Sigiriya, Sri Lanka

A Capital de um Rei Parricida


De regresso a casa

Cingaleses afastam-se do rochedo de Sigiriya, a velha capital-fortaleza do rei parricida Kashyapa.

Tons budistas

Monges budistas tailandeses exploram o cimo de Sigiriya.

Entre calhaus

Mulher muçulmana aguarda pela família à entrada do Boulder Arch.

Rumo ao cimo

Pequena comitiva de monges budistas avança ao longo dos jardins de água de Sigiriya.

Trânsito complicado

Grupo de cingaleses desce a vertente lateral de Sigiriya, a que permite o acesso ao topo através da escadaria dos leões.

À procura da melhor vista

Visitante explora um recanto repleto de socalcos do topo.

Missão cumprida

Casal regressa ao nível intermédio da fortaleza através da escadaria dos leões.

Outra perspectiva

Aluno interrompe os seus esboços e pinturas de Sigiriya para mudar de posição.

De novo os monges

Monges budistas entram no complexo do palácio real, após uma dolorosa ascenção ao topo de Sigiriya.

Kashyapa I chegou ao poder após emparedar o monarca seu pai. Receoso de um provável ataque do irmão herdeiro do trono, mudou a principal cidade do reino para o cimo de um pico de granito. Hoje, o seu excêntrico refúgio está mais acessível que nunca e permitiu-nos explorar o enredo maquiavélico deste drama cingalês.

Calhou que, no velho Ceilão, distintos negócios instalados sobre tricycles do estilo APE-50 se passassem a identificar por viciantes melodias electrónicas. Amanhecera há pouco. O sol esforçava-se por iludir o manto de nuvens que reclamava o firmamento.

Percorríamos a viela rural que ligava o Sigiriya Hostel às imediações da grande montanha de rocha quando uma versão fanhosa da bagatela para piano “Para Elisa” profanou a dedicatória de Beethoven. Cada vez mais intensa e perfurante, a melodia impingiu-se a nós e aos moradores daquelas redondezas tropicais.

Por todo o país, o trigo tem vindo a rivalizar com o arroz. Inúmeros padeiros-motoqueiros aproveitam a tendência e, como aquele que nos ultrapassava, fornecem os lares, casas de chá e restaurantes de pão fresco.

Detemo-nos à conversa com dois outros condutores de tricycles, dos convencionais, usados para transporte de gente. Enquanto isso, vindos do sentido contrário, três enormes elefantes conduzidos pelos respectivos tratadores usurpam a estrada, mais altos que o autocarro garrido que ali aguardava por passageiros cingaleses.

Avançamos um pouco mais e temos a primeira visão de Sigiriya, da sua vertente sul, destacada no fim de uma longa avenida ladeada de vegetação. Regressamos ao carro e dizemos a Ari, para nos levar à entrada do complexo. “Directos a Sigiriya, de certeza?” devolve-nos o condutor com o típico “eeh” com que costumava espancar as próprias frases, frustrado com o tempo que tínhamos “desperdiçado” naquela manhã e que lhe atrasara o pequeno-almoço.

Dez minutos depois, já atravessávamos os jardins sumptuosos da velha cidade, uns dos mais antigos espaços ajardinados à face da Terra, divididos em secções de água, de rochas e de terraços que contemplámos à medida que nos aproximávamos do sopé do colosso de granito.

À hora a que chegamos, são ainda poucos os visitantes. Cruzamo-nos com bandos de macacos rufias, com lagartos monitores e até com longas serpentes sibilantes, os répteis a atravessarem os relvados com todo o vagar do mundo. Para diante, passamos ainda por jovens casais ceilonenses, trajados com requinte e entregues a aprimoradas produções fotográficas.

Internamo-nos na pequena selva que envolve o sopé, passamos por um túnel natural formado por dois grandes calhaus. Do lado de lá, inauguramos a dolorosa ascensão ao topo.  

Por essa altura, tínhamos interrompido a caminhada por várias vezes, umas mais demoradas que outras. De acordo, quando nos fazemos às primeiras escadarias, já estamos na companhia de famílias do Sri Lanka, em êxtase pela descoberta do monumento mais notório do país.

Degrau após degrau, lá damos de cara com a falésia avermelhada e, pouco depois, surpreende-nos num plano acima um guarda que, com uma expressão ternurenta e pachorrenta, nos pede os bilhetes.

Desviamos da verdadeira ascensão por uma escada de caracol fechada por um gradeamento. No fim da espiral, espera-nos uma pequena galeria histórica – noutros tempos terá coberto quase toda a vertente ocidental do rochedo – de frescos de mulheres que segundo teorias rivais podem ser concubinas de Kashyapa I, apsaras (ninfas celestiais) ou ainda diversas ilustrações de Tara Devi, a consorte de Avalokitesvara, um ser divino do budismo que opta por se manter na esfera terrena para auxiliar os humanos a atingir a iluminação.

A fazer fé nos relatos do Culavamsa, o registo da vida dos monarcas do Sri Lanka compilado ao longo dos tempos por monges budistas, Kashyapa I precisava de distracções que o salvassem dos demónios do seu passado. Terá sido de tal forma maquiavélica a sua ascensão ao trono que até Calígula se impressionaria.

Kashyapa era o filho do rei Dathusena e de uma consorte considerada não real. O herdeiro legítimo de Dathusena era o seu meio irmão Mugalan. Mas, em 477 d.C., Kashyapa decidiu adulterar a ordem dinástica. Obteve o apoio do sobrinho de Dathusena que, por conveniência, era um comandante do exército em conflito com o monarca. Aliados, engendraram um golpe de estado.

Ainda segundo o Culavamsa, este mesmo comandante levou Kashyapa a acreditar que Dathusena teria enormes tesouros escondidos. Kashyapa exigiu-os do pai. Dathusena conduziu-o a um grande tanque de irrigação que havia construído. Ali, transmitiu ao filho que aquele era o único tesouro que possuía. Enfurecido, Kashyapa emparedou o pai até à morte, eventualmente numa das paredes desse mesmo tanque.

Receoso de um fim semelhante, Mugalan fugiu para o sul da Índia. O novo rei, esse, temia o regresso vingativo do irmão. Kashyapa – que passou a ser conhecido pelo povo como o Patricida – mudou a capital da tradicional Anuradhapura para o cimo da rocha que continuávamos a conquistar.

A galeria de frescos está instalada numa zona côncava da vertente sem saída. É controlada por um outro funcionário sentado numa pequena secretária que impõe aos visitantes a proibição de fotografar as imagens.

Regressamos ao caminho principal e percorremos o que faltava da longa vertente oeste. Quando chegamos ao vértice com a face norte, cai água do topo. Esse inesperado chuveiro dinamiza o desafio de vencer nova escadaria de pedra. Como se não bastasse, a determinada altura deparamo-nos com uma placa que alerta para a presença de vespas nos paredões acima e roga aos visitantes que não criem agitação. O aviso é mais que justificado. Num passado pouco distante e em várias ocasiões, visitantes irrequietos despertaram a ira daqueles insectos. As vespas responderam com ataques coordenados e causaram graves danos.

A vertente norte funciona como uma espécie de base intermédia para o assalto final ao topo. Concede a clemência de um descanso até então inconveniente devido à estreiteza dos trilhos e escadarias. Um descanso que usufruímos de frente para as impressionantes patas de leão, o que sobra da enorme estátua-portal que deu origem ao actual nome cingalês do maciço, Sigiriya, a Rocha do Leão. Antes da destruição da parte superior da estátua, o acesso para o cimo era feito com passagem pela boca de um leão de tijolo. Desde o século V, o leão foi-se desintegrando. Sobram os primeiros degraus da passagem e as suas patas. É por entre elas que retomamos a lenta ascensão.

Seguimos na cauda de uma fila de cingaleses, alguns idosos que, mesmo ofegantes, convivem e apreciam a vista fabulosa da planície verdejante. Vencidos os derradeiros degraus, já a 200 metros acima do solo, revela-se-nos, por fim, a estrutura com 1.6 hectares do que terá sido a cidade-fortaleza de Kashyapa.

Sigiriya é um dos melhores exemplos de planeamento urbanístico do primeiro milénio, dotada dos seus próprios reservatórios de água que alimentavam complexos sistemas hidráulicos e ainda de cinco entradas, incluindo a do leão que terá sido usada apenas pela realeza.

Pouco resta dos edifícios que a compunham pelo que, como os restantes visitantes, depressa damos por nós a privilegiar a orla do cimo e, a partir dela, os cenários incríveis em volta, com destaque para os vastos jardins na base que tínhamos atravessado no início da manhã.

O cume de granito tinha-se já transformado num braseiro sob o sol tropical quando um grupo de monges budistas tailandeses trajados das habituais túnicas laranjas lá apareceu, acompanhado de outros crentes que os fotografavam e auxiliavam a desbravar os sucessivos altos e baixos. Mais que turística, a sua presença e o esforço que faziam sob o calor atroz, eram parte de uma de muitas peregrinações a lugares sagrados do budismo. Sigiriya e os seus rochedos e grutas terão sido usados como abrigos ou retiros religiosos desde três séculos antes de Cristo até à ocupação de Kashyapa.

De volta à narrativa do Culavamsa, os receios do rei patricida confirmaram-se. Em 495 d.C., Mugalan regressou com um exército recrutado na Índia. A batalha entre ambas as forças dotadas de centenas de elefantes pendeu para o lado do pretendente. Enquanto montava o seu paquiderme, Kashyapa terá feito um movimento estratégico que foi (mal) interpretado pelos súbditos como uma retirada. Em apuros, o seu próprio exército levou Kashyapa ao desespero. Demasiado orgulhoso para se render, o usurpador deposto cortou a garganta com um punhal.

Mugalan recuperou o reino que sempre lhe pertencera. Pouco depois, devolveu a capital a Anuradhapura, a par de Pollonnaruwa, uma das capitais históricas sumptuosas da nação. Quanto a Sigiriya, Mugalan tê-la-á convertido num dos santuários budistas mais místicos de toda a Ásia. Mas, no século XIV, Sigiriya foi abandonada e gradualmente engolida pela vegetação que, nestas latitudes, cresce a grande ritmo.

Só em 1898, o arqueológo HCP Bell a redescobriu. Em 1907, John Still um outro explorador, plantador de chá e arqueólogo inglês prosseguiu as escavações e incentivou a recuperação do lugar sob os auspícios coloniais da sua coroa que desde o início do século XIX, já bem depois do período da supremacia portuguesa, controlava grande parte do Ceilão.

Por reverência à solenidade de Sigiriya, não é permitido qualquer negócio dentro do limite do complexo. Às três da tarde, vimo-nos de rastos, com a água prestes a esgotar-se sob uma temperatura destiladora e já sem qualquer snack que nos restabelecesse as energias. Chegara a hora de regressarmos o que nos custou bem menos do que contávamos. Fomos presenteados com a mesma perspectiva impressionante da vertente ocidental destacada da vegetação mas, desta feita, envolta de um céu azulão bem mais resplandecente e contagiante que o da manhã.

Kashyapa tinha tido a sua era de Sigiriya. Inúmeros monges budistas partilharam desse privilégio. O nosso tempo de descoberta da rocha mais fascinante do Ceilão também se findava.

 

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