípodas neozelandeses mas também a complexa e fascinante nação kiwi.

Estamos em pleno Verão do hemisfério sul. A meteorologia prenda a Ilha do Norte e a Bay of Islands. Paihia surgiu como um aconchego estival de tal forma acolhedor que nos reteve por quase uma semana.

O mesmo magnetismo que atraía visitantes estrangeiros em catadupa, fora responsável por boa parte das grandes moradias particulares da povoação serem agora pousadas com nomes irreverentes.

Manhã após manhã, esta horda, na sua maioria de adolescentes, deixava os alojamentos e dirigia-se as docas nas imediações. Todos partilhávamos um destino: as águas turquesas e as enseadas convidativas da Bay of Islands, onde cerca de 150 ilhas forradas de prado, aqui e ali de vegetação arbórea salpicam um recorte arredondado no litoral neozelandês.

À Descoberta da Bay of Islands

A bordo do “R. Tucker Thompson” – um enorme veleiro icónico da região de Northland – desfrutamos de um desses tours arejados e solarengos. Admiramos o litoral ervado e rugoso. Banhamo-nos em angras divinais sem vivalma.

Desembarcamos numa estância ovelheira pitoresca na extensão de uma calheta encaixada entre outeiros a que o Pacífico azulão chega tão suave que mais parece banhar por favor. Ali, rebanhos de ovelhas desconfiadas percorrem os pastos em fila, em busca da sombra das poucas árvores que os criadores de gado pouparam.

Com o avançar da tarde, mais veleiros ancoram em diferentes enseadas. Sucessivas expedições de canoístas sulcam o mar tranquilo numa comunhão de descoberta e evasão que o desafogo da Bay of Islands prolonga.

Por estes dias, a navegação é pacífica e de recreio. Mas, deslumbra-nos o imaginário das embarcações francesas e britânicas a confrontarem-se pelas duas grandes ilhas do povo maori, há pouco mais de dois séculos.

Russel: um antro de outros tempos

Em pleno século XIX, Russel, a povoação oposta a Paihia, era conhecida pelo “buraco infernal do Pacífico”. Atraía tudo o que eram condenados evadidos da Austrália, baleeiros e marinheiros que se embebedavam até perderem a noção de onde estavam atracados os seus navios e, não tardava, os sentidos.

Quando, em 1835, Charles Darwin por lá passou, terá alegadamente duvidado da aplicabilidade da sua Teoria da Evolução já então em fase embrionária. Ao invés, descreveu o lugar como avesso a qualquer padrão social.

Nos dias que correm, Russel, bem mais que Paihia, tem os edifícios mais antigos da Nova Zelândia. São testemunhos elegantes e bem mantidos da perseverança colonial britânica, da paciência e da argúcia  diplomática com que os britânicos lidaram com o povo maori, até ambos chegarem a um entendimento que, entretanto, urgiu.

O Solo Solene de Waitangi

A menos de 2km para norte de Paihia, Waitangi traduz essa realidade histórica como nenhum outro lugar da Nova Zelândia. Lá nos recebe o Director Executivo Andy Larsen. Andy guia-nos pelos Waitangi Treaty Grounds. Apresenta-nos três jovens maori figurantes do espectáculo exibido quando são vendidos bilhetes suficientes.

Mas, nem os espectadores então tinham aderido, nem os visitantes abundavam naqueles precintos históricos e museológicos da Bay of Islands. Tendo em conta a formosura dos cenários em redor e o lazer que proporcionavam, não seria de espantar.

Um Curioso Haka Juvenil

Em vez do show, o elenco encurtado dedica-nos uma pequena produção fotográfica com direito a poses e expressões assustadoras de haka, sob o telhado da casa waka erguida para celebrar a assinatura do Tratado de Waitangi, em 1840.

Fazem-no junto a uma canoa cerimonial maori de guerra, a maior do mundo, com 35 metros de extensão, lugar para um mínimo de 76 remadores, seis ou doze toneladas (consoante esteja seca ou ensopada) e um nome a condizer: Ngātokimatawhaorua.

Apreciamos os jovens de olhos arregalados, com as suas órbitas quase a explodirem, as sobrancelhas levantadas ao limite e as línguas expostas e caídas, a emularem os visuais monstruosos com que os maori impressionavam as tribos inimigas, incluindo, a partir de meio do século XVII, os invasores europeus das suas terras.

Nas imediações, recuperada do abandono e decadência quase irrecuperável em que se viu de 1882 a 1933, encontra-se a Treaty House, a antiga residência do governador britânico na Nova Zelândia.

O seu chalé de madeira situa-se em frente à Te Whare Runanga, a Casa de Assembleia Maori, esculpida segundo os preceitos tradicionais do povo nativo mas, criada como expressão de arte única, para o propósito supremo que lhe foi atribuído. Em conjunto, os dois edifícios simbolizam a parceria a que chegaram os maori e a Coroa Britânica.

A apenas alguns metros, destacado à beira-mar no limiar de um vasto relvado, ondulam ainda as três bandeiras que a Nova Zelândia teve ao longo dos seus tempos de nação: lado a lado, num nível inferior, a das Tribos Unidas da Nova Zelândia e a Union Jack do Reino Unido; no zénite, a actual neozelandesa.

Por fim, uma família surge dos fundos do complexo. Chegada à base do mastro presta  homenagem ao monumento, consciente do longo e pungente processo histórico ali simbolizado.

Britânicos vs Franceses vs Maoris: uma intrincada disputa

Por volta de 1830, a desordem e o caos eram a ordem do dia entre os súbditos de Sua Majestade na Nova Zelândia. Os franceses representavam uma concorrência cada vez mais séria às suas pretensões e ameaçavam declarar soberania sobre as ilhas maori, algo que preocupava tanto os britânicos como os nativos.

Por mais humilhante que se tivesse revelado a imposição dos colonizadores britânicos, após um período bélico inicial, a coexistência pareceu inevitável. Havia, sobretudo que combater a intrusão adicional dos franceses.

A coexistência de britânicos e franceses colonizaram não seria caso único. Já tinham colonizado, por exemplo, em condomínio, o arquipélago melanésio de Vanuatu, para desespero dos impotentes indígenas.

De acordo, em 28 de Outubro de 1835, o representante britânico na Nova Zelândia e trinta e quatro chefes maori do norte do território encontraram-se em Waitangi e assinaram a Declaração de Independência da Nova Zelândia.

Quatro anos depois, eram já cinquenta e dois os chefes signatários, unidos sob uma confederação denominada “United Tribes of New Zealand”. O entendimento não se ficaria por aí.

Por volta de 1840, zonas das duas grandes ilhas estavam prestes a ser tomadas pelos francesas. Os colonistas britânicos exerceram forte pressão sobre a Coroa para que oficializasse a Nova Zelândia como colónia britânica. Ao mesmo tempo, os próprios líderes maori reclamaram protecção aos britânicos.

Waitangi: o acordo possível entre Britânicos e Maoris

O Tratado de Waitangi veio, por fim, atender a esse pedido, mas não só. Conferiu aos nativos uma série de outros direitos que, malgrado inevitáveis insatisfações que assolam todas as nações, perduram na Nova Zelândia. Pelo menos no papel, foi reconhecida a posse maori de muitas das suas terras, florestas e outras propriedades. Foram-lhes ainda atribuídos direitos de súbditos britânicos.

Andy Larsen tinha-nos deixado por momentos a explorar os edifícios e outros monumentos do complexo. Quando retomamos a conversa, Andy não parece contemplar qualquer analogia com a história colonial portuguesa e espanhola: “Não me levem a mal, mas não são sequer contextos comparáveis” afiança-nos confiante de que a integração colonial dos britânicos na Nova Zelândia fora bastante mais suave e justa que a das antigas potências ibéricas.

Tínhamos noção de que os seus esforços nos Waitangi Treaty Grounds visavam o fortalecimento da consciência nacional neozelandesa. Ainda assim, para demasiados nativos, a equiparação e autodeterminação que os colonistas britânicos prometeram com o Tradado de Waitangi continua por cumprir.

Como acontecia um pouco por toda Aotearoa – o termo com que os nacionalistas maori responderam à “Nova Zelândia” decorrente da Nieuw Zeeland original do descobridor holandês Abel Tasman – muitas das terras da Bay of Islands que nos encantavam, as suas enseadas e outeiros paradisíacos, suscitavam contestação por terem passado precocemente para a posse de grandes fazendeiros descendentes de colonos ou até mesmo para o governo da Coroa. Assim se mantêm, ou vá lá que seja, em contextos similares.

Noutra das manhãs em que desfrutámos da Bay of Islands, voamos sobre a costa por que se prolonga a Ilha do Norte até ao limite setentrional neozelandês do cabo Reinga. Durante o voo, constatamos o quanto aquela sucessão de dunas, de praias desertas, de prados, charnecas, de cabos e penínsulas marinhos glorificava o domínio antípoda disputado.

Equívocos Difíceis de Ultrapassar

Diferenças nas versões maori e inglesas do Tratado de Waitangi no que dizia respeito à detenção e cedência de soberania conduziram a desacordos de nível nacional. Os sucessivos governos da Coroa fizeram fé em que o Tratado lhes havia concedido soberania sobre os maori.

Entre os maori,  o conceito de detenção absoluta da terra nunca fez qualquer sentido. Estes, continuam ainda hoje a acreditar que se limitaram a conceder aos britânicos o uso das suas terras.

Inúmeras contendas sobre propriedade levaram às Guerras da Nova Zelândia e a que, ao longo do século XIX, os maori perdessem as terras que controlaram séculos a fio. Essa prova-se, ainda hoje, uma das pedras no sapato da coexistência entre os maori e os neozelandeses de descendência colonial.

Em 1975, as autoridades políticas da nação kiwi caíram finalmente em si.  Foi estabelecido o Tribunal de Waitangi que decidiu muitas das reclamações com compensações concedidas às tribos maori. Mesmo se várias divergências sobre os termos do tratado de Waitangi se mantêm, o tratado é considerado o documento fundador da Nova Zelândia.

A maori. A dos descendentes dos colonos. A dos emigrantes das ilhas do Pacífico que lá chegam repletos de sonhos. A dos visitantes europeus deslumbrados que ponderam para lá se mudar. Para o melhor e o pior, a de todos.

Mais informação sobre Waitangi e a Bay of Islands no site respectivo da UNESCO.

Nelson a Wharariki, Nova Zelândia

O Litoral Maori em que os Europeus Deram à Costa

Abel Janszoon Tasman explorava mais da recém-mapeada e mítica "Terra Australis" quando um equívoco azedou o contacto com nativos de uma ilha desconhecida. O episódio inaugurou a história colonial da Nova Zelândia. Hoje, tanto a costa divinal em que o episódio se sucedeu como os mares em redor evocam o navegador holandês.
Wanaka, Nova Zelândia

Que Bem que Se Está no Campo dos Antípodas

Se a Nova Zelândia é conhecida pela sua tranquilidade e intimidade com a Natureza, Wanaka excede qualquer imaginário. Situada num cenário idílico entre o lago homónimo e o místico Mount Aspiring, ascendeu a lugar de culto. Muitos kiwis aspiram a para lá mudar as suas vidas.

Ilha do Norte, Nova Zelândia

A Caminho da Maoridade

A Nova Zelândia é um dos países em que descendentes de colonos e nativos mais se respeitam. Ao explorarmos a sua lha do Norte, inteirámo-nos do amadurecimento interétnico desta nação tão da Commonwealth como maori e polinésia. 

Península de Banks, Nova Zelândia

Divinal Estilhaço de Terra

Vista do ar, a mais óbvia protuberância da costa leste da Ilha do Sul parece ter implodido vezes sem conta. Vulcânica mas verdejante e bucólica, a Península de Banks confina na sua geomorfologia de quase roda-dentada a essência da sempre invejável vida neozelandesa.

Napier, Nova Zelândia

De volta aos Anos 30 - Calhambeque Tour

Numa cidade reerguida em Art Deco e com atmosfera dos "anos loucos" e seguintes, o meio de locomoção adequado são os elegantes automóveis clássicos dessa era. Em Napier, estão por toda a parte.

Queenstown, Nova Zelândia

Digna de uma Raínha

No séc. XVIII, o governo kiwi proclamou uma vila mineira da ilha do Sul "fit for a Queen". Hoje, os cenários e as actividades extremas reforçam o estatuto majestoso da sempre desafiante Queenstown.

Christchurch, Nova Zelândia

O Feiticeiro Amaldiçoado

Apesar da sua notoriedade nos antípodas, Ian Channell o bruxo da Nova Zelândia não conseguiu prever ou evitar vários sismos que assolaram Christchurch. O último obrigou-o a mudar-se para casa da mãe.

Tongariro, Nova Zelândia

Os Vulcões de Todas as Discórdias

No final do século XIX, um chefe indígena cedeu os vulcões de Tongariro à coroa britânica. Hoje, parte significativa do povo maori continua a reclamar aos colonos europeus as suas montanhas de fogo.

Nova Zelândia

Quando Contar Ovelhas Tira o Sono

Há 20 anos, a Nova Zelândia tinha 18 ovinos por cada habitante. Por questões políticas e económicas, a média baixou para metade. Nos antípodas, muitos criadores estão preocupados com o seu futuro.

Mount Cook, Nova Zelândia

O Monte Fura Nuvens

O Aoraki/Monte Cook até pode ficar muito aquém do tecto do Mundo mas é a montanha mais imponente e elevada da Nova Zelândia.

Napier, Nova Zelândia

De Volta aos Anos 30

Devastada por um sismo, Napier foi reconstruida num Art Deco quase térreo e vive a fazer de conta que parou nos thirties. Os seus visitantes rendem-se à atmosfera Great Gatsby que a cidade encena.

The Sounds, Nova Zelândia

Os Fiordes dos Antipodas

Um capricho geológico fez da região de Fiordland a mais crua e imponente da Nova Zelândia. Ano após anos, muitos milhares de visitantes veneram o subdomíno retalhado entre Te Anau e o Mar da Tasmânia.

Minhocas
Arquitectura & Design

Tbilissi, Geórgia

Geórgia ainda com Perfume a Revolução das Rosas

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Pleno Dog Mushing
Aventura

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Em louvor do vulcão
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Hinduísmo Balinês Numa Ilha do Islão

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Vida Quotidiana
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