Península de Banks, Nova Zelândia

Divinal Estilhaço de Terra


Pura Nova Zelândia

Ovelhas pastam sobre um prado inclinado da península de Banks, com o estuário de Akaroa em fundo.

Entroncamento

Sinalização colorida indica povoações e distintas baías da península de Banks.

“Esses” campestres

Carro desce uma das estradas que conduz do cimo interior da península em direcção ao nível do mar.

Ao abrigo do Pacífico do Sul

Casario de Akaroa, a principal povoação da península de Banks.

Fire & Ice

Crianças fazem compras numa loja afrancesada de Akaroa.

Vida de Vivenda

Moradias de Akaroa dispostas encosta abaixo até ao braço de mar.

Bovinos curiosos

Manada de vacas quebra o enorme predomínio das ovelhas na Nova Zelândia e na Península de Banks.

Conversa interminável

Obra de arte caseira numa vivenda de Akaroa.

Hora de Pasto

Rebanho de ovelhas deixa uma estação ovelheira.

Promos a Giz

Moradoras de Akaroa passam por quadros promocionais de um bar-pousada da cidade.

Salpicos ovinos

Ovelhas disseminadas por um prado verdejante da Península de Banks.

Vista do ar, a mais óbvia protuberância da costa leste da Ilha do Sul parece ter implodido vezes sem conta. Vulcânica mas verdejante e bucólica, a Península de Banks confina na sua geomorfologia de quase roda-dentada a essência da sempre invejável vida neozelandesa.

As cidades neozelandesas são realmente especiais. Ainda mal deixámos o centro histórico de Christchurch e o verde campestre, seja ou não rural, predomina. Assalta-nos a noção de que em poucos territórios se terão os colonos britânicos sentido tão em casa como neste, descaído nos antípodas. O percurso já pouco ou nada tem de urbano quando vislumbramos, através de um velho gradeamento de jardim, um grupo de jogadores de cricket trajados de branco e polidos e requintados a rigor, à boa maneira aristocrática british. Por si só, o desporto não ia bem nem connosco nem com nenhum latino à face da terra. Mesmo assim, quisemos perceber e testemunhar o que fazia aqueles jovens jogadores levantarem-se tão cedo num sábado de manhã para se entregarem aos seus bats e aos wickets.

Instalámo-nos sobre o relvado quase-perfeito, o mais perto possível do limite da área de jogo em que alguns outros conviviam entre si e com amigas e namoradas, sentados ou deitados com as cabeças sobre os sacos de desporto, de cervejas na mão, à espera da sua vez de entrar em cena. A cada erro mais grosseiro, os de reserva desatam a rir à gargalhada e prendam-nos com uma série de piadas que caiam melhor entre as miúdas na assistência que junto dos compinchas no activo, competitivos e desesperados por concentração. Mal estes últimos saíam do rectângulo alongado em que jogavam, refrescavam-se, instalavam-se e assumiam o papel de chatos jocosos dos seus substitutos. Para nosso desgosto, por mais turnos que se sucedessem, a sua forte pronúncia kiwi e algum vocabulário técnico da modalidade ou da gíria neozelandesa impediam-nos de perceber boa parte das sátiras.

Acompanhamos esta alternância por quase uma hora mas, sabíamos o quanto podia durar uma partida de cricket. Mesmo tratando-se de um confronto amador, não quisemos arriscar.

Já tínhamos testemunhado o prazer genuíno que aqueles adolescentes aparentemente empertigados mas descontraídos e cool retiravam do desporto. Ainda estávamos longe de compreender como eles, os seus pais, tios e o grosso do universo masculino anglófono incluindo da Índia, do Bangladesh, do Paquistão e das Índias Ocidentais suportavam partidas na TV que se arrastavam por quatro ou cinco dias.

A Nova Zelândia era, ali em redor, mais deslumbrante que nunca. Com o tempo contado, regressamos ao carro e apontamos para uma tal de Península de Banks, lugar que tanto nos haviam elogiado nos últimos dias.

A caminho, detemo-nos no cimo de Port Hills. Depois, em Lyttelton que jaz à beira-mar, no fundo de uma encosta íngreme e longa que descemos aos “esses”. Foi naquele mesmo litoral num desequilíbrio aflitivo que desembarcaram, em 1850, os primeiros colonos europeus. Ali inauguraram uma caminhada histórica colinas acima. Viriam a aglomerar-se na que se tornou a maior das cidades da Ilha do Sul, baptizada de Christchurch, à imagem saudosista da modelo de Dorset que espreita o Canal da Mancha.

Contornamos o grande estuário de Lyttelton até outra via cimeira de seu nome Gebbles Pass Road e à encumeada suprema do Monte Herbert (920m). Encostamos o carro junto a um café de montanha pitoresco instalado no piso térreo de um chalé de madeira. Compramos bebidas quentes para disfarçar a frigidez do vento. Enquanto as bebericamos, admiramos o cenário surreal que se estende para diante e para baixo.

Do topo da encosta para sudoeste, a estrada livra-se das árvores que a envolvem. Desvenda-nos um cenário simultaneamente bucólico e selvagem de cortar a respiração. Prolonga-se por um declive gradual, forrado por uma manta relvada de retalhos de vários tons de verde e amarelo em que pastam milhares de ovelhas. A anunciar o Oceano Pacífico, surge, então, a baía de Akaroa, de tal forma escondida pelas colinas costeiras, que se disfarça de lago.

Por essa altura, não tínhamos ainda noção. Vista do ar, a Península de Banks parece ter sido vítima de um mega teste nuclear. A sua superfície irregular e fragmentada, repleta de pequenos cumes, baías e recortes geológicos invadidos pelo mar, resultou da longa erosão de dois estratovulcões, o Lyttelton e o Akaroa que chegaram a ter mil e quinhentos metros de altitude. Mas, se esta descrição suscita um imaginário rochoso e inóspito, a realidade revela-se bem distinta. Mesmo surreal como assim a descobríamos, a península era, ao mesmo tempo deslumbrante e aconchegante. Acolhia quase oito mil almas atraídas pela qualidade de vida daquela espécie de Éden ervado. Já por lá tinham passado nossos compatriotas. Deixaram uma herança que nos entrou pelos olhos adentro quando alcançamos Akaroa, a única povoação a sério da península.

“Exacto. Chamava-se António Rodrigues. Era português …” assegura a empregada do outro lado do balcão do Bar Hotel Madeira. O mistério instala-se. Que fazia ali, naquele recanto antíctone do planeta, um estabelecimento de origem lusa? Para o apurar, recuámos no tempo, à era da colonização neozelandesa em que o povo maori ainda dominava a maior parte da Ilha do Sul.

Apuramos que Akaroa foi avistada pelo navegador James Cook em 1770. À sua passagem, Cook pensou tratar-se de uma ilha. Baptizou-a em nome do naturalista Sir Joseph Banks. Em 1831, a tribo maori residente Ngai Tahu foi atacada pela riva Ngati Toa. Este conflito causou uma diminuição drástica da população nativa. Facilitou a vida e as intenções de um capitão baleeiro francês denominado Jean Francois L’Anglois. Nove anos depois, L’Anglois comprou a península aos nativos que encontrou. Com o apoio do governo da metrópole ofereceu passagens de barco e conseguiu incentivar mais 63 colonos franceses a lá se instalarem. Apenas alguns dias antes de estes chegarem, oficiais britânicos enviaram um navio de guerra e hastearam uma Union Jack. Reclamaram a sua posse da península e território em redor sob o auspício do Tratado de Waitangi, segundo o qual os chefes maori reconheciam a soberania britânica sobre a Nova Zelândia em geral.  

A gente de Akaroa gosta de sublinhar aos visitantes que, caso os povoadores franceses tivessem desembarcado na península dois dias antes, toda a Ilha do Sul poderia ser hoje francesa.

Esses mesmos franceses acabaram por se instalar em Akaroa. Em 1849, venderam a sua reinvidicação de posse à New Zealand Company. No ano seguinte, um grupo avultado de colonos britânicos assentou arraiais e começou a desmatar a terra então densamente florestada para garantir a criação de gado.

As casas da vila e diversos nomes de ruas e lugares ajudam a confirmar a autenticidade e seriedade daquela que foi a única colónia da França na Nova Zelândia. Mas, como é costume nestas novelas das descobertas e colonizações, também os portugueses estiveram envolvidos.

Nos primeiros anos do século XIX, a caça à baleia era uma das actividades que mais atraía os europeus ao downunder. Durante esse período, os baleeiros americanos e franceses incluíam frequentemente, nas suas tripulações polinésios e portugueses das ilhas. Eventualmente ligado a esse influxo, António Rodrigues, chegou da Madeira. Instalou-se na povoação onde viria a construir e a adquirir alguns edifícios, entre os quais o Hotel Madeira que, agora, num estilo clássico de guest-house combinada com british pub, continua a funcionar destacado do casario mais baixo.

Akaroa (enseada comprida, no dialecto maori da zona) é, hoje, um vilarejo cosmopolita. Apreciado de uns quilómetros península acima, revela-se um postal imaculado, com o seu casario colorido na base de duas encostas opostas e a invadir o Akaroa Harbour, uma incrível baía escondida do oceano, de águas azul-bebé.

Ao longo da rua marginal repetem-se os bares e restaurantes, lojas de artesanato e recordações, pousadas e hotéis todos eles coloridos e pitorescos, que exploram a beleza singular do lugar e sua a atmosfera afrancesada. Chalés lilases e cor-de-rosa com nomes como “Chez La Mer”, “La Belle Villa” ou “C’est la Vie” aliciam mochileiros a alguns dias de estadia perfumada pela natureza, o que inclui distintos aromas da prolífica pecuária local.

Entre os filmes em exibição no cinema local conta-se uma reposição anglófila de “Bienvenue Chez Les Ch’tis” a comédia de Dany Boon que se diverte e divertiu mais de 20 milhões de espectadores franceses – um novo recorde da nação – a caricaturar as peculiaridades das gentes do extremo norte de França.  

Em redor de Akaroa, a Península de Banks descamba em cenários bem mais extremos. Enquanto percorremos o seu perímetro de roda-dentada, sucedem-se enseadas profundas e escarpadas que escondem riachos e praias desertas. A espaços, surpreendem-nos fazendas ovelheiras. Os seus rebanhos imensos contribuem para que a Nova Zelândia tenha onze vezes mais ovinos que humanos. Quando não permanecem nelas concentrados, as ovelhas salpicam vastos prados desnivelados e empoleiram-se em arestas finas disfarçadas pela erva, paredes meias com falésias abruptas que se precipitam no Pacífico do Sul.

Ao exploramos este fascinante domínio vulcânico-pecuário passamos sobre incontáveis grelhas de estrada que impedem que o gado abandone as propriedades e se tresmalhe. Noutras fazendas em que esta solução se provou falível, vemo-nos forçados a deixar o carro e a abrir e a fechar velhos portões de madeira maciça.

De quando em quando, damos com negócios familiares perdidos no nada e que parecem só se activar quando detectam a aproximação dos veículos dos forasteiros. Na insignificante povoação de Okains Bay, uma pequena mercearia-bar coexiste com uma oficina automóvel. São ambas epónimas. Mantêm ao dispor das gentes da terra e dos de fora uma cabine telefónica com o mesmo verde-vermelho e perfil arquitectónico das estações ovelheiras.

Interrompemos a descoberta na Okains Bay Store para saborearmos gelados e o derradeiro sol do dia. Talvez porque nos aproximámos devagar, ao fim de três ou quatro minutos, não aparece ninguém para nos atender. Quando, por fim, alguém escuta os nossos chamamentos surgem duas jovens irmãs, tímidas mas habituadas a safar os pais na sua ausência. Servem-nos gelados da caixa frigorífica e fazem as contas sem qualquer receio ou atrapalhação. Ainda nos ocorreu que estariam à altura de nos dar indicações para uma outra baía profunda. Juntou-se-nos, no entanto, um pequeno grupo de residentes que, malgrado a quase inteligível pronúncia kiwi, se prontificaram a ajudar.

Até escurecer, limitámo-nos a contornar a Península de Banks, deliciados com os seus incontáveis caprichos geológicos e com as vidas tão terra-a-terra que a eles se adaptaram.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As cidades neozelandesas são realmente especiais. Ainda mal deixámos o centro histórico de Christchurch e o verde campestre, seja ou não rural, predomina. Assalta-nos a noção de que em poucos territórios se terão os colonos britânicos sentido tão em casa como neste, descaído nos antípodas. O percurso já pouco ou nada tem de urbano quando vislumbramos, através de um velho gradeamento de jardim, um grupo de jogadores de cricket trajados de branco e polidos e requintados a rigor, à boa maneira aristocrática british. Por si só, o desporto não ia bem nem connosco nem com nenhum latino à face da terra. Mesmo assim, quisemos perceber e testemunhar o que fazia aqueles jovens jogadores levantarem-se tão cedo num sábado de manhã para se entregarem aos seus bats e aos wickets.

Instalámo-nos sobre o relvado quase-perfeito, o mais perto possível do limite da área de jogo em que alguns outros conviviam entre si e com amigas e namoradas, sentados ou deitados com as cabeças sobre os sacos de desporto, de cervejas na mão, à espera da sua vez de entrar em cena. A cada erro mais grosseiro, os de reserva desatam a rir à gargalhada e prendam-nos com uma série de piadas que caiam melhor entre as miúdas na assistência que junto dos compinchas no activo, competitivos e desesperados por concentração. Mal estes últimos saíam do rectângulo alongado em que jogavam, refrescavam-se, instalavam-se e assumiam o papel de chatos jocosos dos seus substitutos. Para nosso desgosto, por mais turnos que se sucedessem, a sua forte pronúncia kiwi e algum vocabulário técnico da modalidade ou da gíria neozelandesa impediam-nos de perceber boa parte das sátiras.

Acompanhamos esta alternância por quase uma hora mas, sabíamos o quanto podia durar uma partida de cricket. Mesmo tratando-se de um confronto amador, não quisemos arriscar.

Já tínhamos testemunhado o prazer genuíno que aqueles adolescentes aparentemente empertigados mas descontraídos e cool retiravam do desporto. Ainda estávamos longe de compreender como eles, os seus pais, tios e o grosso do universo masculino anglófono incluindo da Índia, do Bangladesh, do Paquistão e das Índias Ocidentais suportavam partidas na TV que se arrastavam por quatro ou cinco dias.

A Nova Zelândia era, ali em redor, mais deslumbrante que nunca. Com o tempo contado, regressamos ao carro e apontamos para uma tal de Península de Banks, lugar que tanto nos haviam elogiado nos últimos dias.

A caminho, detemo-nos no cimo de Port Hills. Depois, em Lyttelton que jaz à beira-mar, no fundo de uma encosta íngreme e longa que descemos aos “esses”. Foi naquele mesmo litoral num desequilíbrio aflitivo que desembarcaram, em 1850, os primeiros colonos europeus. Ali inauguraram uma caminhada histórica colinas acima. Viriam a aglomerar-se na que se tornou a maior das cidades da Ilha do Sul, baptizada de Christchurch, à imagem saudosista da modelo de Dorset que espreita o Canal da Mancha.

Contornamos o grande estuário de Lyttelton até outra via cimeira de seu nome Gebbles Pass Road e à encumeada suprema do Monte Herbert (920m). Encostamos o carro junto a um café de montanha pitoresco instalado no piso térreo de um chalé de madeira. Compramos bebidas quentes para disfarçar a frigidez do vento. Enquanto as bebericamos, admiramos o cenário surreal que se estende para diante e para baixo.

Do topo da encosta para sudoeste, a estrada livra-se das árvores que a envolvem. Desvenda-nos um cenário simultaneamente bucólico e selvagem de cortar a respiração. Prolonga-se por um declive gradual, forrado por uma manta relvada de retalhos de vários tons de verde e amarelo em que pastam milhares de ovelhas. A anunciar o Oceano Pacífico, surge, então, a baía de Akaroa, de tal forma escondida pelas colinas costeiras, que se disfarça de lago.

Por essa altura, não tínhamos ainda noção. Vista do ar, a Península de Banks parece ter sido vítima de um mega teste nuclear. A sua superfície irregular e fragmentada, repleta de pequenos cumes, baías e recortes geológicos invadidos pelo mar, resultou da longa erosão de dois estratovulcões, o Lyttelton e o Akaroa que chegaram a ter mil e quinhentos metros de altitude. Mas, se esta descrição suscita um imaginário rochoso e inóspito, a realidade revela-se bem distinta. Mesmo surreal como assim a descobríamos, a península era, ao mesmo tempo deslumbrante e aconchegante. Acolhia quase oito mil almas atraídas pela qualidade de vida daquela espécie de Éden ervado. Já por lá tinham passado nossos compatriotas. Deixaram uma herança que nos entrou pelos olhos adentro quando alcançamos Akaroa, a única povoação a sério da península.

“Exacto. Chamava-se António Rodrigues. Era português …” assegura a empregada do outro lado do balcão do Bar Hotel Madeira. O mistério instala-se. Que fazia ali, naquele recanto antíctone do planeta, um estabelecimento de origem lusa? Para o apurar, recuámos no tempo, à era da colonização neozelandesa em que o povo maori ainda dominava a maior parte da Ilha do Sul.

Apuramos que Akaroa foi avistada pelo navegador James Cook em 1770. À sua passagem, Cook pensou tratar-se de uma ilha. Baptizou-a em nome do naturalista Sir Joseph Banks. Em 1831, a tribo maori residente Ngai Tahu foi atacada pela riva Ngati Toa. Este conflito causou uma diminuição drástica da população nativa. Facilitou a vida e as intenções de um capitão baleeiro francês denominado Jean Francois L’Anglois. Nove anos depois, L’Anglois comprou a península aos nativos que encontrou. Com o apoio do governo da metrópole ofereceu passagens de barco e conseguiu incentivar mais 63 colonos franceses a lá se instalarem. Apenas alguns dias antes de estes chegarem, oficiais britânicos enviaram um navio de guerra e hastearam uma Union Jack. Reclamaram a sua posse da península e território em redor sob o auspício do Tratado de Waitangi, segundo o qual os chefes maori reconheciam a soberania britânica sobre a Nova Zelândia em geral.

A gente de Akaroa gosta de sublinhar aos visitantes que, caso os povoadores franceses tivessem desembarcado na península dois dias antes, toda a Ilha do Sul poderia ser hoje francesa.

Esses mesmos franceses acabaram por se instalar em Akaroa. Em 1849, venderam a sua reinvidicação de posse à New Zealand Company. No ano seguinte, um grupo avultado de colonos britânicos assentou arraiais e começou a desmatar a terra então densamente florestada para garantir a criação de gado.

As casas da vila e diversos nomes de ruas e lugares ajudam a confirmar a autenticidade e seriedade daquela que foi a única colónia da França na Nova Zelândia. Mas, como é costume nestas novelas das descobertas e colonizações, também os portugueses estiveram envolvidos.

Nos primeiros anos do século XIX, a caça à baleia era uma das actividades que mais atraía os europeus ao downunder. Durante esse período, os baleeiros americanos e franceses incluíam frequentemente, nas suas tripulações polinésios e portugueses das ilhas. Eventualmente ligado a esse influxo, António Rodrigues, chegou da Madeira. Instalou-se na povoação onde viria a construir e a adquirir alguns edifícios, entre os quais o Hotel Madeira que, agora, num estilo clássico de guest-house combinada com british pub, continua a funcionar destacado do casario mais baixo.

Akaroa (enseada comprida, no dialecto maori da zona) é, hoje, um vilarejo cosmopolita. Apreciado de uns quilómetros península acima, revela-se um postal imaculado, com o seu casario colorido na base de duas encostas opostas e a invadir o Akaroa Harbour, uma incrível baía escondida do oceano, de águas azul-bebé.

Ao longo da rua marginal repetem-se os bares e restaurantes, lojas de artesanato e recordações, pousadas e hotéis todos eles coloridos e pitorescos, que exploram a beleza singular do lugar e sua a atmosfera afrancesada. Chalés lilases e cor-de-rosa com nomes como “Chez La Mer”, “La Belle Villa” ou “C’est La Vie” aliciam mochileiros a alguns dias de estadia perfumada pela natureza, o que inclui distintos aromas da prolífica pecuária local.

Entre os filmes em exibição no cinema local conta-se uma reposição anglófila de “Bienvenue Chez Les Ch’tis” a comédia de Dany Boon que se diverte e divertiu mais de 20 milhões de espectadores franceses – um novo recorde da nação – a caricaturar as peculiaridades das gentes do extremo norte de França.

 

Em redor de Akaroa, a Península de Banks descamba em cenários bem mais extremos. Enquanto percorremos o seu perímetro de roda-dentada, sucedem-se enseadas profundas e escarpadas que escondem riachos e praias desertas. A espaços, surpreendem-nos fazendas ovelheiras. Os seus rebanhos imensos contribuem para que a Nova Zelândia tenha onze vezes mais ovinos que humanos. Quando não permanecem nelas concentrados, as ovelhas salpicam vastos prados desnivelados e empoleiram-se em arestas finas disfarçadas pela erva, paredes meias com falésias abruptas que se precipitam no Pacífico do Sul.

Ao exploramos este fascinante domínio vulcânico-pecuário passamos sobre incontáveis grelhas de estrada que impedem que o gado abandone as propriedades e se tresmalhe. Noutras fazendas em que esta solução se provou falível, vemo-nos forçados a deixar o carro e a abrir e a fechar velhos portões de madeira maciça.

De quando em quando, damos com negócios familiares perdidos no nada e que parecem só se activar quando detectam a aproximação dos veículos dos forasteiros. Na insignificante povoação de Okains Bay, uma pequena mercearia-bar coexiste com uma oficina automóvel. São ambas epónimas. Mantêm ao dispor das gentes da terra e dos de fora uma cabine telefónica com o mesmo verde-vermelho e perfil arquitectónico das estações ovelheiras.

Interrompemos a descoberta na Okains Bay Store para saborearmos gelados e o derradeiro sol do dia. Talvez porque nos aproximámos devagar, ao fim de três ou quatro minutos, não aparece ninguém para nos atender. Quando, por fim, alguém escuta os nossos chamamentos surgem duas jovens irmãs, tímidas mas habituadas a safar os pais na sua ausência. Servem-nos gelados da caixa frigorífica e fazem as contas sem qualquer receio ou atrapalhação. Ainda nos ocorreu que estariam à altura de nos dar indicações para uma outra baía profunda. Juntou-se-nos, no entanto, um pequeno grupo de residentes que, malgrado a quase inteligível pronúncia kiwi, se prontificaram a ajudar.

Até escurecer, limitámo-nos a contornar a Península de Banks, deliciados com os seus incontáveis caprichos geológicos e com as vidas tão terra-a-terra que a eles se adaptaram.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nelson a Wharariki, Nova Zelândia

O Litoral Maori em que os Europeus Deram à Costa

Abel Janszoon Tasman explorava mais da recém-mapeada e mítica "Terra Australis" quando um equívoco azedou o contacto com nativos de uma ilha desconhecida. O episódio inaugurou a história colonial da Nova Zelândia. Hoje, tanto a costa divinal em que o episódio se sucedeu como os mares em redor evocam o navegador holandês.
Bay of Islands, Nova Zelândia

O Âmago Civilizacional da Nova Zelândia

Waitangi é o lugar chave da Independência e da já longa coexistência dos nativos maori com os colonos britânicos. Na Bay of Islands em redor, celebra-se a beleza idílico-marinha dos antípodas neozelandeses mas também a complexa e fascinante nação kiwi.
Wanaka, Nova Zelândia

Que Bem que Se Está no Campo dos Antípodas

Se a Nova Zelândia é conhecida pela sua tranquilidade e intimidade com a Natureza, Wanaka excede qualquer imaginário. Situada num cenário idílico entre o lago homónimo e o místico Mount Aspiring, ascendeu a lugar de culto. Muitos kiwis aspiram a para lá mudar as suas vidas.

Ilha do Norte, Nova Zelândia

A Caminho da Maoridade

A Nova Zelândia é um dos países em que descendentes de colonos e nativos mais se respeitam. Ao explorarmos a sua lha do Norte, inteirámo-nos do amadurecimento interétnico desta nação tão da Commonwealth como maori e polinésia. 

Vulcões

Montanhas de Fogo

Rupturas mais ou menos proeminentes da crosta terrestre, os vulcões podem revelar-se tão exuberantes quanto caprichosos. Algumas das suas erupções são gentis, outras provam-se aniquiladoras.
Napier, Nova Zelândia

De volta aos Anos 30 - Calhambeque Tour

Numa cidade reerguida em Art Deco e com atmosfera dos "anos loucos" e seguintes, o meio de locomoção adequado são os elegantes automóveis clássicos dessa era. Em Napier, estão por toda a parte.

Queenstown, Nova Zelândia

Digna de uma Raínha

No séc. XVIII, o governo kiwi proclamou uma vila mineira da ilha do Sul "fit for a Queen". Hoje, os cenários e as actividades extremas reforçam o estatuto majestoso da sempre desafiante Queenstown.

Victoria, Austrália

No Grande Sul Australiano

Uma das evasões preferidas dos habitantes de Melbourne, a estrada B100 desvenda um litoral sublime que o oceano moldou. E bastam alguns km para perceber porque foi baptizada The Great Ocean Road.

Christchurch, Nova Zelândia

O Feiticeiro Amaldiçoado

Apesar da sua notoriedade nos antípodas, Ian Channell o bruxo da Nova Zelândia não conseguiu prever ou evitar vários sismos que assolaram Christchurch. O último obrigou-o a mudar-se para casa da mãe.

Tongariro, Nova Zelândia

Os Vulcões de Todas as Discórdias

No final do século XIX, um chefe indígena cedeu os vulcões de Tongariro à coroa britânica. Hoje, parte significativa do povo maori continua a reclamar aos colonos europeus as suas montanhas de fogo.

Nova Zelândia

Quando Contar Ovelhas Tira o Sono

Há 20 anos, a Nova Zelândia tinha 18 ovinos por cada habitante. Por questões políticas e económicas, a média baixou para metade. Nos antípodas, muitos criadores estão preocupados com o seu futuro.

Mount Cook, Nova Zelândia

O Monte Fura Nuvens

O Aoraki/Monte Cook até pode ficar muito aquém do tecto do Mundo mas é a montanha mais imponente e elevada da Nova Zelândia.

Cocquete
Arquitectura & Design

Napier, Nova Zelândia

De Volta aos Anos 30

Devastada por um sismo, Napier foi reconstruida num Art Deco quase térreo e vive a fazer de conta que parou nos thirties. Os seus visitantes rendem-se à atmosfera Great Gatsby que a cidade encena.

Aventura
De Barco

Desafios Para Quem Só Enjoa de Navegar na Net

Embarque de corpo e alma nestas viagens e deixe-se levar pela adrenalina ou pela imponência de cenários tão dispares como o arquipélago filipino de Bacuit e o mar gelado do Golfo finlandês de Bótnia.
Cerimónias e Festividades
Militares

Defensores das Suas Pátrias

Detectamo-los por todo o lado, mesmo em tempos de paz. A maior parte dos que encontramos a postos, nas cidades, cumpre apenas missões rotineiras que requerem, acima de tudo, rigor e paciência.
Marcha Patriota
Cidades

Taiwan

Formosa mas Não Segura

Os navegadores portugueses não podiam imaginar o imbróglio reservado à ilha que os encantou. Passados quase 500 anos, Taiwan prospera, algures entre a independência e a integração na grande China.

Vendedores de Tsukiji
Comida

Tóquio, Japão

No Reino do Sashimi

Num ano apenas, cada japonês come mais que o seu peso em peixe e marisco. Uma parte considerável é processada e vendida por 65 mil habitantes de Tóquio no maior mercado piscícola do mundo.

As forças ocupantes
Cultura

Lhasa, Tibete

A Sino-Demolição do Tecto do Mundo

Qualquer debate sobre soberania é acessório e uma perda de tempo. Quem quiser deslumbrar-se com a pureza, a afabilidade e o exotismo da cultura tibetana deve visitar o território o quanto antes. A ganância civilizacional Han que move a China não tardará a soterrar o milenar Tibete. 

Bola de volta
Desporto

Melbourne, Austrália

O Futebol em que os Australianos Ditam as Regras

Apesar de praticado desde 1841, o AFL Rules football só conquistou parte da grande ilha. A internacionalização nunca passou do papel, travada pela concorrência do râguebi e do futebol clássico.

Por Chame
Em Viagem
Circuito Anapurna: 1º Pokhara a Chame, Nepal

Por Fim, a Caminho

Depois de vários dias de preparação em Pokhara, partimos em direcção aos Himalaias. O percurso pedestre só o começamos em Chame, a 2670 metros de altitude, com os picos nevados da cordilheira Annapurna já à vista. Até lá, completamos um doloroso mas necessário preâmbulo rodoviário pela sua base subtropical.
Jingkieng Wahsurah
Étnico
Meghalaya, Índia

Pontes de Povos que Criam Raízes

A imprevisibilidade dos rios na região mais chuvosa à face da Terra nunca demoveu os Khasi e os Jaintia. Confrontadas com a abundância de árvores ficus elastica nos seus vales, estas etnias habituaram-se a moldar-lhes os ramos e estirpes. Da sua tradição perdida no tempo, legaram centenas de pontes de raízes deslumbrantes às futuras gerações.
Luminosidade caprichosa no Grand Canyon
Fotografia
Luz Natural (Parte 1)

E Fez-se Luz na Terra. Saiba usá-la.

O tema da luz na fotografia é inesgotável. Neste artigo, transmitimos-lhe algumas noções basilares sobre o seu comportamento, para começar, apenas e só face à geolocalização, a altura do dia e do ano.
Celebração Nahuatl
História

Cidade do México, México

Alma Mexicana

Com mais de 20 milhões de habitantes numa vasta área metropolitana, esta megalópole marca, a partir do seu cerne de zócalo, o pulsar espiritual de uma nação desde sempre vulnerável e dramática.

Street Scooter scene
Ilhas
Key West, E.U.A.

O Faroeste Tropical dos E.U.A.

Chegamos ao fim da Overseas Highway e ao derradeiro reduto das propagadas Florida Keys. Os Estados Unidos continentais entregam-se, aqui, a uma deslumbrante vastidão marinha esmeralda-turquesa. E a um devaneio meridional alentado por uma espécie de feitiço caribenho.
Tempo de aurora
Inverno Branco

Lapónia Finlandesa

Em Busca da Raposa de Fogo

São exclusivas dos píncaros da Terra as auroras boreais ou austrais, fenómenos de luz gerados por explosões solares. Os nativos Sami da Lapónia acreditavam tratar-se de uma raposa ardente que espalhava brilhos no céu. Sejam o que forem, nem os quase 30º abaixo de zero que se faziam sentir no extremo norte da Finlândia nos demoveram de as admirar.

Baie d'Oro
Literatura

Île-des-Pins, Nova Caledónia

A Ilha que se Encostou ao Paraíso

Em 1964, Katsura Morimura deliciou o Japão com um romance-turquesa passado em Ouvéa. Mas a vizinha Île-des-Pins apoderou-se do título "A Ilha mais próxima do Paraíso" e extasia os seus visitantes.

Esqui
Natureza

Lapónia, Finlândia

Sob o Encanto Gélido do Árctico

Estamos a 66º Norte e às portas da Lapónia. Por estes lados, a paisagem branca é de todos e de ninguém como as árvores cobertas de neve, o frio atroz e a noite sem fim.

Filhos da Mãe-Arménia
Outono
Erevan, Arménia

Uma Capital entre o Leste e o Ocidente

Herdeira da civilização soviética, alinhada com a grande Rússia, a Arménia deixa-se seduzir pelos modos mais democráticos e sofisticados da Europa Ocidental. Nos últimos tempos, os dois mundos têm colidido nas ruas da sua capital. Da disputa popular e política, Erevan ditará o novo rumo da nação.
Recompensa Kukenam
Parques Naturais

Monte Roraima, Venezuela

Uma Ilha no Tempo

Perduram no cimo do Mte. Roraima cenários extraterrestres que resistiram a milhões de anos de erosão. Conan Doyle criou, em "O Mundo Perdido", uma ficção inspirada no lugar mas nunca o chegou a pisar.

Aposentos dourados
Património Mundial Unesco

Sheki, Azerbaijão

Outono no Cáucaso

Perdida entre as montanhas nevadas que separam a Europa da Ásia, Sheki é uma das povoações mais emblemáticas do Azerbaijão. A sua história em grande parte sedosa inclui períodos de grande aspereza. Quando a visitámos, tons pastéis de Outono davam mais cor a uma peculiar vida pós-soviética e muçulmana.

Cabana de Brando
Personagens

Apia, Samoa Ocidental

A Anfitriã do Pacífico do Sul

Vendeu burgers aos GI’s na 2ª Guerra Mundial e abriu um hotel que recebeu Marlon Brando e Gary Cooper. Aggie Grey faleceu em 1988 mas o seu legado de acolhimento perdura no Pacífico do Sul.

Pacífico celestial
Praia
Moorea, Polinésia Francesa

A Irmã Polinésia que Qualquer Ilha Gostaria de Ter

A meros 17km de Taiti, Moorea não conta com uma única cidade e abriga um décimo dos habitantes. Há muito que os taitianos veem o sol pôr-se e transformar a ilha ao lado numa silhueta enevoada para, horas depois, lhe devolver as cores e formas exuberantes. Para quem visita estas paragens longínquas do Pacífico, conhecer também Moorea é um privilégio a dobrar.
Rumo ao vale
Religião
Alaverdi, Arménia

Um Teleférico Chamado Ensejo

O cimo da garganta do rio Debed esconde os mosteiros arménios de Sanahin e Haghpat e blocos de apartamentos soviéticos em socalcos. O seu fundo abriga a mina e fundição de cobre que sustenta a cidade. A ligar estes dois mundos, está uma cabine suspensa providencial em que as gentes de Alaverdi contam viajar na companhia de Deus.
Assento do sono
Sobre carris

Tóquio, Japão

Os Hipno-Passageiros de Tóquio

O Japão é servido por milhões de executivos massacrados com ritmos de trabalho infernais e escassas férias. Cada minuto de tréguas a caminho do emprego ou de casa lhes serve para passarem pelas brasas

Formação
Sociedade

Jerusalém, Israel

Em Festa no Muro das Lamentações

Nem só a preces e orações atende o lugar mais sagrado do judaísmo. As suas pedras milenares testemunham, há décadas, o juramento dos novos recrutas das IDF e ecoam os gritos eufóricos que se seguem.

Fim da Viagem
Vida Quotidiana

Talkeetna, Alasca

Vida à Moda do Alasca

Em tempos um mero entreposto mineiro, Talkeetna rejuvenesceu, em 1950, para servir os alpinistas do Monte McKinley. A povoação é, de longe, a mais alternativa e cativante entre Anchorage e Fairbanks.

Glaciar Meares
Vida Selvagem

Prince William Sound, Alasca

Alasca Colossal

Encaixado contra as montanhas Chugach, Prince William Sound abriga alguns dos cenários descomunais do 49º estado. Nem sismos poderosos nem uma maré negra devastadora afectaram o seu esplendor natural.

Pleno Dog Mushing
Voos Panorâmicos

Glaciar de Godwin, Alasca

Dog mushing estival

Estão quase 30º e os glaciares degelam. No Alasca, os empresários têm pouco tempo para enriquecer. Até ao fim de Agosto, os cães e os trenós não podem parar.