Chapada Diamantina, Brasil

Bahia de Gema


Salto fingido

Guia Negão finge um salto depois de contar a visitantes a lenda do Pai Inácio.

Rua de Igatu

Casario colorido da aldeia mineira de Igatu.

Catinga crepusculrar

Sol põe-se sobre a catinga da Chapada Diamantina.

Gruta

Guia ilumina a entrada da gruta da Lapa Doce.

Arco natural

Visitantes banham-se numa lagoa a caminho da cachoeira do Sossego.

Conserto

Nativo troca telhas de uma casa típica de Igatu.

Anjo

Escultura de anjo à entrada de um cemitério em Igatu.

Vista do Morro do Pai Inácio

As mesetas da Chapada Diamantina vistas do cimo do Morro do Pai Inácio.

Ioga de férias

Forasteira exercita poses de Ioga no Ribeirão do Meio.

Natação em águas cristalinas

Visitante nada na Pratinha, uma lagoa com visual marinho apesar de estar a mais de 300km do Oceano Atlântico.

Na base da Chapada

Prado baixo cobre um dos desfiladeiros da Chapada Diamantina.

Até ao final do séc. XIX, a Chapada Diamantina foi uma terra de prospecção e ambições desmedidas.Agora que os diamantes rareiam os forasteiros anseiam descobrir as suas mesetas e galerias subterrâneas

A caminhada prova-se bem mais curta do que esperávamos. Favorecido pela magreza e pelo treino de inúmeras subidas, Negão chega ao topo sem arfar, instala-se sobre uma pedra arredondada e deixa-nos à vontade para explorarmos os recantos repletos de cactos da meseta. Tiv

emos, dali, a primeira de várias panorâmicas a 360º da Chapada Diamantina e a noção inaugural da sua inesperada imponência. Um desfiladeiro coberto de prado prolonga-se a perder de vista, bem marcado pelas encostas dos pequenos planaltos opostos. Outros anunciam-se à distância numa sequência que aparenta não ter fim de canyons elevados do vasto Sertão. Cenários deste tipo são quase sempre esculpidos por erosões de grande intensidade. A Chapada não fugiu à regra.

Há mais de 600 milhões de anos, muito antes da fragmentação do supercontinente Pangeia, esta região era adjacente à zona da actual Namíbia, ainda hoje uma das mais importantes reservas diamantíferas do Mundo. Os diamantes locais foram cristalizados naquela área, misturados com seixos e arrastados para a profundeza do mar que cobria aquilo que é agora o interior do Brasil. Com o passar do tempo, o mar recuou. O seu leito transformou-se numa camada de pedra conglomerada que aprisionou as gemas. Mais tarde, essa camada foi elevada pelas movimentações tectónicas e exposta a um intenso desgaste que acabou por depositar os diamantes no leito dos rios, à espera dos primeiros felizardos.

Um pouco mais seca – talvez numa época de chuva rara – o cenário que temos perante os olhos poderia ter-se revelado perfeito para acolher cenas de “Westerns Spaghetti” que, de qualquer maneira, já tinham profanado a longa exclusividade da pátria cowboy. Além disso, esta região manteve-se um verdadeiro “faroeste” durante séculos a fio, povoada pelos índios Maracás que atacavam os aventureiros e colonos que chegavam atraídos por notícias da primeira riqueza achada, o ouro.

Mais tarde, com a descoberta de diamantes, não demorou muito até que milhares de bandeirantes e prospectores, comerciantes e colonos, jesuítas, contrabandistas e prostitutas das mais variadas origens ali acorressem. Surgiram, assim, povoações sem rei nem lei com dimensões e uma concentração de habitantes crescentes. As balas resolviam qualquer conflito que emergisse. De acordo, os coronéis com mais influência e jagunços ao serviço concentravam o poder e impunham a sua vontade à força da violência e da tortura. O episódio que Negão conta aos visitantes do seu monte alisado chega-nos como uma prova por ele teatralizada da crueza daquela era. O tom das suas frases é quente e o sotaque do interior sertanense da Bahia: “Oi pessoal, junta aí próximo da falésia p’rá ouvir que a história é boa!”.  

Composta a plateia, o narrador conta que em tempos idos, vivia na Chapada um escravo a quem tratavam por Pai Inácio que namorava, às escondidas, a filha do seu senhor. Este, inteirou-se do caso e enviou vários capangas em perseguição do infractor que acabou por se refugiar naquele mesmo morro em que estávamos. Mas alguém informou os capangas do esconderijo. Quando menos esperava, o escravo deu por si entre os perseguidores e o abismo. A situação pedia uma saída drástica, de preferência genial e Pai Inácio esteve à altura das exigências. Sob a pressão das espingardas e pistolas, gritou que preferia morrer em liberdade a ser chacinado às mãos do senhor. Abriu o seu guarda-chuva, saltou do morro e continuou a fuga, incólume, para nunca mais ser visto.    

Negão sempre levou o seu trabalho a peito e a determinada altura, a mera narrativa começou a pedir algo que a ilustrasse. O guia encontrou um artifício à altura do desfecho da novela. Quando chega ao clímax da acção, Negão atira-se também para baixo e deixa a audiência boquiaberta. Só alguns momentos depois, alguns dos visitantes se abeiram do precipício para desvendarem que o salto (repetido várias vezes por dia) tinha terminado numa saliência um ou dois metros abaixo que o grupo não conseguia ver.

Segundo a lenda, o escravo foi-se de vez e deixou a Chapada entregue à sua prospecção cada vez mais desalmada. Nos leitos dos rios, acastanhados pelo ferro, mineiros gananciosos encontravam gemas em quantidades surpreendentes e abriam trilhos para zonas antes inacessíveis em redor das povoações que cresciam a olhos vistos: Lençóis, Mucugê, Palmeiras e Andaraí, entre outras de igual elegância colonial mas menor dimensão e importância.

Descemos do morro e seguimos em direcção ao vale estreito do Mucugêzinho, onde temos o primeiro contacto com os leitos ainda filtrados pelos prospectores mais persistentes da região.

No Poço do Diabo, a água revela gradações ferrosas de laranja. Nesse e noutros caudais apertados, chegamos a passar por mineiros debruçados sobre as margens a agitar cascalho sobre as suas peneiras, como almas semi-retiradas do mundo movidas tanto pelo desenquadramento social como pela esperança de enriquecer a contradizer o passado. São raros os casos de sucesso e a maior parte dos moradores da Chapada preferem apostas com maiores probabilidades de êxito. No momento, o turismo é a mais garantida.

Em 1995, sob a pressão dos mesmos grupos ambientais que conseguiram a criação do parque nacional e travaram uma já longa destruição do ecossistema local, o governo proibiu a extracção diamantífera não tradicional. Apesar de nem tudo ser ainda perfeito, a natureza passou a ser tratada como o bem mais precioso da zona e os visitantes e viajantes brasileiros e estrangeiros afluíram em grande número.

Depois da longa época de estagnação, migração e pobreza que se seguiu ao fim da mineração, a população local vê com bom olhos esta nova invasão e quer lucrar com a revelação da sua abençoada terra natal.

Nos dias que lhe dedicamos, caminhamos dezenas de quilómetros por dia para chegar aos lugares mais emblemáticos da Chapada: o Ribeirão do Meio, o rio Lençóis e a cachoeira da Primavera, o Salão de Areias, a cachoeira do Sossego e a gruta do Lapão. Outros aventureiros resistem bem mais para cumprirem itinerários guiados desgastantes mas recompensadores como o que conduz à cachoeira da Fumaça – a mais longa do Brasil, com 420m de altura – a que se chega 3 dias depois da partida. Ou o Grande Circuito que perfaz 100km em 5 dias, 8, caso se quiser investigar a velha aldeia diamantífera de Xique-Xique Igatu.

Certos nativos não precisam de se dar a todo este trabalho. Os cientistas chegaram à conclusão que parte da água da bacia do Amazonas, colocada sob pressão contra o oceano Atlântico, acaba por encontrar e escavar caminhos alternativos alimentando aquíferos que alcançam o Nordeste brasileiro. Esta água liberta-se e irriga mais a Chapada do que a área em redor porque  a rocha ali característica é quase impermeável mas propícia à formação de brechas “estruturais”.

Por uma questão de probabilidade, as entradas de algumas destas brechas encontram-se nos “sítios” de moradores felizardos. Acabamos por seguir dois destes proprietários promotores às profundezas das da Lapa Doce e da Torrinha, galerias gigantescas em que nos conduzem e iluminam com a luz de um robusto candeeiro estilo Petromax que, a esforço, vão mudando de um ombro para o outro, enquanto, tímidos e algo pressionados pelo peso nova profissão, nos passam informação enciclopédica recém-memorizada e o nome de cada secção subterrânea: “aqui, os senhores podem ver o Pão de Açúcar. Essa daí é a “Cortina” e agora temos a “Água Viva”. 

Quando voltamos à superfície, um pôr-do-sol resplandecente ridiculariza a luz ténue que nos tinha revelado aquele pedaço de inframundo, avermelha a paisagem e escurece as silhuetas da floresta de cactos “mandacarus”, formas emblemáticas do grande Sertão, evidências dos limites do Cerrado e da virtuosa Chapada Diamantina. 

Passo da Lontra, Brasil

O Brasil Alagado a um Passo da Lontra

Estamos no limiar oeste do Mato Grosso do Sul mas mato, por estes lados, é outra coisa. Numa extensão de quase 200.000 km2, o Brasil surge parcialmente submerso, por rios, riachos, lagoas e outras águas dispersas em vastas planícies de aluvião. Nem o calor ofegante da estação seca drena a vida e a biodiversidade de lugares e fazendas pantaneiras como a que nos acolheu às margens do rio Miranda.
Manaus, Brasil

Os Saltos e Sobressaltos da ex-Capital Mundial da Borracha

De 1879 a 1912, só a bacia do rio Amazonas gerava o latex de que, de um momento para o outro, o mundo precisou e, do nada, Manaus tornou-se uma das cidades mais avançadas à face da Terra. Mas um explorador inglês levou a árvore para o sudeste asiático e arruinou a produção pioneira. Manaus voltou a provar a sua elasticidade. É a maior cidade da Amazónia e a sétima do Brasil.

Kolmanskop, Namíbia

Gerada pelos Diamantes do Namibe, Abandonada às suas Areias

Foi a descoberta de um campo diamantífero farto, em 1908, que originou a fundação e a opulência surreal de Kolmanskop. Menos de 50 anos depois, as pedras preciosas esgotaram-se. Os habitantes deixaram a povoação ao deserto.

Lençois da Bahia, Brasil

Uma Liberdade Pantanosa

Escravos foragidos subsistiram séculos em redor de um pantanal da Chapada Diamantina. Hoje, o quilombo do Remanso é um símbolo da sua união e resistência mas também da exclusão a que foram votados.

Lençois da Bahia, Brasil

Nem os Diamantes São Eternos

No século XIX, Lençóis tornou-se na maior fornecedora mundial de diamantes. Mas o comércio das gemas não durou o que se esperava. Hoje, a arquitectura colonial que herdou é o seu bem mais precioso.

Lenha à Pressa
Arquitectura & Design
Ketchikan, Alasca

Aqui Começa o Alasca

A realidade passa despercebida a boa parte do mundo, mas existem dois Alascas. Em termos urbanos, o estado é inaugurado no sul do seu oculto cabo de frigideira, uma faixa de terra separada dos restantes E.U.A. pelo litoral oeste do Canadá. Ketchikan, é a mais meridional das cidades alasquenses, a sua Capital da Chuva e a Capital Mundial do Salmão.
Doca gelada
Aventura

Ilha Hailuoto, Finlândia

Um Refúgio no Golfo de Bótnia

Durante o Inverno, Hailuoto está ligada à restante Finlândia pela maior estrada de gelo do país. A maior parte dos seus 986 habitantes estima, acima de tudo, o distanciamento que a ilha lhes concede.

Nana Kwame V
Cerimónias e Festividades
Cape Coast, Gana

O Festival da Divina Purificação

Reza a história que, em tempos, uma praga devastou a população da Cape Coast do actual Gana. Só as preces dos sobreviventes e a limpeza do mal levada a cabo pelos deuses terão posto cobro ao flagelo. Desde então, os nativos retribuem a bênção das 77 divindades da região tradicional Oguaa com o frenético festival Fetu Afahye.
A ver a vida passar
Cidades
Dali, China

A China Surrealista de Dali

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Basmati Bismi
Comida

Singapura

A Capital Asiática da Comida

Eram 4 as etnias condóminas de Singapura, cada qual com a sua tradição culinária. Adicionou-se a influência de milhares de imigrados e expatriados numa ilha com metade da área de Londres. Apurou-se a nação com a maior diversidade e qualidade de víveres do Oriente. 

Casal Gótico
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De viagem por terras de Aragão e Valência, damos com torres e ameias destacadas de casarios que preenchem as encostas. Km após km, estas visões vão-se provando tão anacrónicas como fascinantes.

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Deixada de lado a modernidade de Valência, exploramos os cenários naturais e históricos que a "comunidad" partilha com o Mediterrâneo. Quanto mais viajamos mais nos seduz a sua vida garrida.

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Passerelle secular
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Camões eternizou o Ceilão como um marco indelével das Descobertas onde Galle foi das primeiras fortalezas que os portugueses controlaram e cederam. Passaram-se cinco séculos e o Ceilão deu lugar ao Sri Lanka. Galle resiste e continua a seduzir exploradores dos quatro cantos da Terra.

Verificação da correspondência
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Fartos de esperar pela descida do velhote de barbas pela chaminé, invertemos a história. Aproveitamos uma viagem à Lapónia Finlandesa e passamos pelo seu furtivo lar. 

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Nem o Império do Oriente chegou tão longe. Na Semana Santa, milhares de centuriões apoderam-se de Marinduque. Ali, se reencenam os últimos dias de Longinus, um legionário convertido ao Cristianismo.

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Com 1.2 km, a ponte de madeira mais antiga e mais longa do mundo permite aos birmaneses de Amarapura viver o lago Taungthaman. Mas 160 anos após a sua construção, U Bein carece de cuidados especiais.

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Os Fiordes dos Antipodas

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