PN Thingvelir, Islândia

Nas Origens da Remota Democracia Viking


No rumo da Democracia

O rio Oxará desliza entre a casa de férias actual do primeiro-ministro islandês e a encosta em que se instalou o Althingi, considerado o primeiro parlamento do mundo.

Thingvallakirja

A igreja luterana que, com o cemitério contíguo, completa o conjunto de estruturas criadas pelo homem do PN Thingvellir.

Guardiães de Thingvellir

Os moradores permanentes do rio Oxará e lago Thingvallavatn a quem a paisagem de Thingvellir permanece entregue na maior parte do tempo.

Solfar: The Sun Voyager

Escultura de Jón Gunnar Árnason, um barco ode ao sol instalado em Sæbraut, nas imediações de Reiquejavique.

Povoamento "viking" actual

Casario de Reiquejavique visto do ar com a catedral da capital islandesa em destaque.

Eriksson

A homenagem de Reiquejavique a um dos seus povoadores pioneiros, o viking Leif Eriksson.

Sol põe-se nas últimas horas de um dia de junho e dá mais cor aos cenários de Thingvellir.

Falhas geológicas criam rasgos de rocha em que se alonga o lago Thingvallavatn. 

Funcionário remove a bandeira islandesa de um mastro em frente a catedral de Reiquejavique.

Marco C. Pereira e Sara Wong sobre uma das falhas geológicas características do PN Thingvellir e que provam a lenta separação da placa norte-americana da euroasiática.

outro na América

Estátua de Magnús Tomásson no centro de Reiquejavique. 

As fundações do governo popular que nos vêm à mente são as helénicas. Mas aquele que se crê ter sido o primeiro parlamento do mundo foi inaugurado em pleno século X, no interior enregelado da Islândia.

Na ressaca da crise financeira de 2008-2012, o mundo e sobretudo os seus inquilinos com sensibilidade política mais esquerdista voltaram a louvar a Ilha do Fogo e do Gelo. Desta feita, o motivo não foram os cenários rudes, montanhosos, frígidos e vulcânicos. Tão badalada apologia deveu-se à forma como o governo islandês lidou com a falência dos seus bancos Glitnir, Kaupthing e Landsbanki que, entre outras diabruras comerciais, ofereceram depósitos com taxas de juro superiores a 8% que atraíram não só clientes islandeses como holandeses, britânicos e de outras nacionalidades. Os seus activos chegaram a totalizar onze vezes o PIB da nação. Mas estes mesmos bancos também fizeram a dívida externa do país aumentar até sete vezes o PIB da Islândia de 2007. Causaram a sua própria ruptura e a falência do sistema financeiro nacional.

Quando o mesmo aconteceu com diversas outras instituições financeiras norte-americanas, europeias e globais, até então com estruturas que se pensavam inabaláveis (Citigroup, JP Morgan Chase e Lehman Brothers) nos E.U.A. e países europeus, os governos desresponsabilizaram os gestores de topo e privilegiaram operações de salvamento com base em taxações dos contribuintes. Na Islândia, ao invés, a pressão do povo e a sua relativa intimidade com o governo forçou-o a deixar os bancos falir e a restituir o que pôde aos depositantes islandeses.

O parlamento islandês decretou ainda uma investigação criminal. O ministro das finanças e diversos presidentes, directores e gestores de bancos, homens de negócios e advogados foram condenados a penas até de prisão efectiva. O primeiro-ministro no poder durante esta crise admitiu a sua responsabilidade e demitiu-se. Pouco depois, o povo islandês elegeu um novo governo que, mesmo com as suas máculas, não demorou a retirar a nação do atoleiro em que mergulhara.

A verdadeira génese da democracia centra-se na Grécia Antiga mas, mesmo se mais recente, a tradição de consciência e intervenção popular pela justiça nos destinos da Islândia é milenar e de igual forma pioneira. Teve o seu início oficial em 930 d.C., com a sessão inaugural do que é considerado o primeiro parlamento do mundo, o Althingi.

Depois de darmos a volta à ilha com partida e regresso à capital Reiquejavique, desviámos da Ring Road para a rota Golden Circle e apontámos para o Parque Nacional de Thingvellir. Após quase uma hora de condução, vimo-nos nas profundezas de um vale amplo ladeado por cordilheiras de altitudes comedidas para o que já tínhamos visto, ainda assim, com os cimos cobertos de neve. A vastidão plana por que seguíamos estava salpicada de lagos e lagoas interligados por falhas geológicas preenchidas por canais ou riachos. Uma cobertura considerável de nuvens sobrevoava-nos a grande velocidade e, a espaços, deixava os raios solares do quase ocaso afagarem o cenário acastanhado pelo frio.

À hora que deixámos o carro para caminhar já não víamos vivalma. Erma como se encontrava, aquela também estranha paisagem fascinou-nos a dobrar como há muito fascina os islandeses.

Narra o Livro da Colonização dos Povos Nórdicos que a povoação da Islândia se inaugurou no final do século IX e que, a partir de então, vários habitantes de origem viking e celta se instalaram na ilha, com frequência refugiados de desavenças ou de perseguições ditadas pela realeza ou por clãs mais poderosos dos territórios em que viviam. Após constatarem as condições que o novo domínio oferecia, muitos já não quiseram voltar. Em vez, criaram assembleias distritais. À medida que a população aumentou e os descendentes do chefe pioneiro da colonização da ilha, Ingólfur Arnarson conquistaram supremacia sobre outras famílias, chefes rivais reclamaram a necessidade da instauração de uma assembleia que limitasse o seu poder. Entre 927 e 930, um homem chamado Grímur Geitskör (Grímur barba de cabra) ficou encarregue de percorrer a Islândia e escolher o lugar mais adequado a um projecto de parlamento.

Não tardámos a avistar o local eleito. Foi por ele seleccionado devido à posição privilegiada às margens do maior lago da ilha, Thingvallavatn, na base de uma falha rochosa proeminente e com vista desafogada. Também contribuiu para a escolha a conveniência de o anterior proprietário, Thorsteinn Ingólfsson, se ter visto condenado por assassínio e de Bláskógar, a sua terra, ter sido declarada pública. Esta foi uma decisão comunal e judicial madura considerando que estávamos no primeiro terço da idade das trevas e tendo ainda em conta a excentricidade das coordenadas geográficas – leia-se quase árcticas e do meio do Atlântico – em que o episódio teve lugar.

Continuamos sem ver sinal de gente. Em contrapartida, abundam os patos. A sua indiferença, soberba e até agressividade fazem-nos sentir os invasores que somos.

Um par de aves que dormita sobre o solo forrado de tojo não arreda patas do trilho estreito e muralhado porque é suposto avançarmos. Quando tentamos contorná-los, somos atacados à bicada de tal maneira que nos vem à mente a hipótese de serem reencarnações vikings aladas. Os bichos obrigam-nos a trepar o pequeno muro, a desviar caminho pela beira do Canyon de Silfra e a atravessarmos a ponte sobre o rio Oxará. Demos então com um complexo de edifícios brancos de madeira com telhados abruptos e percebemos que se tratavam do Thingvallabaer – a residência de Verão oficial do primeiro-ministro islandês – e a Thingvallakirja, uma igreja que substituiu a original do século XI. Foram ambos erguidos em 1930 para comemorar o milénio inaugural do Althingi, como complemento à constituição do primeiro parque nacional da Islândia, o PN Thingvellir que continuávamos a desvendar.

Examinamos os edifícios e o pequeno cemitério em que estão sepultados dois poetas contemporâneos da independência islandesa. Também daquele ângulo, nos confrontamos com o paredão elevado de lava solidificada que antecipava o horizonte para noroeste.  Pomo-nos a caminho das suas alturas. Com essa ascensão, convergimos por fim para a Lögberg (Rocha de Lei), o lugar exacto em que o Althingi se reunia anualmente. Era ali, entre duas fissuras profundas, que o lögsögumadur recitava as leis à assembleia.

Após a cristianização da Islândia, esse sítio mudou para o sopé de outros penhascos que revelaram uma acústica mais propícia a difundir os discursos pela multidão vinda dos quatro cantos da ilha. Alguns dos chefes chegavam de dezassete dias de viagem, o máximo previsto para os provenientes do seu extremo oriental, em que as sucessivas montanhas e os glaciares se provavam bem mais complicados de transpor.

Não temos dificuldade em encontrar esse outro lugar, marcado por um mastro de bandeira, nem de imaginar onde se situaria o Nedrivellir (os Campos Baixos), a área plana alojada numa cota inferior, em frente aos penhascos em que se crê que a Lögrétta – um conselho jurídico constituído por 48 membros votantes, 96 conselheiros e dois bispos – debatiam até chegar a decisões cruciais para o futuro da cada vez maior comunidade.

Nas imediações, achamos ainda diversos búdirs, abrigos de pedra e de turfa em que os participantes nas assembleias acampavam, outros que serviam de bancas de comes e bebes muito à laia do que acontece nos nossos dias durante os festivais de música. Naqueles tempos, como hoje, um dos produtos mais transacionados era a cerveja. Também eram vendidos e comprados comida e véus, entre outros.

Com um pé de cada lado de um dos prolongamentos estreitados da fissura Almannagjá, num equilíbrio simbólico mas precário sobre uma profundeza de lava negra, rimo-nos da curiosidade de os colonos vikings e celtas participantes acamparem, legislarem e consolidarem a futura nacionalidade islandesa, enquanto a América do Norte e a Europa se separavam mesmo que apenas alguns milímetros por ano.

Há muito que este virar de costas tectónico deixa marcas na planície de Thingvellir, não só a fenda Almannagjá, também outras expressões geológicas menores como a Brennugjá (o Abismo Ardente) onde, durante o século XVII foram queimados nove homens acusados de bruxaria e a Drekkingarhylur onde se precipita a cascata de Öxararfoss, usada para afogar mulheres acusadas de infanticídio, adultério ou outros crimes.

Nos dias que correm, as autoridades islandesas são algo mais misericordiosas. No entanto, por respeito à antiguidade e ao pragmatismo histórico da sua democracia, ao contrário do que acontece um pouco por todo o lado, são raros os autores de crimes que escapam à vontade do povo e à lei. Assim se viu com as condenações a prisão real dos vários responsáveis pelas fraudes que agravaram a crise financeira islandesa de 2008-11 decididas no sucessor do Althingi original, agora instalado num edifício cinzento de pedra da capital Reiquejavique.

Harare, Zimbabwe

O Último Estertor do Surreal Mugabué

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Islândia

O Aconchego Geotérmico da Ilha do Gelo

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Lagoa de Jok​ülsárlón, Islândia

O Canto e o Gelo

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Islândia

Ilha de Fogo, Gelo e Quedas d'água

A catarata suprema da Europa precipita-se na Islândia. Mas não é a única. Nesta ilha boreal, com chuva ou neve constantes e em plena batalha entre vulcões e glaciares, despenham-se torrentes sem fim.

Husavik a Myvatn, Islândia

Neve sem Fim na Ilha do Fogo

O nome mítico desencoraja a maior parte dos viajantes de explorações invernais. Mas quem chega fora do curto aconchego estival, é recompensado com a visão dos cenários vulcânicos sob um manto branco.

Seydisfjordur, Islândia

Da Arte da Pesca à Pesca da Arte

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Sombra vs Luz
Arquitectura & Design

Quioto, Japão

O Templo que Renasceu das Cinzas

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Aurora fria II
Aventura
Circuito Anapurna: 3º- Upper Pisang, Nepal

Uma Inesperada Aurora Nevada

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Coragem
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