Ilha do Marajó, Brasil

A Ilha dos Búfalos


Autoridade bubalina

Oficiais da polícia montada a búfalo da Ilha de Marajó.

Migração urbana

Dois búfalos atravessam Soure, a principal cidade da ilha do Marajó.

No charco

Búfalo refresca-se num pequeno pantano da ilha de Marajó.

A brilhar

Auxiliar engraxa os cornos de um dos búfalos da polícia montada.

Um charco disputado

Manada de búfalos defende o seu charco da aproximação de uma vaca.

Matança

Búfalo assiste à matança de um outro na Fazenda do Carmo.

Manhã tranquila

Militares e búfalos sob um alpendre do quartel-general da polícia montada de Soure.

De molho

Búfalo refresca-se num charco lamaçento de uma das muitas fazendas da ilha do Marajó.

Conversa de poucos amigos

Nativos convivem sobre os seus búfalos pouco antes de uma corrida a ter lugar em Soure.

Búfalitos

Búfalos juvenis junto ao litoral da ilha do Marajó.

Predação

Empregados esquartejam um dos búfalos da Fazenda do Carmo que acabaram de matar.

Uma embarcação que transportava búfalos da Índia terá naufragado na foz do rio Amazonas. Hoje, a ilha de Marajó que os acolheu tem a maior manada bubalina e o Brasil já não passa sem estes bovídeos.

Descobrimos, num ápice, o motivo porque quase toda a gente de Belém, capital do Pará, e Soure, principal cidade da Ilha do Marajó, evitavam a viagem vespertina de travessia da foz do Amazonas. Nos primeiros momentos do trajecto, o ferry ainda segue relativamente estável protegido pela proximidade da margem continental mas, quando se interna algo mais no vasto rio, fica à mercê de um vento furibundo e balança sem misericórdia. Ondas barrentas castigam a proa e fazem os passageiros perder o balanço e a coragem de se voltarem a levantar. Ou condenam-nos a enjoos que se disseminam como uma epidemia.

Quatro horas e meia depois, Soure aparece, por fim, à distância. O comandante aponta o barco ao litoral marajoense e salva-nos da tormenta.

Terminada a manobra de acostagem, a multidão conflui para a porta de saída e desembarca de forma sôfrega. Deixamo-nos levar pela corrente, disponíveis para conversas de ocasião com alguns passageiros curiosos: “’Tão de visita a Marajó é? ‘Cês vão adorar. Essa balsa aqui é que não tem jeito, não. Eu sofro isso de cada vez que vou ver o meu Papão (Paysandu Sport Club) jogar lá em Belém. Parece que o prefeito veio ontem nela. Apanhou um susto tão grande que foi implorar ao comandante para regressar a Belém. Sabem o que ele respondeu? “Sô Prefeito, se eu tentar voltar esse barco agora, vamos todos ao fundo”, conta-nos um marajoense de cabelo grisalho.

A turba some-se em dezenas de carros e carrinhas ou, como nós, nos velhos ónibus coloridos que ligam o ancoradouro a Soure. Uma hora de estrada roubada à selva depois, falta apenas uma travessia de rabeta (balsa) para chegar ao destino, quando três búfalos barram a passagem do autocarro.

“Xuuu, monstros feios, grita, pela janela, uma de várias amigas estudantes ansiosas por se ver em casa”. “Pô!! Já tem bicho desse demais nessa ilha!” acrescenta outra num humor indignado.

Aqueles animais eram um dos motivos porque tínhamos seguido os passos dos primeiros exploradores lusos e viajado aos confins setentrionais do Brasil. Começámos de imediato a admirar a sua fascinante predominância.

Foi Francisco Xavier de Mendonça Furtado – um irmão do Marquês de Pombal e governador geral do Estado do Grão-Pará e Maranhão, de 1751 a 1759 – o fundador da cidade que nos estava prestes a acolher, capital da maior ilha fluviomarinha do mundo, que os nativos e residentes se orgulham de ter o tamanho da Suíça.

O Padre António Vieira já por ali andara um século antes, chamavam os portugueses ao lugar Ilha Grande de Joanes, devido ao contacto que tinham tido com os índios juioanas. Estes, como as outras tribos Neengaibas (nome dado ao grupo de nações dos indígenas), começaram por aceitar a oferta de paz mas logo perceberam o logro e passaram a atacá-los. Mas os esforços do governador de então, D. Pedro de Melo, e de Vieira produziram efeito. Um grupo de índios acabou por visitar o jesuíta no Colégio da Companhia onde o informaram que se iriam reconciliar com os portugueses por confiarem no “Payassu – O Padre Grande”, assim o tratavam com afeição.

Nessa época, quase só os indígenas habitavam Marajó. Povoá-la com colonos soava ainda a projecto quimérico. As únicas zonas desprovidas de vegetação eram os pântanos irrigados pela meteorologia de monção que continua a ensopá-la de Janeiro a Junho e a molhá-la, de quando em quando, nos meses menos chuvosos. Para outros recém-chegados, essas condições revelaram-se perfeitas.

Conta-se na ilha que, no início do século XIX, um barco francês navegava vindo da Índia ou Indochina e com destino final na Guiana Francesa quando naufragou na boca infindável do Amazonas. Ali, durante a época das chuvas, o Mar Dulce – assim lhe chamou Vicente Pinzón, o primeiro europeu a subi-lo Hoje– existem -nasa Companhia onde otaram-se nos seus pa grande velocidade.rque visitros perder o balanço, cenro – pode despejar no oceano Atlântico até 300.000 metros cúbicos de água por segundo (20% de toda a água doce da Terra) e, consoante as marés, provocar poderosos fluxos e correntes.

Mas se a embarcação não resistiu, os búfalos-de-água carabao que transportava fizeram melhor. Nadaram até à segurança do litoral da ilha, instalaram-se nos seus charcos e pântanos e multiplicaram-se. Mais tarde, alguns fazendeiros importaram espécies distintas e cruzaram-nas. Hoje, aqueles bovídeos são quase 700.000, divididos por carabaos, jafarabadis, murrah e mediterrânicos, cada espécie com os seus chifres característicos. A população humana, essa, fica-se pelos 250.000. Em certos dias, nalguns lugares, parece ter desaparecido do mapa.

É Domingo. Levantamo-nos bem cedo e deixamos o hotel Soure para explorar a urbe homónima em redor. Por volta do meio-dia, anestesia-nos o cansaço acumulado de deslocações recentes. Regressamos à base para um sono rejuvenescedor. Saímos de novo mais para a tarde e encontramos as ruas entregues aos búfalos.

Como fantasmas negros e quadrúpedes, os animais deambulam ao sabor dos frutos maduros largados pela floresta de mangueiras que abriga a cidade do sol equatorial. Não há ninguém que os conduza ou importune. Não há ninguém, ponto final. Estamos no dia sagrado de descanso e Soure em peso mudou-se para as praias de Marajó. Chamamos um moto-taxi e juntamo-nos àquela romaria balnear.

Voltamos à cidade a tempo de jantar num restaurante do centro e é no menu que começamos a perceber a verdadeira dependência da ilha pelos búfalos.

A carne no churrasco é de búfalo, há queijo de búfalo e doce de leite de búfalo a acompanhar a sobremesa que poderíamos escolher entre pudim ou sericaia, ambos feitos com leite de búfala. Na decoração da sala, encontramos ainda algumas fotos de búfalos, cabeças embalsamadas e peças de artesanato feitas com o couro dos animais. A coisa não ficaria por aí.

Tem início nova semana e a vida regressa às ruas de Soure. A cidade e Marajó em geral parecem-nos tranquilas como poucos lugares do Brasil mas depressa nos resgatam à ilusão. “’Cês tenham cuidado com essas câmaras. Tem um monte de pilantras nessa ilha” afiança Araújo, o gerente do hotel em que ficamos. Desconfiamos de que dramatiza mas acabamos por passar na rua da prisão e convencemo-nos. As celas estão em contacto directo com o exterior. Permitem aos criminosos colocar os braços de fora e meter-se com os transeuntes. Também estão a abarrotar.

Não será, por certo, uma das causas mas a Polícia Militar do Pará é provavelmente a única do mundo que patrulha a cidade de búfalo há mais de 20 anos e tem ao serviço uma Bufalaria composta por 10 espécimes, algo que o cabo Cláudio Vitelli explica com naturalidade: ”percebemos que a população usava os animais para várias actividades e lembrámo-nos que também nos podiam ajudar.  Temos casos que nos obrigam a percorrer terrenos alagados ou com lama que só mesmo o búfalo aguenta.”"  

Não apurámos se os agentes a eles recorrem para resolver esses crimes em particular mas, ironia das ironias, a força policial de Soure captura inclusivamente, de tempos a tempos, ladrões de búfalos.

No dia seguinte, espreitamos a alvorada do quartel, a formação matinal dos cadetes e a preparação dos animais para novas patrulhas que, entre outras tarefas, contempla escovagens intermináveis e o engraxamento dos seus chifres. Acompanhamos ainda a saída dos policiais para as ruas, montados sobre os bubalinos de escala que ali começam mais uma lenta e pesada ronda.

Mas os animais têm outros usos, uns mais, outros menos excêntricos que este.

Durante o mês em que vivemos na Ilha de Marajó participámos numa Festa do Açaí excêntrica que incluiu uma corrida tresloucada e poeirenta de búfalos.

Praticamente todas as fazendas de Marajó criam riqueza em forma de manadas bubalinas, pelo seu valor pecuário mas não só. De há algumas décadas para cá, a ilha desenvolveu uma faceta turística e muitas aproveitaram para lucrar com o acolhimento rural dos visitantes. Quase todas organizam passeios montados em búfalo ou cavalo. Na Fazenda do Carmo Camará, tivemos oportunidade de confirmar a monotonia de uma volta a passo demasiado lenta, e até desconfortável.

Mas nem todos os búfalos da ilha são mansos. Muitos resistem em estado selvagem em pântanos infestados de anacondas e jacarés ou até na proximidade das povoações e fazendas. Preservam intactos os seus instintos territoriais e de defesa. Vimo-los saírem disparados de um charco para perseguir uma vaca zebu sedenta que se aproximava. Segundo nos contam, chegam a atacar os fazendeiros e seus trabalhadores, principalmente quando se deslocam a cavalo.

Assim que voltamos do passeio, um empregado caboclo dá-nos um recado de Seu Cadique e Dona Circe, os proprietários. “Eles disseram prá’ visar vocês que a gente vai matar agora mêmo um búfalo que ‘tava dando demasiado problema. Se quiserem assistir, é só vir comigo.” 

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