Hué, Vietname

A Herança Vermelha do Vietname Imperial


Comunismo Imperial

Ciclistas pedalam em frente à velha muralha da fortaleza imperial de Hué, agora um domínio comunista, como todo o país.

Na sombra do tempo

Visitante vietnamita da fortaleza de Hué no interior sombrio de um dos seus vários edifícios históricos.

Entrada para lado nenhum

Homens vietnamitas em trajes ocidentalizados atravessam um pórtico colorido da Cidade Proibida.

Numa doca perfumada

Embarcações de recreio ancoradas numa margem do rio Perfume.

Protector solar Vietnamita

Mulher abrigada do sol tropical numa margem elevada do rio Perfume.

Passos na história vietnamita

Casal percorre um dos grandes pátios da antiga Cidade Proibida de Hué.

Protecção budista

Incenso queima lentamente num dos vários templos budistas da cidade.

Ciclo-colegas

Condutores de cyclos - rickshaws sem motor. Muitos dos homens entregues a esta profissão foram banidos de um futuro melhor pelas autoridades comunistas por terem alinhado contra as forças vietcong.

À boleia

Casal de boné e chapéu tradicionais non la partilha uma velha bicicleta em frente a uma secção massiva da fortaleza de Hué.

Jardinagem

Trabalhadores tratam duma área da Cidade Proibida de Hué, distinguida pela UNESCO como Património Mundial.

Ex-Phuoc Dien agora Thien Mu

O pagode Phuoc Dien (antiga torre Thien Mu) parte de um templo budista à beira do rio Perfume.

Sofreu as piores agruras da Guerra do Vietname e foi desprezada pelos vietcong devido ao passado feudal. As bandeiras nacional-comunistas esvoaçam sobre as suas muralhas mas Hué recupera o esplendor.

O Vietname, ao estilo do Chile, é tão longilíneo que tem destas coisas. Após vários dias de exploração da capital Hanói, da baía de Halong e outras áreas do norte sob um Inverno tropical quase frio, sempre húmido e nublado, chegamos a meio do país e a meteorologia muda de figura. Em Hué, o céu exibe um azul resplandecente e brilha um sol tórrido.

Somos aficionados incondicionais do calor seja de que tipo for. A surpresa estival afaga-nos os sentidos e estimula-nos. Não perdemos sequer tempo a recuperar da tortura rodoviária da noite anterior. Instalamo-nos numa qualquer guest-house nas imediações da estação de camionagem, alugamos uma acelera e saímos em modo de exploração.

Logo ali, nas imediações, dezenas de condutores de uma frota de cyclos (os rickshaws movidos a força humana do Vietname) contemplam-nos e ao motociclo com desdém comparável ao que muitos taxistas lisboetas nutrem pelos recém-chegados tuk tuks.

Quarenta anos depois do término da Guerra do Vietname, algumas das feridas sociais abertas pelo conflito ainda saram. Vários daqueles homens eram suas vítimas.

Após a vitória norte-vietnamita e a anexação forçada do sul, os novos líderes comunistas baniram de todos os cargos estatais – e o máximo possível da sociedade – os homens vietnamitas que tinham colaborado com os E.U.A na aliança anti-comunista. Despojados de posses e de perspectivas de prosperidade, assim que conseguiram juntar parcos recursos, investiram em cyclos e numa das poucas profissões que lhes foi admitido exercerem. O ostracismo desvaneceu-se com o passar dos anos mas o governo faz tudo para controlar a proliferação destas triciletas emblemáticas que empatam o trânsito de Hanói, Ho Chi Minh e de outras grandes cidades.

Em Hué, em particular,  inúmeros condutores idosos ou os seus descendentes sujeitam-se ao último estertor da pena e da tradição e sobrevivem a pedalar contra a vontade das autoridades e contra a modernidade. 

Circulamos em redor do perímetro de 10 km da sua cidadela cercada de fossos e canais, pelas margens verdejantes dos rios Perfume e Nhung. Visitamos o reduto imperial e o coração da Cidade Proibida Púrpura onde os únicos servos admitidos eram eunucos que não ameaçavam a exclusividade das concubinas reais. Vamos para onde formos, ondula suprema a bandeira vermelho-amarelo-estrelada de Cot Co, no mastro mais alto do Vietname. Esta bandeira e várias outras não tão elevadas impõem a toda e qualquer era vietnamita, a agenda político-social e a realidade triunfal da República há já quatro décadas Socialista do Vietname.

Pouco antes da sua morte, em 1999, Harry G. Summers, um coronel norte-americano narrava com frequência um encontro que tinha tido com um congénere vietnamita de nome Tu, em 1975, durante uma visita a Hanói. “Sabe, vocês nunca nos derrotaram nas principais batalhas da guerra.” disse-lhe Summers no bom jeito gabarolas ianque. Ao que o coronel vietnamita, após uma breve pausa, respondeu com a subtileza e o pragmatismo que já garantira a resistência vietcong: “Até pode ter sido, mas isso é irrelevante, não é?”

Hué acolheu uma das batalhas mais sangrentas da célebre Ofensiva Tet de 1968. Foi a única cidade no sul do Vietname capturada pelas forças do norte por mais que alguns dias (3 semanas e meia) o suficiente para que quadros comunistas tenham implementado planos para liquidar milhares de elementos não cooperativos. Cerca de três mil civis, incluindo mercadores, monges budistas e padres católicos, intelectuais e outros foram abatidos a tiro, mortos à bastonada ou enterrados vivos. Mais tarde, durante a reconquista do sul liderada pelos E.U.A., o número de baixas entre os habitantes da cidade ascendeu a dez mil, na grande maioria civis.

Em plena Guerra Fria, as palavras do coronel vietnamita resumiram a ironia geopolítica do desfecho do confronto. Preconizaram ainda a longa vigência comunista que, como aconteceu com os condutores de cyclos, não tardou a sacrificar Hué.

Na sua origem de 1687, a povoação chamava-se Phu Xuan. Em 1802, já muralhada, tornou-se a capital de uma vasta área do sul então dominada por nobres que viriam a formar a poderosa dinastia Nguyen. Esta dinastia inspirou o nome hoje mais popular no Vietname, adoptado ou herdado por quase 40% dos habitantes. Também fundou um império que dominou parte substancial da Indochina. Os senhores feudais Nguyen mantiveram-se no poder até 1945 mas, de 1862 a 1945 – o longo período colonial francês – esse poder não passou de uma formalidade. 

Os novos líderes ex-vietcong que tomaram conta do país após o termo da Guerra do Vietname consideraram os edifícios seculares da cidade heranças vergonhosas do passado imperial da nação, declararam-nos politicamente incorrectos e vetaram-nos ao abandono. Por volta de 1990, numa altura em que o Vietname se havia já aberto ao Mundo, as autoridades locais compreenderam o potencial turístico daquele legado e promoveram os monumentos a tesouros nacionais. A UNESCO recompensou a reviravolta, designou-os Património Mundial da Humanidade e apoiou trabalhos de restauração e preservação de monta.

Ao explorarmos a cidade, sentimos cada vez mais dificuldade em distingui-la da sua história prolífica. Apesar do proselitismo tanto dos padres portugueses como, mais tarde, dos franceses e, não obstante a submissão da nação ao comunismo, em Hué, o budismo é tolerado de forma contranatura pelas autoridades da república socialista como em nenhuma outra cidade vietnamita.

Hué sempre teve o maior número de mosteiros do país e os seus monges mais reactivos e, por isso, mais notórios. De tal maneira que a torre Thap Phuoc Duyen do pagode de Thien Mu – também erguido por um senhor Nguyen e que, na década de 80, acolheu fortes protestos anti-comunistas –  se preserva como símbolo oficial da cidade. Disso nos informa um dos guias que impinge os seus serviços à entrada. Acabamos por o admitir e o cicerone refresca-nos a memória de outros factos surpreendentes.

“Em 1963, em plena Guerra do Vietname, Tích Quàng Dúc, um dos monges residentes mais inconformados, conduziu um Austin até Saigão com o objectivo de protestar contra a política anti-budista do governo Sul-Vietnamita. Acabou por se imolar em público.” Vêm-nos à mente as imagens da sua morte atroz em chamas que correram o mundo e inspiraram várias outras auto-imolações. “Muitos ocidentais ficaram menos chocados pelos suicídios que pela reacção da cruel Madame Nhu, a cunhada do presidente que o povo alcunhou de borboleta de ferro devido à sua requintada crueldade. Ela declarou que as auto-imolações eram meros churrascos e, como se não bastasse, ainda acrescentou: “deixem-nos arder que nós bateremos palmas”. 

Para chegar a Thien Mu, viajamos quatro quilómetros sobre a acelera, ao longo de uma margem luxuriante do rio Perfume em que se sucedem mausoléus seculares e sumptuosos de antigos imperadores. A torre tem 21 metros e surge destacada sobre uma elevação ribeirinha pelo que a detectamos sem dificuldade. Já dentro do pagode, juntamo-nos a comitivas de peregrinos que ali procuram expiação e aperfeiçoamento espiritual. Admiramos fiéis vietnamitas que acendem paus de incenso à entrada do templo. Mesmo sem o desejarmos, também somos purificados pelo fumo e pelo aroma libertado. 

Como qualquer nativo ou morador, Quang aproveita a sua presença para nos referir a formosura das mulheres de Hué, reverenciada por todo o país.

Já por nossa conta, regressamos ao sossego da margem do Perfume quando damos com um potencial arquétipo tanto dessa beleza como do exotismo vietnamita. Uma senhora trajada com calças púrpura e camisa azul de manga comprida contempla-nos acocorada à moda asiática e semi-acrobática sobre um pequeno muro elevado face ao caudal do rio. Um lenço que condizia com as restantes vestes e um mais que esperado chapéu non la protegiam-lhe a face do sol tropical e preservavam-lhe a clareza amarelada da pele, requisito incontornável da perfeição física por estas paragens realmente vizinhas da velha Cochinchina. A senhora só falava vietnamita. Com recurso a gestos ilustrativos e instigados pela empatia que emanava dos seus ínfimos olhos amendoados, depreendemos que a podíamos fotografar. Quando o fizemos, sentimos um grande sorriso por detrás do lenço colorido. Até ao fim do dia, continuámos à descoberta do encanto das gentes orgulhosas da antiga capital do Vietname.

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